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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

O efeito Magnus e a anatomia da parte exterior de um pé

Foi de trivela que o jogador-cientista Luka Modric resolveu a questão da passagem da Croácia à fase a eliminar do Euro 2020, ele que continua a ser a luz, o raio a estrela e o luar dos vice-campeões do Mundo, apesar dos quase 36 anos. A vitória por 3-1 frente à Escócia dá o 2.º lugar do Grupo D aos croatas, com a Rep. Checa a ficar em 3.º, depois da derrota com a Inglaterra

Lídia Paralta Gomes

Craig Williamson - SNS Group/Getty

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Como é que aquela bola entrou, talvez só o efeito Magnus consiga explicar. Quem? O efeito Magnus, claro, porque no futebol há emoção, esforço, mas também há física, há bolas que mudam de direção devido ao efeito de rotação enquanto ela plana no ar. Mas isso não é coisa para qualquer um, não é para pés aleatórios e regulares, é para jogadores-cientistas, de bata branca, neste caso de bata branca com quadradinhos vermelhos, com uma placa atrás a dizer “Senhor Doutor Luka Modric”.

Aquela bola entrou no momento certo porque desfez um empate que não servia nada nem à Escócia nem à Croácia (mas que era tão bom para Portugal) já a meio da 2.ª parte, e entrou no momento certo porque tudo naquela jogada foi perfeito, a forma como a Croácia encontrou o espaço para o seu maestro, a forma como ele olhou para a bola, viu-lhe as orelhas e foi lá, com a parte exterior do seu pé direito, com a força e o jeito milimetricamente certo para que ela fosse rodando e rodando, desafiando o ar, mudando a sua trajetória para se encaixar no canto superior esquerdo da baliza de David Marshall.

Dele seria ainda o canto para o 3-1, aos 77’, uma bola que foi parar à cabeça de Perisic e confirmou uma Croácia antes em apuros a qualificar-se para os oitavos de final do Euro 2020. E dele seria a calma, o perfeito controlo e domínio da esfera que tranquilizaria a equipa até final. Ainda é à volta do planeta Luka Modric, com quase 36 anos - mas tanta, tanta classe -, que gravita esta Croácia.

Tudo isto num jogo que prometia ser aberto porque a situação das duas equipas assim o exigia. Escócia e Croácia tinham apenas um ponto cada e sabiam que só uma vitória as colocaria no rumo da qualificação. Cada uma à sua maneira, as duas equipas tentaram o que puderam. Os escoceses com futebol direto, cruzamentos para a área, transições, futebol simples e sem grandes adoçantes. E os croatas apoiados no talento, na paciência, no saber daquela linha média Modric, Brozovic, Kovacic para chegar à baliza, algo que nos dois primeiros jogos se revelou tarefa surpreendentemente complicada.

Não tanto frente à Escócia, que até foi primeira equipa a acercar-se à baliza adversária, logo aos 6’, com Che Adams quase a chegar a um cruzamento de McGinn. Mas pouco depois, do outro lado do campo, Juranovic cruzou na direita, Perisic foi de cabeça e a bola acabou nos pés de Nikola Vlasic, que recebeu e já em queda rematou para o golo.

Ainda que a Croácia fosse sempre a equipa com mais bola, a Escócia foi sempre perigosa quando conseguiu passar para o meio-campo contrário e logo a seguir ao golo criou várias situações de sufoco na área adversária. E foi numa dessas viagens que apareceu o empate, aos 42’. Uma jogada de insistência com um, dois cruzamentos que terminou nos pés de Callum McGregor em zona frontal à entrada da área. O remate saiu forte e seco e Livakovic só a viu passar.

Na segunda parte manteve-se o espírito: Croácia com bola, a fazer praticamente tudo bem mas com pouca presença na área e a Escócia a criar perigo nas poucas idas ao ataque. Aos 59’, McGinn esteve perto de marcar em mais um cruzamento para a área mas por essa altura já Luka Modric tinha pegado no jogo e decidido o que fazer com ele.

Pixsell/MB Media/Getty

E se não havia ninguém capaz na área para dar a vitória à Croácia, Modric fê-lo com aquele remate de trivela, lindo, lindo, sem mácula. E continuou a fazê-lo nas suas passeatas como que pairando no relvado, colocando a bola onde queria, com a força que queria, porque a melhor forma de não perder jogos ainda é ter bola e saber o que fazer com ela.

Com o 3-1 final, a Croácia passa em 2.º lugar no Grupo D e fica agora à espera do 2.º classificado do Grupo E, que será o adversário nos oitavos de final. Já a Escócia despede-se do seu terceiro europeu sem vitórias.