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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Darren Anderton: "Vem sempre aquele sentimento 'e se?', sabes. Devíamos ter vencido o Euro 1996, lamentamos não ter conseguido"

Uma lesão ameaçou a oportunidade de jogar um Campeonato da Europa em casa, mas Terry Venables contou sempre com ele. Anderton, um médio do Tottenham, então com 24 anos, conta à Tribuna Expresso sobre o mês em que se ouviu a toda hora "football is coming home". E, claro, sobre aquela noitada em Hong Kong e Gascoigne: "É um génio, é tão, tão divertido e um bocado louco às vezes"

Hugo Tavares da Silva

Darren Anderton deixa para trás Rafael Alkorta e Fernando Hierro, nos "quartos" do Euro 1996

Clive Brunskill

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Que tal a vida na Califórnia?
É muito boa. A minha mulher é daqui, por isso decidimos estar aqui, o que é perfeito. Parece que a Califórnia está a dar-se bem com a covid-19, tanto que ontem começámos a ir a todo o lado sem máscara, por isso, fingers crossed [figas].

Ainda vês futebol?
Sim, estou aqui sentado a ver agora [Dinamarca-Bélgica; a conversa acontece quinta-feira, 17 de junho].

Está a ser um belo jogo, a Dinamarca joga muito bem.
Sim! É bom de ver, não é? Aquilo [Christian Eriksen] foi uma das coisas mais difíceis que tive de ver, estou certo que tu também. Eles estão mesmo a jogar muito bem, o que é ótimo. Oxalá consigam ter os resultados. Vejo tudo da Premier League, os jogos começam às 12h em Inglaterra e são quatro da manhã aqui, por isso às vezes é uma luta [risos], mas, sim, desfruto das minhas manhãs de sábado e domingo aqui com os jogos às seis, sete e nove da manhã. É muito fixe.

Vamos lá até 1996. Tiveste uma época difícil, o que aconteceu?
Yep, tive uma lesão no final da temporada de 1995, talvez tivesse uma hérnia e precisasse de uma operação para voltar na pré-época, vi que as coisas não estavam bem. Os doutores discordaram e disseram que era só uma lesão no tendão, eu esperei, esperei, esperei e um doutor disse que era uma hérnia. Isto significou perder as primeiras seis semanas da época, por isso o fisioterapeuta não ficou bem visto com o presidente e com o treinador. Eles mandaram-me para outro lado, onde faziam um procedimento novo, talvez só perdesse duas semanas. Outro jogador tinha tido o mesmo e foi lá. Fomos lá e infelizmente não foi muito bem feito, por isso tive problemas e falhei talvez quatro meses da época. E não pensei que estivesse pronto para o torneio. Com sorte, Terry Venables era o selecionador de Inglaterra e o fisio dele tinha estado no Tottenham antes, eu conhecia-o, ligava-lhe e ia vê-lo. Finalmente, eu ia correr com ele à noite para as ruas, pelos parques de Londres, em segredo, para tentar estar em forma para o torneio. Tive muita sorte de estar lá, foi um grande verão.

Aubrey Washington - EMPICS

Então, a convocatória não foi uma surpresa.
Sempre esperei estar na equipa, estar envolvido. Nos meus primeiros 10 jogos fiz uns cinco golos, estava a jogar muito bem. Ia falando com o Terry e ele sabia que eu andava a ver o fisio, e sabia como estava a minha condição física, senti sempre que estaria envolvido. Mas havia outros jogadores que estavam a jogar bem. Acabei a época muito bem, fiz três jogos numa semana depois de estar parado cinco meses. Ele sabia que eu não demoraria a ficar pronto fisicamente. Havia muita crença de estar lá, mas não sabia se ia jogar. É bom estar na equipa, mas eu quero jogar. Todos querem. Antes do torneio, jogámos com a Hungria e marquei dois golos, joguei bem. Depois, na China, ganhámos 3-0, fiz três assistências. Sentia-me bem. Antes do jogo em Hong Kong, ele perguntou como eu estava, disse-me que eu estava muito bem, que nem era preciso jogar aquele jogo de caridade. "Bom trabalho, estou feliz que depois de tudo estejas bem", disse ele. Apesar de ter estado sempre confiante, é sempre bom quando te dizem isso [risos].

