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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

O Europeu mais intercontinental de sempre

Resolve-se hoje o grupo D, onde ingleses e checos estão apurados. Num quarteto em que até há duas seleções do mesmo país (Reino Unido), aproveitemos o mote para falar de atletas que têm ou podem ter várias nacionalidades

Pedro Cordeiro

Angel Martinez - UEFA

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Há dias a edição escocesa do jornal “The Sun” publicou uma peça sobre três jogadores da respetiva seleção nacional nascidos em Inglaterra. Scott McTominay, Liam Cooper e Che Adams são filhos ou netos de escoceses, pelo que tiveram acesso à equipa principal. Não são casos únicos de atletas que vêm a representar países que não aquele onde nasceram.

Se é normal que o selecionador escocês, Steve Clarke, opte por usar o trio anglo-nascido no decisivo jogo desta terça-feira contra a Croácia (20h, TVI), já Zlatko Dalic, que orienta os balcânicos, não contará com Arijan Ademi. Nascido em solo croata de pais macedónios de etnia albanesa, chegou a jogar pela Croácia, mas passou para a Macedónia do Norte em 2014, em parte por não ter sido chamado para o Mundial que nesse ano aconteceu no Brasil.

Símbolos de diversidade, por vezes a culminar percursos pessoais dolorosos, por outros sentindo oportunidade de jogar numa seleção se a da terra-natal não os convoca, desportistas de mais de uma nação não são novidade. Contam-se entre eles velhas glórias como Alfredo Di Stéfano, que jogou pela Argentina antes de representar Espanha, ou Ferenc Puskás, que também envergou a camisola hispana depois de o ter feito pela “sua” Hungria. Excluímos deste texto os que, sem se terem movido, mudaram de país por causa de tumultos políticos.

Espelho de uma tendência global, o jornal londrino “The Independent” conta 175 convocados para o Euro 2020 com mais de uma nacionalidade (28% do total de 622), sendo que 23 acumulam três origens e o galês Ethan Ampadu — um de sete de origem ganesa que participam na competição — podia mesmo ter entrado em campo por quatro seleções. Olhando para a partida de que falávamos, a Escócia tem seis jogadores multinacionais, a Croácia sete.

“Sente-se plenamente espanhol?”

Por mais que o fenómeno se banalize, a controvérsia não deixa de acompanhar estes atletas. Quando há 18 anos Deco naturalizou português — como fariam depois Liedson ou Pepe —, nomes da craveira de Luís Figo e Rui Costa torceram o nariz. Figo, que chegou a ter litígios com o selecionador Scolari por esse assunto, veio a retratar-se quando o companheiro de equipa terminou a carreira: “O Deco é tão português como todos nós”, afirmou, após terem partilhado relvado no Euro 2004 e no Mundial de 2006.

O desconforto persiste nalguns. Prova disso é a pergunta feita por um jornalista a Aymeric Laporte, no dia em que se estreou a jogar por “La Roja”, em partida amigável contra Portugal, a 5 de junho: “Sente-se plenamente espanhol para defender o emblema, a bandeira e o hino?” O futebolista de 27 anos nasceu em Agen, no sul de França, país que representou nas camadas juvenis. Retorquiu Laporte, irritado: “É uma pergunta muito forte, vou tentar responder da melhor forma. Estou aqui para competir ao mais alto nível. O meu objetivo é o mesmo que o de Espanha: ganhar todo o tipo de competições. Vou dar tudo, vou dar o melhor de mim para ganhar daqui para a frente. Ninguém deve duvidar de que vou dar tudo por esta seleção”.

Entre os 17 jogadores presentes no Europeu que mudaram de nacionalidade, cinco chegaram a jogar por outra seleção: Arijan Ademi (da Croácia para a Macedónia do Norte); Nacer Chadli (de Marrocos para a Bélgica); Denzel Dumfries (de Aruba para os Países Baixos, sendo que aquela é território dependente destes); Mário Fernandes (do Brasil para a Rússia); e Declan Rice (da Irlanda para Inglaterra). O que foi permitido nos tempos de Di Stéfano e Puskás, e mais tarde proibido, voltou a ser lícito neste século XXI.

