Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

A vez dos underdogs finlandeses, há 80 anos à procura da sorte

A Finlândia é daquelas seleções para quem o futebol reserva sempre uma certa dose de ironia. Não é a melhor das Finlândias, mas é a que está a fazer história no país. Esta segunda-feira essa história pode ganhar contornos heróicos. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

João Diogo Correia

Tim Sparv, à direita, é o capitão e o porta-voz dos sentimentos finlandeses nos últimos anos. E em particular neste Euro 2020

FRIEDEMANN VOGEL

Partilhar

Há dez dias, Tim Sparv escreveu um dos parágrafos mais certeiros sobre o que sentem os adeptos de futebol de um certo tipo de clubes e seleções, cujas memórias estão marcadas pela tragicomédia. “Raramente foi um passatempo confortável e agradável apoiar a seleção da Finlândia. Autogolos ao acaso no último minuto e secas de um ano sem vitórias ajudaram a moldar a imagem de um país azarado e mal sucedido.”

As palavras do capitão de uma das seleções debutantes do Euro 2020, publicadas no britânico The Guardian, servem para várias equipas, em vários momentos históricos. Acontece que a experiência de anos a acompanhar futebol dá-nos a quase certeza de que para os azarados está guardada uma espécie de justiça divina que, aliás, prefere aparecer num momento sem grande sentido. Como se, até para ter sorte, os azarados escolhessem o momento errado.

Em 2020/2021 tivemos disso alguns exemplos, o mais próximo o do Sporting. Não era a melhor das equipas que vestiu de leão ao peito? Não era. Não era o momento de maior união e/ou saúde financeira no clube? Certo. Então é agora mesmo que vem o título pelo qual os adeptos esperam há quase duas décadas.

Também sobre a seleção, há a ideia generalizada de que o Euro 2016 não foi o torneio com os mais dotados rapazes de passaporte português. Aponta-se antes para a “geração de ouro”, que caiu em 2000 nas meias-finais com uma mão na bola, ou para a de 2004, com metade do que restava dessa geração a juntar-se a outra metade recém-campeã europeia de clubes, que tropeçou ainda mais bizarramente na final.

Em 2016 o futebol era, digamos, menos vistoso, mais propenso ao empate a zero do que a cavalgadas vitoriosas. Pois foi precisamente em 2016 que Portugal se libertou do fardo da equipa que joga maravilhas e, no fim, deixa a vitória para os outros.

Podíamos continuar. O futebol tem os seus caprichos e não vale a pena dizer que não estamos avisados. Mas é preciso falar da Finlândia.

O mesmo Sparv, além de capitão, porta-voz dos sonhos nórdicos, em entrevista ao Financial Times resumiu numa frase a forma como a seleção finlandesa encaixa no género acima descrito. “Não somos uma geração de ouro, como Jari Litmanen e Sami Hyypiä foram, mas aqui não há egos e trabalhamos duro.”

Não sendo certo se havia mensagem subliminar para os craques de outros tempos, é decerto consensual que aqueles dois rapazes foram do melhor que já foi dado ver aos finlandeses, que em matéria de vitórias morais também já podiam abrir um museu. Ainda assim, aqueles dois, e outros como eles, nunca lá chegaram.

E é um conjunto de rapazes mais ou menos desconhecidos, alguns a jogar em campeonatos periféricos, a levar a seleção ao olimpo, chegando pela primeira vez na história da Finlândia a uma competição internacional.

Só que, insistimos, para equipas desta estirpe os momentos de alegria trazem atreladas umas mensagens caídas do céu a pedir calma. Sparv fala delas. “É claro que há uma pandemia mortal que leva a UEFA a atrasar o início do Euro 2020 quando a Finlândia está prestes a participar pela primeira vez (...) a pandemia adiar o nosso grande dia debaixo dos holofotes encaixa na narrativa.”

Não o interpretemos mal: é também claro que Sparv e os finlandeses não põem a felicidade em quatro linhas à frente da destruição provocada pela covid-19. Só que a ironia não tem limites.

Logo no primeiro jogo de sempre num Europeu, já a história estava feita, a Finlândia gravou-a a tinta permanente, ganhando o jogo à vizinha Dinamarca. “Surpresas incómodas estão sempre atrás da esquina”, alertou Sparv no "The Guardian", sem adivinhar o por vir: essa primeira vitória histórica ainda nem tinha acontecido e já era insignificante, a partir do momento em que Christian Eriksen se estendia no relvado a lutar pela vida.

Nem era preciso adivinhar, os finlandeses sabem sempre ao que vão. “Apoiar a Finlândia não foi feito para ser fácil”, lembra Sparv. “Talvez seja por isso que tendemos a celebrar um pouco mais os dias bons.”

Adeptos finlandeses esperavam há mais de 80 anos pelo momento em que a seleção se apuraria para um Europeu ou Mundial

Adeptos finlandeses esperavam há mais de 80 anos pelo momento em que a seleção se apuraria para um Europeu ou Mundial

KIRILL KUDRYAVTSEV

Esta segunda-feira, há alguns pontos a favor da Finlândia para que tenha um 'dia bom', que a adicione à lista, não tão grande assim, de seleções que passaram a fase de grupos quando se estreavam na prova, como o País de Gales ou a Islândia no último Europeu.