O torneio não começou muito bem [com a Suíça de Artur Jorge, 1-1], mas houve uma boa notícia: Alan Shearer marcou pela seleção depois de 21 meses.
Foi a única notícia boa. Joguei mal, claro, quase todos jogaram. Os adeptos não estavam felizes, a imprensa estava a enlouquecer a dizer quão maus nós éramos, principalmente porque tivemos a noitada em Hong Kong, jogámos mal, dentist's chair... Basicamente, a imprensa estava a atacar-nos [risos]. Foram tempos duros. Acho que estávamos todos em baixo, mas lembro-me que o Alan era o único a andar pelo hotel com um pequeno sorriso. Claro que ele queria ganhar, mas muita gente andava a questionar se ele devia jogar, claro que devia jogar e claro que ele fez o que ele fez. Os 21 meses estavam esquecidos. Era um dos melhores pontas de lança do mundo. Mas sim, foi um mau início, seguramente.

E depois tivemos aquele Inglaterra-Escócia. É especial jogar contra eles ou nem por isso?
É, definitivamente é. Eu joguei contra eles nos Sub-21, em Toulon, e teve um sabor diferente. O meu pai é escocês, então é ainda mais diferente [risos]. É um sentimento louco, principalmente porque jogámos tão mal [no primeiro jogo], sabíamos que a pressão seria... oh... as pessoas iam rir-se de nós se fôssemos eliminados no nosso país. A pressão era enorme, tínhamos muita fé em nós. Perdemos alguma confiança no primeiro jogo. Felizmente tínhamos um treinador que acreditava em nós, não fez mudanças, jogaram os mesmos. Conseguimos um resultado melhor, jogámos melhor. Na segunda parte, durante 20 minutos, jogámos muito bem, conseguimos o golo, o Alan marcou outra vez, um golo maravilhoso de equipa, de que toda a gente se esquece. Depois há dois minutos loucos. Primeiro, um déjà vu [penálti para a Escócia, tal como no jogo com a Suíça], vai ser 1-1, outro penálti, oh meu deus, o que estamos a fazer?, isto é péssimo. O David Seaman defendeu. Depois, claro, o Gazza marcou o golo do torneio, um momento de génio, que fechou o jogo para nós. Foi um alívio, os adeptos ficaram loucos, foi incrível.

Mark Sandten

Nunca se diz mas foste tu que passaste a bola para Gascoigne.
Sim, exato, sim. Eu passei bem a bola para o Gazza, eu consegui ver o passe porque estou a ver o outro jogador de frente e vejo o Gazza a fazer a corrida. Por isso implorei ao Teddy [Sheringham] "Teddy, Teddy, passa, passa", claro que o Teddy faz o que está certo e passa-me, e eu consigo fazer o passe para o Gazza e depois, claro, a magia dele. Eu estava a pensar "chuta, chuta, chuta" [risos], e depois claro que ele dá aquele toque e parecia em câmera lenta. Quando a bola desce, sim, é agora, isto é golo. O Gazza fez o golo e a celebração, que é louca e divertida. Sentimos tanto alívio, sabes, libertámos tanta energia. Foi imenso. Disseram-nos que éramos maus, mas claro que o Gazza sofria mais, porque era o jogador mais famoso do mundo provavelmente. Ou é tão bom, ou é tão mau. Ele fez o golo genial de que toda a gente se lembra, claro. Ele estava a jogar na Escócia, no Rangers, fez o golo contra os companheiros de equipa. Foi tudo o que devia ter acontecido [risos].

