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Euro 2020

Calma, está tudo controlado

Para Bruno Vieira Amaral, Fernando Santos tinha tudo pensado. "Com o terceiro lugar fica tudo bem. Ninguém dá um centavo por Portugal. A Bélgica já deve estar a reservar hotel para os quartos-de-final e nós, sossegadinhos, estilo “deixa-os pousar”, lá vamos levando a água ao moinho"

Bruno Vieira Amaral

Anadolu Agency

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Passámos em terceiro lugar, como nos competia e como estava pensado desde o início do campeonato, que nós não fazemos nada à toa, é tudo científico. Somos um bocadinho dramático e chorões, um povo de cardíacos, mas ontem, posso garantir-vos, nunca corremos riscos. Vir para casa estava fora de questão. Não, senhor. Há mínimos a cumprir, recordes a bater, a tarefa irritante (para os outros) de eliminar equipas que nos são superiores em qualidade e simpatia. Em suma, muito trabalhinho a fazer.

Agora, passar em segundo para enfrentar a Inglaterra? Fartos de bater nos ingleses estamos nós. Seria uma bela maneira de vingarmos a exclusão da lista verde dos destinos turísticos, mas convém não provocar a fera. O futebol é instrumento de pacificação. Teremos muitas oportunidades para frustrar as intenções dos nossos mais antigos aliados. Não tinha de ser este ano.

O primeiro lugar? Vamos com calma. Então estávamos no grupo da morte, no grupo com os dois últimos campeões do mundo e íamos passar-lhes à frente, meio à sorrelfa, como se estivéssemos na bicha para a Segurança Social do Areeiro? E os modos? Não, não. O respeitinho é muito bonito e eu gosto. Sai então um empate aqui para a mesa de Budapeste, ó faxavôr, e depressinha que a gente já pagámos (então não se viu que se temos acelerado um tudo-nada os franciús a esta hora ainda estavam nas margens do Danúbio a pensar no que lhes tinha acontecido?)

Ainda dizem que passámos por um sufoco. É preciso ter lata. Aquela defesa do Patrício? Para a fotografia. Se ele não se tem mexido defendia a bola com um dedo. Repito: estava tudo planeado desde o início. Quem não percebe nada da estrutura científica da seleção acha que o Danilo ia ficando paraplégico com a pancada do Lloris. Santa inocência! Aquilo é uma jogada ensaiadíssima nos treinos: cruzamento para a área, o médio antecipa-se ao guarda-redes e espera pelo embate, de preferência fazendo um movimento que dá a entender ao árbitro que partiu o pescoço. Nem mesmo o corsário espanhol tinha alternativa: apito na boca, priiiii e mais um golinho para o Ronaldo.

O William a titular nos dois primeiros jogos? Estratégia para enganar os adversários. Razão tem Fernando Santos, o médio do Bétis dá o que mais ninguém pode dar a esta seleção: lentidão, uma variadíssima gama de passes para o lado, a capacidade de choque de um infantil num corpo de pandeirista da escola de samba da Mangueira. Ontem entra o Renato Sanches e quê? Ah, pois é. Os franceses à espera da delicadeza longilínea de William e levam com um bisonte.

Com o terceiro lugar fica tudo bem. Ninguém dá um centavo por Portugal. A Bélgica já deve estar a reservar hotel para os quartos-de-final e nós, sossegadinhos, estilo “deixa-os pousar”, lá vamos levando a água ao moinho. Sem levantar ondas, sem espantar a caça, cá te espero, nem sabes de onde é que elas te caem.

PS: queria pedir desculpa aos principais fabricantes de calculadoras de todo o mundo. Ontem fiz mais contas em 90 minutos do que em doze anos de escola.