O primeiro é o facto de ser um underdog, o que costuma servir para colher a simpatia da maioria dos adeptos dos outros — a célebre metáfora de David contra Golias nunca passa de moda. Ainda que, por um mistério insondável, quem sabe a tal propensão para o infortúnio, a Finlândia não esteja a gozar desse estatuto, pelo menos não de forma tão evidente quanto os bravos islandeses há cinco anos, que chegaram aos quartos-de-final.

Mas 2020/2021 tem sido um ano forte para underdogs, como nos lembram as vitórias do já referido Sporting, a do Atlético de Madrid em Espanha, do Lille em França, do Inter em Itália ou do Chelsea na Liga dos Campeões frente ao colosso Manchester City.

O segundo indício positivo é o facto de o adversário desta segunda-feira (20h, RTP1), a Bélgica, ainda que muito mais forte e favorita sob qualquer ponto de vista, estar já apurada, o que significa que pode, e até deve, fazer descansar as principais figuras, como Kevin de Bruyne, Eden Hazard ou Romelu Lukaku.

A Finlândia sabe ainda que, mesmo perdendo, tem boas hipóteses de ficar com o terceiro lugar, o que pode significar um apuramento como um dos melhores terceiros classificados — foi assim que Portugal passou em 2016, com os três pontos que a Finlândia já tem, e todos sabemos como acabou.

Não é a alternativa mais ortodoxa, mas os finlandeses são especialistas.

A juntar a tudo isso, o alvo a abater é a Rússia, que joga com a Dinamarca. Por um lado, a Finlândia conta com a ajuda dinamarquesa, que quer sair deste Europeu com uma imagem bonita, mesmo que não tão bonita quanto a recuperação de Eriksen. Os dinamarqueses perderam os dois jogos já disputados e têm aqui um ponto de honra a fazer e uma remota hipótese de passar o grupo.

Por último, a história joga a favor dos finlandeses. Não dentro de campo, claro, onde os russos têm um longo historial de vitórias sobre escandinavos. Aliás, a primeira vez que se cruzaram Dinamarca e Rússia, na altura ainda União Soviética, foi em 1966 e os nórdicos foram escovados sem dó — 6-0 para a então campeã europeia URSS. A Finlândia reza por uma história diferente.

Mas é de história fora dos relvados que se trata. E nessa, superar russos não é sensação estranha a finlandeses, que em 1939 também tinham menos argumentos, quando a capital Helsínquia foi bombardeada, no dealbar da Segunda Guerra Mundial. Nada faria prever que um exército com um terço dos homens encostasse as tropas de Estaline a um canto, mas foi o que aconteceu na chamada Guerra de Inverno ou Guerra Russo-Finlandesa. Fica o aviso a Stanislav Cherchesov, que guia a Rússia na busca por novas grandes caminhadas.

A nós guia-nos o texto de Sparv, para entender o que passa pelo peito de um finlandês em 2021. “A cada dois verões, assistíamos sem acreditar aos nossos vizinhos nórdicos a ter os melhores momentos das suas vidas num Mundial ou Europeu. A cada dois verões, perguntávamo-nos amargamente: ‘Quando será a nossa vez?’.” Claro que foi nos estranhos anos de 20/21 que essa vez chegou.

As quatro equipas do grupo B defrontam-se esta segunda-feira, às 20h: Dinamarca vs Rússia (Copenhaga) e Bélgica vs Finlândia (São Petersburgo).

  • Finlândia vs Rússia: O David que sabe conviver com Golias
    Euro 2020

    José Milhazes conta-nos como a Finlândia se tornou independente da Rússia em 1917 - e foi lá que, a 25 de fevereiro de 1905, se encontraram pela primeira vez os dois futuros ditadores comunistas soviéticos, Vladimir Lenine e José Estaline -, foi invadida pelo Exército Vermelho em 1939 e depois da II Grande Guerra manteve com os vizinhos uma relação de diplomacia. Agora, encontram-se em campo pela primeira vez numa grande competição de futebol

  • O que falta definir na última jornada do Europeu? É isto
    Euro 2020

    Os cenários e a matemática visando os apuramentos de todos os grupos. Há coisas inevitáveis, outras mais improváveis e ainda aquelas que podem pingar para qualquer lado. Países Baixos já não perdem o primeiro lugar do Grupo C e a Macedónia do Norte está fora do torneio. E Portugal? É fazer as contas

  • Ajoelhado, Lukaku mantém-se sempre de pé
    Euro 2020

    Estreou-se pela Bélgica há 11 anos, com 17, mas só depois alcançou um direito que não devia ter de reclamar: ser chamado “Lukaku, avançado belga”, e não “Lukaku, avançado belga de origem congolesa”, sempre nos dias maus. É por essas e por outras histórias que continua a ajoelhar-se. Lukaku queria o avô vivo por muitas razões, a principal era para poder ouvi-lo dizer: “Vês? Já não preciso de mostrar o B.I. Eles sabem o nosso nome”. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

  • Oito boas razões para ver os jogos do Grupo B
    Euro 2020

    Vai-se ao passado para se festejar o presente. Neste texto estão algumas das maiores estrelas do Grupo B do Euro e também os homens que antes deles fizeram história. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias