Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

O homem a quem costumam acontecer coisas esquisitas já está na história (mas por boas razões)

De cada vez que Aaron Ramsey marca um golo, o mundo treme e uma celebridade falece. Este Euro não foi exceção, mas o golo que marcou no jogo contra a Turquia fez do médio da Juventus o único galês a marcar em dois campeonatos da Europa diferentes. O resto é só parvoíce. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

Rui Gustavo

Marcio Machado/Getty

Partilhar

A primeira parte do jogo contra a Turquia estava a chegar ao fim quando Aaron Ramsey matou no peito um passe longo de Gareth Bale, deixou a bola tocar uma vez no relvado e rematou com classe para o fundo das redes da baliza defendida por Çakir, cortando assim o nó turco que mantinha o marcador 0-0.

Os galeses têm a presença nos oitavos de final praticamente assegurada mas este domingo têm um osso italiano duro de roer. Em nove jogos oficiais ganharam dois e há quase vinte anos que as duas equipas não se defrontam.

O médio centro a Juventus, que até teve uma época complicada marcada por várias lesões, entrou imediatamente para a história do futebol galês tornando-se o primeiro jogador do país (um dos quatro do Reino Unido) a marcar dois golos em dois campeonatos da Europa. Nem craques como Ryan Giggs ou Gareth Bale o conseguiram.

Mas poucos minutos depois do golo, já havia sites a citar os Iron Maiden: "Ramsey scored: Run for the Hills" O jogador galês é vítima de uma maldição meio inventada que faz dele uma espécie de Hades, o deus dos mortos da mitologia grega. De cada vez que marca um golo, uma celebridade morre.

Até já houve quem fizesse as contas: os 41 golos oficiais que o médio revelado no Arsenal marcou na carreira corresponderam à morte de 23 celebridades. A parvoíce começou em 2011: Ramsey marcou um golo contra o Manchester United e no mesmo dia Osama Bin Laden, líder da organização terrorista Al Qaeda, era morto por um comando americano no Paquistão, depois de mais de um ano em fuga.

Cinco meses depois, marcou um golo na derrota por 1-2 contra o Tottenham. Dois dias antes, Steve Jobs, o fundador da Apple, tinha sucumbido a um cancro. A lista foi engrossando com nomes como Luke Perry, Keith Flint (dos Prodigy), Whitney Houston ou mesmo David Bowie. E até Robin Willlams se matou depois de Ramsey marcar um golo. O jogador comentou a "maluquice" numa entrevista a um jornal britânico e tentou brincar: "Acho que também já matei vilões".

É verdade. Muammar Kadhafi, o ditador líbio, foi morto dias antes de Ramsey marcar um golo na Champions. "Mas isso é só um rumor estúpido", protestou o companheiro de Cristiano Ronaldo na mesma entrevista. Tem razão.

Mas agora, depois de uma temporada em que marcou dois golos pela Juventus que não foram associados a morte de ninguém, Ramsey marcou contra os turcos e dois dias depois morria Keneth Kaunda, o primeiro presidente da Zâmbia que conseguiu a independência da antiga colónia britânica da Rodésia do Norte sem derramamento de sangue e sem uma guerra civil subsequente. Um feito quase inédito nas várias revoluções independentistas africanas.

Manteve-se no poder durante 27 anos mas aceitou marcar eleições que o afastariam do poder em 1991 e não tentou voltar ao poder nem conspirou contra o novo Governo.

Apoiou a luta de Mandela contra o apartheid da África do Sul e foi sempre uma pedra no sapato do Governo racista que oprimia os negros. Ajudou a resolver conflitos no Quénia e na Tanzânia e passou para a história como o Ghandi africano. Era um dos últimos pais da independência africana ainda vivo.

A parvoíce da maldição Ramsey foi só um pretexto para contar esta história.