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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Muda o Euro, continuam as contas: o que Portugal precisa para chegar aos 'oitavos' e como se deu em situações semelhantes no passado

No dia do terceiro jogo da fase de grupos do Euro 2020, os adeptos portugueses estão como é costume: de calculadora na mão

Rita Meireles

SOPA Images/Getty

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Palavras como "caminho" e "fácil" são algo que o português só coloca na mesma frase para logo a seguir explicar que não sabe o que isso é. Bartolomeu Dias que o diga. Ou Cristiano Ronaldo aos 11 anos. Seja de bússola ou bola na mão, a história diz-nos que quando um português ouve que é por ali que os obstáculos são gigantes, é por ali que ele vai.

Pegue na calculadora, numa folha branca e um lápis ou conte pelos dedos: chegou a hora de fazer as contas do Euro 2020, porque este também não vai ser fácil.

Neste momento há já 12 seleções apuradas para a próxima fase da competição: Itália, País de Gales, Suíça, Bélgica, Dinamarca, Países Baixos, Áustria, Inglaterra, Croácia, República Checa, Suécia e França.

A boa notícia é que Portugal ainda está em posição de passar no primeiro lugar do Grupo F, caso vença a França e o outro jogo do grupo termine sem vitória da Alemanha. Se as seleções portuguesa e alemã ganharem, Portugal passa na segunda posição. Somar uma vitória é, assim, a conta que mais facilita a vida dos portugueses.

Se for um empate frente à França? A seleção continua a somar o apuramento. Chega ao segundo lugar do grupo se a Alemanha perder com a Hungria ou ao terceiro, com quatro pontos, que vale um dos lugares disponíveis como melhores terceiros.

O pior cenário é a derrota no jogo desta quarta-feira. O apuramento com três pontos não é impossível, mas as contas complicam. A seleção portuguesa precisa de garantir que não perde por uma diferença superior a dois golos e esperar que a Hungria não consiga vencer o jogo frente à Alemanha. Outro cenário empurraria Portugal para o último lugar do grupo e ditaria o fim da participação no Euro 2020.

Se os melhores cenários se verificarem, o adversário de Portugal caso passe em primeiro lugar será a Suíça ou a Ucrânia. A Inglaterra ou República Checa se a conta igualar o segundo lugar. A Bélgica ou Países Baixos se finalizarem como uns dos melhores dos terceiros.

As contas já são tradição

Se o Euro 2016 fosse escrito, para Portugal seria poesia. Ou um livro de matemática, dos mais avançados em alguns momentos. A fase de grupos foi uma das piores da sua história em Europeus, ao fechar o grupo com três empates frente à Islândia (1-1), Áustria (0-0) e Hungria (3-3). Na entrada para o último jogo, a equipa liderada por Fernando Santos sabia que um empate era o suficiente para chegar ao segundo lugar e ficou-se pelos mínimos. Mas um golo tardio no jogo entre a Islândia e a Áustria empurrou a equipa portuguesa para o terceiro lugar, que, por sorte, desde aquele ano poderia dar o apuramento para os oitavos.

As contas desse ano foram um pouco mais complexas. Para chegar ao primeiro lugar do grupo, Portugal tinha que vencer e esperar por uma derrota da Islândia ou ter em conta a diferença de golos caso as duas seleções ganhassem. O caminho para o segundo lugar passava por uma vitória pelo mesmo resultado que a vitória da Islândia ou um empate, se o jogo entre a Islândia e a Áustria terminasse empatado e Portugal tivesse mais um golo que a primeira. O terceiro lugar ficaria garantido com um empate, e vitória da Islândia ou Áustria, e foi o que aconteceu. Nos oitavos Portugal enfrentou a Croácia, jogo que venceu por 1-0. O resto é história.

Portugal foi o primeiro campeão vindo do terceiro lugar num campeonato da europa.

Portugal foi o primeiro campeão vindo do terceiro lugar num campeonato da europa.

getty

Quatro anos antes as coisas eram um pouco diferentes. O país anfitrião do Euro 2012 eram a Ucrânia e Polónia (Portugal fez a fase de grupos no primeiro), no lugar do treinador estava sentado Paulo Bento e Portugal tinha pela frente outro “grupo da morte” ao lado da Holanda, Alemanha e Dinamarca. Mas uma coisa não mudou: as contas da fase de grupos.

