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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Se há uma bola, Renato não vai desistir dela

Não foi ele que bisou, não foi ele que se esticou para ir buscar aquela bola de Pogba, porque ele não foi o homem dos momentos decisivos: foi sim o homem de 88 minutos de choque, de resistência à pressão, de esforço, de atitude, essa coisa aparentemente tão prosaica mas que ajudou a limpar a face a Portugal depois do desastre de Munique. A Tribuna Expresso escolhe o melhor cromo de cada jogo de Portugal no Euro 2020 e, contra a França, o eleito foi Renato Sanches

Lídia Paralta Gomes

Nick England - UEFA

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Falemos de momentos decisivos. Ronaldo a respirar fundo, enfrentando Hugo Lloris sem tremer um segundo que fosse apesar da solenidade da situação, a enganar o capitão francês. Duas vezes. A última com direito a recorde. Depois, ***aquela*** defesa de Rui Patrício. Voo danado, mão lá em cima, tendões quase a rebentar, todo o tamanho do Mundo e ainda o discernimento de afastar a recarga de Griezmann.

Sem eles, talvez o jogo não tivesse terminado empatado.

Mas é possível que a grande diferença entre o desalinhar total e completo dos astros que foi o jogo com a Alemanha e este com a França tenha sido algo bem mais prosaico, que não dura uma fração de segundos, para lá de um momento instintivo. Algo chamado atitude. E nesse particular, ninguém personifica mais essa mudança que Renato Sanches. É possível que João Moutinho tenha sido o homem que nos deu o equilíbrio que tínhamos desbaratado em Munique. É certo que Cristiano Ronaldo bisou. Mas Renato… enquanto houver uma bola, Renato Sanches não vai desistir dela.

Se Moutinho deu a Portugal a dimensão tática, o critério com bola e o posicionamento certo sem ela, Renato ataviou-nos com a expressão física, do homem que aguenta o choque, que resiste à pressão, que pode não ganhar à primeira, mas vai atrás para ganhar à segunda. Que quebra linhas com as suas cavalgadas. Que nos dá peso, força, os dentes cerrados. Que nos dá a tal atitude, que não chega para ganhar jogos, isso é certo, mas ajuda a tornar melhores aqueles que já são bons.

Baptiste Fernandez/Getty

Dele não se viram passes para golo, assistências, remates perigosos - nesse particular até esteve desastrado - mas foi com ele que ganhámos tantas vezes o meio-campo, foram dele várias recuperações de bola decisivas a travar ataques azuis, brancos e vermelhos e, apesar de algumas bolas perdidas, mais difícil ainda é tirar-lha.

Diz-nos o Sofascore que Renato Sanches, saído aos 88’ sem o ar de quem iria desfalecer nesse preciso segundo, ao contrário de quase todos os colegas e rivais depois de intensas correrias entre a noite escaldante de Budapeste, tocou 95 vezes na bola, teve um acerto no passe de 93%, falhando apenas cinco dos 74 tentados. Ganhou nove dos 15 duelos que disputou, recuperou oito bolas, sofreu três faltas e ainda contou três desarmes. Não se vêem aqui muitos remates, ocasiões promissoras criadas foi apenas uma, não houve, lá está, momentos decisivos. Mas é uma estatística de trabalho, de 88 minutos de esforço, de atitude, de quem foi para o campo com a faca entre os dentes, porque contra Mbappés e Griezmanns, Benzemas e Pogbas, tem mesmo de ser assim.