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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"O cérebro dele é tão rápido, não sei que tipo de computador está a trabalhar lá": era uma vez Jari Litmanen, "The King"

Em dia de decisão para a Finlândia no Euro 2020 (joga contra a Bélgica, às 20h, RTP1), a Tribuna Expresso foi conversar com o realizador que fez o documentário sobre Jari Litmanen, o maior futebolista da história daquele país

Hugo Tavares da Silva

VI-Images

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A certa altura alguém diz que Jari Litmanen é como jazz, de tão bom que era. Enfim, metemos play e estivemos a ver o documentário “The King” (2012) sobre o mais lendário futebolista da história do futebol finlandês. Depois, fomos conversar com o realizador, Arto Koskinen.

A voz seca, os olhos negros que furam alvos de ferro e as reflexões seduzem. Jari Litmanen é um daqueles homens que faz cócegas no ponto mais sensível da nostalgia, o seu jogo era imenso, a figura passava ao lado. Era elegante, útil, ia salpicando genialidade aqui e ali. “Inventava coisas do nada”, chegou a dizer o ex-colega Steven Gerrard, na altura jogador do Liverpool.

Os seus pais também jogavam futebol, a bola esteve sempre dentro de casa. Uma vez, em miúdo, quis tanto a bolinha que partiu uma porta de casa, já que ele avisara e a mãe insistia em não deixá-lo ir jogar porque fazia um frio de rachar lá fora. Jari, percebe-se ao longo do documentário, tem as suas ideias. Um amigo de infância conta que o plano dele passava por formar-se, fazer o serviço militar e deixar o país.

Mas o futebol, que chegou a estar ameaçado quando perdeu um primo na adolescência, trocou-lhe as voltas, porque o talento vivia dentro das suas botas. Depois a coisa cresceu graças à sua mentalidade e a um olheiro do Ajax, que teve de suar para convencer Louis van Gaal de que o miúdo era bom. O acaso também ajudou: Litmanen só ganhou mais uns dias a treinar à experiência porque alguém do plantel se lesionou.

A transferência para o colosso de Amesterdão aconteceu em 1992, depois de ter estado a treinar no Barcelona um ano antes. Gostou muito de Koeman, Laudrup e Stoichkov. E, claro, como tantos, teve de escutar o debate sobre se era lento ou não para jogar futebol. “Não era rápido, mas chegava sempre na altura certa”, pintava Van Gaal.

Mark Leech/Offside

As lesões foram sempre uma praga. As conquistas importantes iam equilibrando. Foi sendo feliz, principalmente na seleção e no Ajax, onde estava talhado e apareceu para substituir Dennis Bergkamp. E foi como uma película, passo a passo, até ser influente e amado, com o seu 10 nas costas. Ronald de Boer ficava impressionado com o “trabalho extra” que fazia. “Não desperdiçava um minuto no treino, estava focado em ser melhor”, recorda Danny Blind.

Estava sempre a alongar e isso metia sorrisos e risos nas bocas de todos à volta. Um jornalista, maravilhado, contou como Jari lhe explicou uma vez a lógica de um golo recorrendo à experiência de hóquei no gelo.

Em Camp Nou, o templo do Barça, cabia a população de Lahti, desabafou, lembrando a sua terra, enquanto olhava à volta, encantando-se com a relva "sem buracos". Xavi e Puyol elogiaram-no bastante e admitem que ele os ajudava, eram garotos. “Estava duas jogadas à frente”, diz o então médio, que revelou ainda que Litmanen ia para a sauna nu, só com as botas.

As chuteiras eram outra paixão - mostra até umas que usou pela última vez contra Portugal -, tinha várias, reforçadas no calcanhar e que mandava arranjar a um certo senhor na Finlândia. Por ali manteve o hábito de bater sete ou oito bolas na baliza depois do treino.

Até que chegou ao sonho de menino: Liverpool, onde teve nas costas o 37 (3+7=10), pois não podia ter o número 10, era de Michael Owen. Foi ali que enganou uma vez Van der Sar, o guarda-redes do Fulham que tinha uma irmã com um gato chamado Jari. Há um detalhe contado no documentário sobre o ex-futebolista que define tudo: "Andava sempre a tocar na bola, como se fosse um miúdo com um brinquedo". Isso é amor, e por isso só deixou de jogar para lá dos 40.

Clive Brunskill

Quando e porque decidiu fazer um filme sobre Jari?
Bem, pediram-me para realizar o filme sobre o Jari porque seria um bom tema, mas achava que era impossível abordá-lo. Ele era uma estrela tão grande na altura e um pouco tímido também. Mas ele era um grande amigo do Mika Kaurismäki, o realizador e produtor finlandês, e eles juntaram-se uma vez e tinham a ideia de fazer um filme sobre o Jari, pois ele ia fazer 40 anos na altura. Ele também estava a pensar em deixar o futebol de vez. Mas o Mika não tinha tempo para fazer o filme, então ele pediu-me. Ele sabia que eu era um entusiasta de futebol, eu estava a jogar e ainda estou, numa equipa de veteranos na Finlândia. Ele perguntou se eu estaria interessado e foi como um lindo choque para mim [risos], pois nunca tinha pensado que seria possível. Disse-lhe imediatamente "claro, estou dentro".

