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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Ciao, Marco

Itália vence País de Gales (1-0) e consegue três vitórias em três jogos, com sete golos marcados e zero sofridos. São já 30 jogos sem perder e 11 vitórias consecutivas (sem sofrer golos) para a equipa de Roberto Mancini. Verratti, que acabou com a braçadeira de capitão, regressou ao 11, jogou aquele seu futebol, ganhou a falta e bateu o livre que deu golo

Hugo Tavares da Silva

Quality Sport Images

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Havendo justiça no mundo e nem que seja uma pessoa por perto, a admirar, há gente que nunca deveria deixar de tocar numa bola de futebol. Por obséquio, claro. Seja num relvado, na praia, numa loja de desporto ou até à espera do jornal num quiosque qualquer. Marco Verratti é um desses. A bolinha, sempre bem arranjada, até sai de casa com outra disposição para mais um dia de trabalho.

O médio do PSG voltou, depois de ausente nas duas primeiras jornadas da fase de grupos, e isso terá encantado também Jorginho, que assim ganhou alguma folga na hora de construir, que é quase todas as horas. Eles falam a mesma língua. E não bastou se aproximarem para solucionarem aventuras pressionantes alheias ou para saírem de um afortunado metro quadrado, até no regresso do intervalo iam a dizer a mesma coisa a Federico Bernardeschi, que, depois de ser suplente utilizado contra a Turquia, foi titular graças à revolução no XI promovida por Roberto Mancini.

A ideia era a mesma, apesar de tantas mexidas: controlar e dominar o jogo, e morder quando descobriam o espaço. Verratti e Jorginho entendiam-se, claro, e tentavam encontrar Bernardeschi, que até começou numa linha e depois se soltou ligeiramente, e o enérgico Enrico Chiesa, que ganhou dimensão quando começou a jogar a extremo direito. Matteo Pessina, bom de bola, ia sendo venenoso nos movimentos à procura de espaço mais à frente. Andrea Belotti, avançado do Torino, mereceria um golinho, depois de algumas ocasiões e tanta disponibilidade.

Do outro lado, para contrariar aquela espécie de 3-2-5 com bola da Itália, o selecionador galês colocou em marcha um 5-2-3, com Daniel James, Aaron Ramsey e Gareth Bale como os primeiros homens a importunar a fineza na troca de bola dos italianos. Mais atrás estavam Joe Morrell e Joe Allen, que conseguiram, sejamos justos, bloquear muito do jogo interior do rival. A Itália procurou alguns cruzamentos.

Andreas Solaro - Pool

Uma movimento importante deste desenho italiano é realizado por um dos centrais, Alessandro Bastoni, com uma canhota maravilhosa, que procurar os colegas, sobe e às vezes até funciona quase como um lateral esquerdo, ficando à frente Emerson Palmieri a fazer de extremo. Rafael Tolói, na direita, confirmava a defesa a três lá atrás.

Já depois de Haris Seferović colocar a Suíça na frente do jogo com a Turquia (6’), Belotti e Chiesa começaram o seu festival de bombardeamento contra a baliza de Danny Ward, suplente de Kasper Schmeichel no Leicester.

Bale, mais apagado, mostrara-se uma vez com um lance que nos faz lembrar o antigo Bale, que deixava para trás defesas como se nem dessem trabalho. A rivalizar com esta manobra de lembramento, e depois de uma passe mal medido, Roberto Mancini deu uns passos atrás, olhos no amor de sempre e tocou com o calcanhar, lembrando aquele senhor golaço num Lazio-Parma.

O melhor momento do País de Gales, que talvez estivesse a sofrer um bocadinho sem o gigante Kieffer Moore, pela oportunidade de esticar o jogo e fazer o campo crescer, aconteceu a meio da primeira parte. Os futebolistas galeses mostraram que sabiam tocar na bola, chegaram à área e o cerco manteve-se ali por um tempo importante.

Claudio Villa

A Suíça fez entretanto o 2-0, por Xherdan Shaqiri, que bisaria mais tarde (3-1). Segundo alguns magos da estatística, Steven Zuber juntou-se a um lote muito pequeno de jogadores que fizeram três assistências num jogo de Europeu. Entre algumas poucas discrepâncias, Rui Costa era unânime, no tal jogo de 2000, contra a Inglaterra. Porém, todos sabemos que o golo de Luís Figo foi uma canção a solo, certo?

Verratti, sempre generoso, até no papel defensivo, ia-se soltando mais, dava opções perto da linha, perto de Jorginho, perto dos defesas, enfim, não havia terreno em pousio para ele. Depois de quase, quase encontrar Belotti, num belo passe por cima da defesa, pegou na bola, deixou alguém cheirá-la e ganhou uma falta. Depois, malandro, colocou a bola ao primeiro poste, a meia altura, beneficiando a entrada de Pessina. O canhoto desviou com o pior pé e festejou o 1-0. Por esta altura, Gales já ia recuando, impotente, enquanto os outros tocavam.

Antes do intervalo, Verrati voltou a combinar com uns rapazes de azul que andavam pelo lado esquerdo, levantou a cabeça e viu outra vez Pessina a entrar, com um faro invejável. Desta vez o jogador da Atalanta não meteu a bola na baliza galesa.

Na segunda parte, cheinha de substituições, entre elas a de Bonucci (braçadeira para Verratti), que saiu lesionado e deu o lugar a Francesco Acerbi, viveu-se praticamente de uma bola espetacular ao poste de Bernardeschi, de livre direto, e da expulsão de Ethan Ampadu, por pisão num adversário, reduzindo ainda mais as possibilidades dos britânicos.

Kieffer Moore entrou finalmente e, apesar de mostrar bom pé e um porte físico que não é brincadeira, não ameaçou a baliza de Gigi Donnarumma, substituído aos 89’ por Salvatore Sirigu, numa demonstração de atenção à saúde do grupo por parte de Roberto Mancini.

Claudio Villa

Ramsey e Bale tiveram a oportunidade de empatar o jogo, com ocasiões gritantes, mas não estavam para aí virados. O médio da Juventus fazia mais mossa quando saía do lugar e vinha atrás, ver o jogo de frente.

E nada mudaria até ao fim, nem a energia de Chiesa, nem a afinação de Belotti, que enviou mais um tiro à baliza de Ward. Nem o marcador, e isso significa que ambas as seleções estão apuradas: Gales e Suíça terminam com quatro pontos, mas o saldo de golos é favorável aos galeses - os helvéticos aguardam o angustiante fado dos melhores terceiros lugares. O que também não se alterou foi a classe útil de Marco Verratti, que regressou com pinta: 136 toques na bola, 103 passes certos em 110 (94%), sendo que cinco desses foram decisivos, e ganhou quase todos os duelos em que alinhou.

Um-zero, está feito: três jogos, três vitórias, sete golos marcados, zero sofridos. Mais: são já 30 jogos sem perder e 11 vitórias consecutivas (sem sofrer golos). Que caprichosa é a vida, não é? Então agora que a Itália joga para a frente, sempre com a bola no pé, é que deixa de sofrer golos e encanta o mundo.

Se a Itália foi capaz de se renovar, esvaziando fantasmas e mitos do passado que pareciam impossíveis de ultrapassar, há esperança no mundo para um problema ou outro.