“O mundo está a mudar”

Desde setembro de 2020, um jogador pode mudar de seleção se não tiver jogado mais de três jogos em competições oficiais (sem contar com qualificação) por um país antes dos 21 anos. Há dias o canadiano Victor Montagliani, vice-presidente da FIFA em nome da CONCACAF (confederação da América do Norte, Central e Caraíbas), admitiu que as regras possam ser flexibilizadas: “O mundo está a mudar. A imigração está a mudar. Existem problemas de nacionalidade no mundo. Por isso, é um bom momento para notar tudo isso e pensar que existem soluções sem ferir a integridade do desporto”.

Compatibilizar uma abordagem moderna com um mínimo de requisitos é o desafio que se impõe ao órgão máximo do futebol mundial. Na década passada o então presidente da FIFA, Sepp Blatter, agastava-se contra a naturalização de brasileiros, dizendo à "BBC": “Se não travarmos esta farsa, se não nos importarmos com os invasores do Brasil para a Europa, Ásia e África, no Mundial de 2014 ou de 2018, em 32 equipas, haverá 16 cheias de jogadores brasileiros”. Não foi o caso, até porque as regras atuais exigem “ligação clara” quando alguém quer representar um país que não o seu de origem: pais, avós (biológicos, não adotivos) ou residência no país por cinco anos depois de atingir a maioridade.

Há um Comité do Estatuto de Jogador para dirimir casos dúbios e só com a sua autorização se pode utilizar atletas que “migram”. A Síria foi afastada da qualificação para o Mundial de 2014 por ter usado um sueco sem permissão. A Nova Zelândia perdeu o lugar na final dos Jogos do Pacífico de 2015 por ter convocado um sul-africano que não tinha vivido cinco anos no país enquanto maior. E, no apuramento para o Mundial de 2018, a Bolívia foi castigada com duas derrotas por 3-0 em jogos que vencera (2-0 ao Peru) ou empatara (nulo com o Chile) por ter feito alinhar um paraguaio que não cumpria os requisitos.

Anthony, Antoine, António?

Mais complexos são casos em que países com seleções partilham nacionalidades. É bom lembrar que entidades que não são países independentes podem ter federação de futebol própria (Ilhas Faroé, Gibraltar, Aruba, Guam, Macau, por exemplo). Ao todo são 25 as seleções com algum grau de sobreposição. As condições para representar uma delas para quem arrancou noutra são reduzidas a dois anos de residência.

Situação particular é a do Reino Unido, com quatro seleções num país (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) e regras próprias (ratificadas pela FIFA) para a transumância entre elas, que aliam à ascendência (sem contar com a residência) um critério de frequência de escola no país em causa. Acresce que qualquer cidadão da Irlanda do Norte tem, além de cidadania no Reino Unido, direito a tê-la na República da Irlanda, podendo por isso jogar pelas duas seleções. O mesmo não se aplica a quem nasce na República da Irlanda.

No Europeu cuja fase de grupos está a terminar, só a Polónia não tem nenhum futebolista que pudesse representar outro país (mas já teve noutras edições do torneio). Portugal conta oito, segundo “The Independent”: Anthony Lopes, Danilo Pereira, Nélson Semedo, Nuno Mendes, Pepe, Raphaël Guerreiro, Renato Sanches, William Carvalho. A França, próxima adversária da equipa das quinas, tem 17, um deles o craque Antoine Griezmann, que até cumpria critérios para jogar por Portugal. No outro jogo do grupo D esta terça-feira, a Inglaterra ganha nessa rubrica à República Checa: tem 17 atletas com nacionalidade múltipla, os checos apenas um.

Entraram em competição 24 países e seguirão 16 para os oitavos-de-final, mas estiveram presentes neste Europeu 52 nacionalidades, que vão do Suriname à República Democrática do Congo. De repente a ideia de ter o campeonato espalhado por várias cidades parece fazer sentido e quase apetecia que não fossem só as da Europa… é que este europeu é verdadeiramente intercontinental.