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Euro 2020

Podemos perder!

Antes do decisivo confronto com os franceses, Bruno Vieira Amaral olha para o que vai na alma dos portugueses e conclui: "Qual o português que a esta hora não está a pensar que o mais lindo seria perder com os franceses e mesmo assim passar?" O escritor, no fundo, concluiu que "ansiamos pela derrota vitoriosa, a escrita direita por linhas tortas"

Bruno Vieira Amaral

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Minutos depois daquela estranha conjugação astral de resultados, um amigo mandou-me uma mensagem: “Podemos perder!” O que me intrigou, confesso, foi o ponto de exclamação. Para mim, o ponto de exclamação tem a sua utilidade e até a sua beleza desde que usado com parcimónia e propriedade.

Vejamos. Se o meu amigo tivesse escrito “Vamos ganhar!”, eu compreenderia o entusiasmo, o otimismo e a adequação do ponto de exclamação. Mas quase aposto que, por decoro ou superstição, ele não seria capaz de enviar uma mensagem semelhante. Como muitos portugueses, teria mais facilidade em escrever “vamos ganhar…”, exprimindo uma confiança reticente, tateante, medrosa.

A partir do momento em que soubemos que para passar aos oitavos-de-final não teríamos de ganhar, fomos assaltados pela euforia da possibilidade da derrota, tão maravilhosamente expressa naquele ponto de exclamação após o verbo “perder”, combinação que cria uma espécie de poluição visual, de incongruência: “Perder!” E, no entanto, nessa incongruência mora o alívio da desresponsabilização, um fatalismo alegre, toda uma filosofia de vida em que a derrota em si mesmo não é um mal.

Se Portugal se encontra nesta situação supostamente vantajosa é também por mérito próprio e não apenas por uma muito favorável conjugação de resultados alheios. Se não tivéssemos ganhado à Hungria por 3-0 ou se tivéssemos sofrido mais golos dos alemães, não estaríamos a cantar de galo (que também não é o cocorocó convicto e madrugador, mas o cocorocózinho frouxo e tardio do “podemos perder” que é como quem diz “se não acordarem hoje, amanhã há mais”).

Porém, custa ver este abraçar ternurento da hipotética derrota, como se perder por 2-0 com os franceses fosse, de entre todos os resultados que nos permitem passar à fase seguinte, o mais desejável. Podemos perder?

Não, é mais do que isso. Desejamos perder. Qual o português que a esta hora não está a pensar que o mais lindo seria perder com os franceses e mesmo assim passar? Não há dúvidas: ansiamos pela derrota vitoriosa, a escrita direita por linhas tortas.

  • Deixem-nos fazer contas
    Euro 2020

    O escritor e cronista Bruno Vieira Amaral diz que "não precisamos de calculadora" para o jogo com a França. Mas que "se jogarmos como no sábado nem uma calculadora nem os santinhos da nossa devoção nem todos os sonhos do mundo nos poderão salvar".