A seleção nacional entrou na competição a perder por uma bola a zero frente à Alemanha. De seguida venceu o jogo contra a Dinamarca (2-3). E depois começaram as contas. No caso de vitória frente à Holanda e vitória ou empate da Alemanha frente à Dinamarca, Portugal seria apurado em segundo lugar. Se a Dinamarca conseguisse uma vitória por 1-0, 2-1 ou dois ou mais golos de diferença Portugal passava na primeira posição. Uma vitória dos dinamarqueses com outro resultado que não os anteriores deixaria a seleção portuguesa pelo caminho; caso o jogo com a Holanda terminasse empatado, era necessário um empate ou a vitória da Alemanha no outro jogo para evitar a eliminação; se Portugal fosse derrotado pela Holanda, teria que ser por apenas um golo e com uma vitória da Alemanha no outro jogo do grupo, caso contrário ficaria fora. No fim Portugal e a Alemanha venceram e seguiram os dois em frente na competição. A República Checa foi o adversário de Portugal nos quartos-de-final e a Espanha nas meias-finais, quando foi eliminado.

Em 2004, o país era Portugal, os jogadores eram Rui Costa, Figo, Pauleta ou Cristiano Ronaldo e a playlist saltava de "menos ais, menos ais, menos ais" para "como uma força que ninguém pode parar". A seleção nacional entrou no grupo com uma derrota por 1-2 frente à Grécia. Na segunda jornada só a vitória interessava e assim foi, contra a Rússia (2-0). O terceiro jogo foi um duelo ibérico entre Portugal e Espanha, onde os portugueses estavam obrigados a vencer, enquanto que os espanhóis só necessitavam de um empate. O "jogo do mata-mata" terminou com a vitória da equipa das quinas por uma bola a zero. Portugal viu-se grego na fase de grupos e na final, onde voltou a perder com a Grécia.

Os portugueses marcaram também presença no primeiro europeu onde foi introduzido o formato com 16 equipas a disputar a fase final, o Euro 1996. No Grupo D, a seleção tinha a companhia da Croácia, Dinamarca e Turquia. O primeiro jogo foi frente à Dinamarca, que era a detentora do troféu, e terminou com um empate a uma bola. A vitória no segundo jogo, contra a Turquia, deu alento ao grupo português, mas não os livrou de precisar de um bom resultado no terceiro jogo para seguir em frente. A vitória por 3-0 frente à Croácia acabou por carimbar o apuramento e o primeiro lugar de Portugal no grupo. Na fase seguinte a seleção nacional perdeu com a República Checa e foi eliminada.

Outro Euro passado de calculadora em punho, e que ditou a tradição que se seguiu, foi o primeiro de todos, no ano de 1984. A equipa de nomes como Chalana, Bento, Diamantino e Jordão - os “homens de bigode”, como ficaram conhecidos - estava no grupo 2, ao lado da Espanha, Alemanha (na altura República Federal Alemã) e Roménia. Naquela altura apenas oito equipas, divididas em dois grupos, chegavam à fase final do europeu e, destas, apenas duas eram apuradas para a fase seguinte.

Como em 2016, os empates marcaram o caminho de Portugal em 1984, num início complicado para a equipa das quinas. No primeiro jogo 0-0 frente à Alemanha, no segundo 1-1 contra a Espanha. O apuramento só ficou garantido no último jogo, após uma vitória frente à Roménia por 1-0. Nas meias-finais, a França foi a seleção que se cruzou no caminho de Portugal, num jogo onde, apesar da derrota, a seleção das quinas brilhou.

No dia 14 de junho de 1984, a seleção portuguesa jogou contra a Alemanha em Estrasburgo, França.

No dia 14 de junho de 1984, a seleção portuguesa jogou contra a Alemanha em Estrasburgo, França.

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Nem tudo é mau

Parece sempre complicado, mas recuando a 2000 e 2008 é possível encontrar na história de Portugal nos europeus duas situações em que as contas não foram uma dor de cabeça. Em ambos, a seleção confirmou o apuramento no segundo jogo da fase de grupos. No primeiro, a fase de grupos terminou com três vitórias frente à Inglaterra (3-2), Roménia (1-0) e Alemanha (3-0). Portugal chegou às meias-finais, onde foi eliminado pela França. Em 2008, a seleção passou graças a vitórias frente à Turquia no primeiro jogo (2-0) e à República Checa no segundo (3-1). A equipa das quinas acabou por cair logo na fase seguinte, frente à Alemanha.

Com mais ou menos exceções, a verdade é que na fase de grupos dos Europeus, entre grupos da morte e apuramentos no limite, a história tem vindo a repetir-se para a seleção portuguesa. Mas se é para evocar a história é importante sublinhar que nas sete vezes que Portugal participou no Euro, nunca caiu na fase de grupos. Obstáculos pelo caminho, sim, mas no fim, geralmente, os gigantes somos nós. A confiança de Fernando Santos que o diga. “O mais importante, e que não tenho dúvidas de que vamos conseguir, é garantir o apuramento”, afirmou o selecionador.