Mencionaste a cadeira do dentista. Quão louca foi a noite em Hong Kong? De que te lembras?
Não me lembro de muita coisa [gargalhada], foi muito louco. Era só uma noite normal, calma até, bebemos umas cervejas, jantámos, depois tivemos autorização para ir sair à noite, foram alguns jogadores e membros do staff. Ia ser o aniversário do Gazza à meia-noite e acho que foi quando começou [risos]. Foram muitas bebidas tolas e depois alguém viu uma cadeira parva no meio da pista de dança e foi isso. Estávamos só a criar espírito de equipa, sabes. É bom sair. Eu não conhecia todos os jogadores assim tão bem como conheço os meus colegas de equipa. Foi bom, é o que precisas, e claro que a imprensa o levou da maneira errada porque jogámos tão mal no primeiro jogo. É natural, percebemos, como futebolistas ingleses, que isso ia acontecer. Tínhamos um treinador que era tão inteligente e que nos disse: "Ok, ok, sem problema, nós lidamos com isto. Não podemos ir para mais noitadas, não fazem isto e aquilo, mas lidaremos com isto no estágio, ficamos juntos, ninguém dá entrevistas sobre isso. Estamos concentrados no próximo jogo". E foi assim que criámos um espírito de equipa tão incrível. Isso é tão, tão importante em qualquer equipa.

Pergunto-me sempre quem fez na discoteca o que Shearer fez no relvado, com a água.
Não foi nenhum de nós, foi alguém do bar [gargalhada]. Por isso, não o podíamos ter na equipa [outra gargalhada].

Quem é Paul Gascoigne?
É um génio. É tão, tão divertido, um bocado louco às vezes. É muito apaixonado por futebol, mas também é um ser humano genuíno e bom. Na minha estreia pela Inglaterra, eu estava muito nervoso, tinha uns 21 ou 22 anos. À tarde, antes do jogo, fizemos uma sesta, depois alguém bate à porta [do meu quarto de hotel]. Vi que era o Gazza e pensei "oh, não, o que vai ele fazer?". Ele entrou, sentou-se, perguntou como eu estava e se tinha uma máquina de barbear. Nem me lembro se já fazia a barba na altura. E ele disse: "Só queria dizer-te para desfrutares desta noite, é o melhor sentimento do mundo, é a tua estreia, não estejas nervoso. Pertences aqui, és um grande futebolista. O Terry Venables levou-te para o Tottenham, o Terry Venables levou-me para o Tottenham, ele sabe, ele sabe quem é bom. Vais andar aqui durante anos. Não me lembro da minha estreia, esqueci, passou-me, estava tão excitado. Desfruta". Ele não tinha de o fazer. A partir daquele momento, eu relaxei e pensei "sim, vou desfrutar". E tive um dos melhores jogos da minha carreira toda, estarei sempre grato pelo Gazza ter ido ter comigo naquela tarde. Ele não tinha de o fazer. Claro que me daria bem de qualquer maneira, mas ele teve essa atenção. É isso que as pessoas não veem, é isso que amo mais nele, o homem que ele é, um ser humano incrível.

Icon Sport

Depois bateram uma grande Holanda e Seaman foi um gigante contra a Espanha.
Sim, penáltis contra a Espanha. O jogo com a Holanda foi um dos melhores desempenhos de uma equipa em que joguei. A atmosfera no estádio, em Wembley, debaixo das luzes, com a música "Football is coming home". Com todos no estádio a cantá-la durante toda a segunda parte. Foi um ambiente louco, o melhor que já tive em termos de diversão, como um carnaval. Como futebolista, tudo correu bem. Quando corres, claro que te cansas, mas naquele jogo não conseguia ficar cansado. A adrenalina foi uma loucura, soube tão bem. Foi um jogo perfeito, até com a Holanda marcando, o que eliminou a Escócia, por isso muitos ingleses estavam felizes [risos].

