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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"É um futebolista moderno que com muito pouco, gera muito": conversámos com Julio Velázquez, o treinador que lançou Gerard Moreno

O treinador do Marítimo promoveu Gerard Moreno da equipa C do Villarreal à equipa principal, onde se estreou, a 2 de dezembro de 2012, contra o Elche. Começou por ser um dos protagonistas do debate à volta do avançado da seleção espanhola no Europeu por estar no banco, depois de uma temporada em que fez 30 golos e ganhou a Liga Europa. Na segunda jornada do Grupo E, em que a Espanha somou um segundo empate, jogou perto de Álvaro Morata, a quem deu um golo antes de falhar um penálti. Em dia do decisivo Espanha-Eslováquia (17h, SportTV1), Velázquez conta à Tribuna Expresso o que tem de especial este futebolista

Hugo Tavares da Silva

David Ramos

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O que te está a parecer o Europeu?
É um torneio particular, já que se celebra em diferentes países. É particular também porque, graças a Deus, há adeptos, mas não no número que havia antes da pandemia. É um torneio em que, pouco a pouco, vai-se retomando uma certa normalidade. Mas, no final, não deixam de haver questões importantes, pois há seleções que estão a competir no seu contexto natural. Para certas seleções isso pode representar uma vantagem. A partir daí, a nível futebolístico, está a ser um Europeu interessante, no? Estamos a ver algumas seleções que através do processo, através das coisas bem feitas, estão a colher os frutos depois de uns anos de uma gestão importante do dia a dia. Estou a falar da seleção italiana, que, depois de passar por um período de dificuldade, creio que deu muita credibilidade ao processo, confiaram muitíssimo no Roberto Mancini. Fizeram as coisas muito bem, estão a colher os frutos, estamos a ver uma seleção com identidade, reconhecível e uma seleção que, bueno, está a desenvolver um jogo muito atrativo. Está a ser um Europeu interessante. Como sempre. Estamos a ver jogadores que podem marcar um antes e um depois no futebol. Há a expectativa agora para ver o que vai acontecer e para ver que seleções vão passar à ronda seguinte.

De que outras seleções estás a gostar?
Bom, a Itália está acima de todas. Depois, a seleção da Bélgica ainda não está a assombrar, mas creio que tem um potencial tremendo, tremendo, e acredito que é uma das candidatas à conquista do título, sem dúvida nenhuma. Parece-me que chegada ao umbral competitivo e ao umbral de qualidade que pode atingir no relvado, acredito que a seleção inglesa é uma equipa a ter muito em conta, tal como a seleção francesa e alemã. E depois, sim, pelo carinho que lhes tenho, espero que as seleções portuguesa e espanhola consigam a classificação e que possam continuar a evoluir no torneio.

Não me atreveria a dizer quem é claramente a mais firme candidata à obtenção do título. Agora mesmo, com as jornadas que já levamos, a seleção que acredito que se está a destacar das outras, pela proposta, identidade e beleza do jogo, é a italiana. Mas estamos a falar de um Europeu em que há seleções muito poderosas. Itália, Bélgica, Países Baixos, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha, França, uff. Estamos a falar de um nível superlativo, mas, à medida que vai avançando o torneio, estas seleções, depois de um calendário tão apertado, depois de uma temporada tão exigente, com uma acumulação de jogos tremenda, seguramente que certos jogadores, que não puderam oferecer a sua melhor versão, vão mostrar todo o talento que têm quando passarem à próxima ronda. Isso proporcionará que seleções de topo possam dar un plus [salto de qualidade] que todavia não podiam dar.

O que se passa com a Espanha?
O que se passa é que na primeira jornada, sendo extremamente superior e não conseguindo os três pontos, isso condiciona, num torneio tão curtito. No segundo jogo, desde o meu ponto de vista, não estiveram ao nível do jogo da Suécia. No primeiro jogo correu melhor, estiveram mais perto da vitória do que na segunda jornada, contra a Polónia [de Paulo Sousa], que foi uma equipa organizada, bem montada, que soube interpretar o jogo. Depois, não apareceu aquele bocadinho de sorte que às vezes é necessário, por exemplo no penálti do Gerard [Moreno], e não conseguiram a vitória.

E é complexo, é complexo, porque há uns anos defrontavas certas seleções e normalmente a grande maioria dos jogadores competia nesses países. Agora, qualquer seleção, vês os 11, tem jogadores a competir nas ligas de topo a nível europeu. Nenhum jogo é fácil. A Espanha, sem dúvida nenhuma, tem um grandíssimo plantel, tem um grandíssimo selecionador. Faltou um bocado de sorte contra a Suécia, pois fez-se o suficiente para conseguir a vitória, e contra a Polónia, sem ter estado ao nível da primeira jornada, também podia ter ganhado o jogo perfeitamente. Mas faltou esse pontito de sorte, e no fim estás com dois pontos e vão ter um jogo decisivo na última jornada. Não tenho nenhuma dúvida de que com o plantel que têm, com o selecionador que têm, com a equipa técnica que têm, vão dar a volta à situação. Vão ganhar à Eslováquia e a Espanha vai ser uma das firmes candidatas à obtenção do título.