Foi uma viagem porreira. Pude conhecer grandes estrelas da altura que conheciam o Jari. Eu sabia que o Jari era uma grande estrela, mas quando fizemos essa viagem a Espanha e Inglaterra, Liverpool, e falámos com as pessoas, enfim, toda a equipa do filme percebeu a grande estrela que ele era na realidade. Na Finlândia, a nossa perspetiva é um pouco limitada talvez quando falamos de futebol [risos]. O hóquei no gelo é o nosso desporto nacional, mas o futebol está a crescer nesta altura, é uma boa altura para nós.

Que tipo de homem é Jari?
É uma pessoa simpática, tem um sentido de humor porreiro e um pouco estranho. É um amigo muito bom. Quando ele aceita alguém como amigo, então és amigo mesmo, mas é também um bocado tímido, especialmente com os media. É interessante que, quando dava entrevistas na Finlândia, por exemplo, era muito limitado o que ele dava. Mas na Holanda, quando dava entrevistas, era mais relaxado e aberto e tal, não sei porquê. Bom, claro, na Holanda era muito respeitado em todo o lado, não só em Amesterdão, independetemente da equipa que apoiavam. Respeitam-no muito.

E como futebolista, como o descreve?
No seu melhor, como Steven Gerrard disse no filme de uma maneira simpática, era um jogador que conseguia criar situações do nada. Parecia que não havia quaisquer possibilidades de criar alguma situação interessante, mas o cérebro dele é tão rápido, não sei que tipo de computador está a trabalhar lá. É um pensador rápido e também parece que ele via o campo todo de uma forma tridimensional, até quando estava de costas e por aí fora, sabia onde os outros estavam, onde devia meter a bola. Ele era capaz de criar algo do nada. Era perigoso para os rivais.

Acha que ele sente que foi esse super jogador? Como é que ele entende a sua carreira?
Ohh... [risos] Absolutamente, eu penso que sem dúvida ele sente isso. Mas ele era também um futebolista muito humilde. Quando vês o documentário percebes, e foi incrível para mim conhecer Xavi, Puyol e por aí fora, e como eles falam do Jari, tendo em conta que a sua carreira no Barcelona não foi memorável. Quando ele foi para o Barcelona era um grande estrela para eles, quando eram novos. A forma como falaram nele fez-me perceber quão grande era. Claro que ele sabe quão grande é. Ainda é um grande nome na Holanda, especialmente no Ajax. É um dos ícones do Ajax e será sempre, acho eu.

Ryan Pierse

Mencionou Xavi, que contou aquela história maravilhosa da sauna...
[gargalhada] O que o Jari fazia, na verdade, é uma tradição finlandesa. Quando temos umas botas de futebol de couro novas, normalmente vamos a uma sauna com elas porque ficam a assentar melhor, ficam molhadas, depois secam. Acho que a tradição vem dos anos 70, ou 60 até.

Por cá há quem use em casa para elas se habituarem ao pé. Desconhecia isso.
Bom, eu desconhecia que eles tinham uma sauna em Barcelona [risos].

Jari nunca jogou um grande torneio de seleções. Agora vemos a Finlândia a vencer a Dinamarca e até a sonhar, quem sabe. Jari é um herói para estes rapazes, para estes futebolistas? Eles falam nele ou é passado?
Absolutamente, até acho que ele está a trabalhar para a seleção nacional, nos bastidores. Não sei o que está a fazer. Não estou certo se está com a equipa agora, mas é uma espécie de personagem invisível por lá. Eu vi-o quando ele era treinador adjunto da seleção sub-16 e ele é muito bom. Não sei se está a pensar em alguma carreira como treinador. Acho que esteve também como adjunto do Lahti FC, da nossa liga nacional.

O que mais gostou de descobrir enquanto fazia o filme?
Houve muitas coisas. Uma delas foi, claro, ver os bastidores deste mundo do futebol. Um dos encontros mais memoráveis foi com [Edwin] Van der Saar. Quando eu estava a fazer o filme, tinha outros trabalhos em Manchester e lembrei-me que o Van der Saar estava a jogar no Manchester United, talvez desse para o entrevistar. Liguei ao Jari para saber se seria possível entrevistá-lo. Jari disse: "claro, é uma bela ideia, já te ligo". Demorou uns 20 minutos, ligou-me e disse-me que o Van der Sar estava disponível, no centro de treinos do United. Eu ia pensando "oh meu deus, isto é absolutamente fantástico". O Van der Sar foi uma pessoa ótima e divertida, tinha grandes histórias sobre o Jari.

Até o nome do gato da irmã...
[risos] Yeeeees. E, claro, o golo que o Jari lhe marcou quando estava a jogar no Liverpool.

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