Alan Shearer disse mais tarde que jogar sempre em Wembley foi importante e que vocês se estavam a divertir muito. Foi assim?
Sim, exatamente, divertimo-nos muito. Acho que o apreciámos tanto porque não começámos assim tão bem. Não demos nada por garantido, em todos os jogos queríamos estar bem, melhorar, até no jogo com a Holanda. A Espanha tinha uma equipa tão boa, foi um jogo duro, mas ganhámos, ganhámos feio, em penáltis, nós nunca ganhamos em penáltis. Parecia que estava tudo a ir na direção certa e depois, claro, a desilusão contra os alemães, em que jogámos tão, tão bem, quase tão bem como contra a Holanda, mas sem os golos. Foi um bom desempenho, um clássico do futebol. Eu atirei uma bola ao poste, oh... O Gazza falhou uma bola talvez por dois centímetros. Ambos seriam golo de ouro, estaríamos na final, seríamos os grandes favoritos para ganhar o torneio. Sorrio sempre com o Euro 1996, mas depois vem sempre aquele sentimento "e se?", sabes. Devíamos ter vencido aquele torneio, lamentamos não ter conseguido.

Conseguiste dormir depois daquela bola que daria o golden goal?
Bem, sim. Depois do jogo, foi um sentimento muito estranho, não parecia real. Não parecia que estávamos prontos para ir para casa, ir de férias, sei lá. Devíamos ter estado lá para o torneio inteiro. Não vi a final. Foi um sentimento horrível. Para mim, nessa chance, não poderia ter feito mais, pois a bola veio um bocadinho para trás. Não perdi o sono por isso, mas muitas vezes penso "e se?" e como todos estariam muito felizes comigo [risos]. Às vezes, no futebol, há coisas que não estão destinadas a acontecer, não é a tua noite. Precisas de um pouco de sorte no desporto e os alemães tiveram-na naquela noite.

Há algum momento especial ou preferido daquele torneio?
Acho que dar aquele golo ao Gazza e estar envolvido naquilo, ainda que pouco, mais a celebração. Sinto que foi naquele momento que as coisas passaram de não estarem assim tão bem para tudo estar perfeito. Os adeptos a adorar a equipa, o país todo a enlouquecer. Sinto que foi uma grande festa, em Inglaterra, durante aquele mês. Toda a gente estava a adorar o que estávamos a fazer, foi naquele momento que tudo aconteceu.

Steve McManaman, Gareth Southgate (atual selecionador), Gascoigne, Anderton e Sheringham

Steve McManaman, Gareth Southgate (atual selecionador), Gascoigne, Anderton e Sheringham

Shaun Botterill

A bola para Gazza foi um toque de primeira limpo, muito bonito.
Sim, não foi mau, não foi mau, não era o first touch do Gazza... ou o segundo, mas foi muito bom [risos].

Diz-se que os argentinos sofrem muita pressão na seleção por causa de 1986 e Diego Maradona. É parecido em Inglaterra por causa de 1966? Parece haver sempre uma pressão enorme à espera da geração que vai finalmente vencer outra vez.
Acho que há, mas acho que há em todos os jogos de Inglaterra, seja Campeonato do Mundo, Europeus ou particulares. A imprensa espera isso, as pessoas comparam sempre, trazem sempre de volta o passado. Não acho que sentimos qualquer pressão por causa de 1966, sentimos simplesmente que íamos ganhar o torneio. Teria sido incrível, com a música "Football is coming home". Definitivamente, como futebolista inglês, há uma enorme pressão, sem dúvida nenhuma. Ainda outro dia [contra a Croácia], a Inglaterra jogou muito bem durante 20 minutos e depois sentias o público a ficar nervoso, a começar a preocupar-se e tudo o resto. O público também lê a imprensa e tem expectativas. Há muita, muita pressão. Estou muito feliz que a Inglaterra tenha vencido e sabemos que eles podem jogar melhor, isso dar-lhes-ia muita confiança. Oxalá joguemos melhor com a Escócia amanhã [a conversa foi antes do empate a zero com os escoceses]. À noite, em Wembley, é um campo diferente, é um sentimento diferente.

Jogaste com o selecionador. Como é Gareth Southgate?
Era um grande futebolista. Acho que nunca suava, o jogo era muito fácil para ele. Lia o jogo muito bem, era um futebolista com muita classe. Acho que também é um treinador com muita classe. Depois de Terry Venables e Glenn Hoddle, tenho estado um pouco desiludido com os treinadores da seleção. Adoro o Gareth como selecionador, acho que tem sido muito, muito bom.