Villarreal CF

Falaste de Gerard, lançaste-o em 2012 no Villarreal. Como foi o trajeto dele no clube?
Encontrei o Gerard Moreno no Villarreal C. Quando pegámos no Villarreal B, na Segunda Divisão, ele subiu connosco e depois estreou-se também connosco na primeira equipa, se não estou em erro, contra o Elche. Primeiro, é um ser humano maravilhoso, extraordinário, com vontade de melhorar, de aprender no dia a dia. Depois, a nível futebolístico, é um jogador com muito golo, com uma capacidade extraordinária para gerar produtividade no último terço. Era um jogador que não havia dúvida nenhuma de que chegaria ao máximo nível, sobretudo porque tinha ganas maravilhosas de crescer e de melhorar. Está a demonstrar tudo o que tem. Digo-te que, sem dúvida nenhuma, ainda não chegou a assombrar, é um chico que pode continuar a crescer e a melhorar. Alegro-me muito por ele, porque merece, pelo seu empenho, porque está há muitos anos a lutar e a acreditar no seu potencial. É um dos avançados mais importantes a nível mundial nesta altura.

Jogava a 9?
Si, si, si. Ele sempre foi avançado. Agora, no Villarreal, já com o Unai [Emery], jogou algumas vezes na linha, como noutro dia, por exemplo. É um jogador que se manifesta melhor e que pode plasmar as virtudes que tem perto da baliza rival, perto da área rival. É um jogador com uma facilidade extraordinária para, com muito pouco, gerar muito. Sim, foi avançado desde que tive a oportunidade de treiná-lo. Esta temporada, em diferentes jogos, com o Emery, jogou mais perto da linha, começava fora e aparecia dentro, como fez outro dia contra a Polónia. É alguém que sobretudo é um jogador de equipa, um jogador que vai sempre priorizar o grupo em vez da individualidade. Então, é um jogador que, onde quer que o ponhas, vai corresponder, vai acrescentar. É um jogador com umas qualidades extraordinárias.

O que faltava no jogo dele quando era miúdo?
Não lhe faltava nada [risos]. É como todos, evoluiu, continuou a crescer, demonstrou [a qualidade] assim que chegou ao futebol profissional. Fez a diferença na primeira equipa do Villarreal, fez a diferença na primeira equipa do Espanyol e faz a diferença com a seleção espanhola. Para além disso, teve a fortuna de ganhar um título de tantíssima importância, como a Liga Europa, com a equipa onde se desenvolveu como profissional. É como com todos: continuar a crescer, continuar a evoluir, continuar a acumular experiências. Creio que é um rapaz muito inteligente e que, temporada após temporada, vai dando mais um passito no seu jogo.

NurPhoto

Ele falhou aquele penálti. Como é ele mentalmente?
É um rapaz muito maduro, muito maduro. Obviamente que naquele momento em concreto terá ficado chateado, mas é um jogador com uma capacidade excecional para se recompor perante a adversidade. Não tenho dúvidas de que está já a pensar no jogo seguinte e que isso não o vai afetar, nem pouco mais ou menos. É um jogador com personalidade e sobretudo com muita maturidade. Teve de crescer e evoluir a partir da competência. Tem uma capacidade extraordinária para reverter esse tipo de situações mais complexas. Se joga mais ou menos minutos, não tenho dúvidas de que vai contribuir com muitíssimo, porque é um jogador com umas condições muito interessantes. É um futebolista moderno, não é um avançado moderno. Adapta-se à competição de uma maneira muito interessante.

E recordas de lhe ter dado alguma bronca?
No, no, não se tratam de broncas. Quando treinas, tens de tentar melhorar, corrigir. Mas não, é um rapaz que, pela sua maneira de ser, aceita muito bem o diálogo, aceita muito bem o que é construtivo para ele continuar a crescer e a melhorar. Como te dizia antes, tem muita vontade de evoluir na profissão, de melhorar, de crescer. Sempre foi um chico com uma disposição muito boa, com ganas extraordinárias de ouvir. É isso que lhe permitia melhorar no dia a dia, no processo de treino.

Para acabar: qual é o tua primeira lembrança de Campeonatos da Europa?
Uff, é difícil dizer-te. Deve ser o de 1988, é a primeira que posso ter presente nos meus pensamentos. Agora mesmo estou a lembrar-me, vêm-me imagens à cabeça [risos]. Se não me engano, é aquela Holanda, no?, em que jogavam [Ruud] Gullit, [Marco] van Basten, [Frank] Rijkaard, [Hans] van Breukelen... Recordo-me bem dessa seleção, desse Europeu. É a primeira recordação que tenho de um Campeonato da Europa.