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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Fernando Santos quer morrer com as suas ideias, não é com as ideias dos outros

A falta de critério defensivo durante aquela hora desastrosa em Munique voltou a ser tema, também o foram as coisas que ainda faltam a Portugal na definição das jogadas, nos últimos 20/30 metros do campo. Houve conversa informal entre o selecionador nacional e os jornalistas, esta quinta-feira, em Budapeste, e Fernando Santos lembrou, uma vez mais, que jogar bem é uma coisa binária, é defender tão bem quanto se ataca. E garantiu: não há seleção que conquiste coisas sem o fazer

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Baptiste Fernandez/Getty

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As trocas e baldrocas dos pontos, quem vai, quem fica, esta seleção cruza com aquela e a diferença de golos pode rasteiras as previsões e fazer Portugal, afinal, embater com um adversário diferente. Na noite de quarta-feira, findo o jogo na Puskás Aréna, durante o qual a seleção nacional esteve dentro, fora e em três cidades distintas do Europeu, quem continua inabalável na convicção de que sim, é possível ir de novo até ao fim, ainda não sabia bem com quem ia jogar.

Fernando Santos di-lo na brincadeira, às vezes ainda julga que jogará contra a Holanda, mas não, será frente à Bélgica, no domingo, no quente de Sevilha que trocará pelo calor de Budapeste, onde no dia seguinte ao empate (2-2) com a França acolheu os jornalistas para uma conversa informal, uma troca de bolas entre uma roda de cadeiras onde o selecionador, bem-disposto, consentiu que contra os franceses foi melhor, mas explicou que há melhoras a serem feitas no processo defensivo.

Ao treinador não apraz ver Portugal a par de equipas como Hungria e Polónia na sofreguidão de golos, foram seis na fase de grupos, não há seleção que a Mundiais ou Europeus e vença atacando bem, mas defendendo mal; não, Fernando Santos explica e vinca e repete que jogar bem é defender tão bem quanto se ataca, fazer ambas bem e, fazendo-o, “dificilmente alguém ganha a Portugal”. Não é como a seleção fez com a Alemanha, jogo que o selecionador guardou como o provável pior que teve com Portugal.

A equipa que viu em Munique já não avistou, de novo, em Budapeste, o selecionador é descrente na perfeição, a satisfação não o encheu no empate com a França. A bola roçou e tocou mais tempo em pés portugueses, “se não tens bola vais-te sujeitar ao massacre” e a seleção teve-a, mas a posse é um infinito trabalho em curso e saber tê-la é obrigar quem pretenda roubá-la a “terem que fazer 70 metros para atacarem outra vez”. E, a atacar, o selecionador analisou que a Portugal têm falhados coisas na definição, nos últimos 20 ou 30 metros quando só resta um passe, uma última decisão para a pôr gente a festejar.

Não a ter é virar alvo na mira de um massacre, é a palavra usada por Fernando Santos e o treina já viu, analisou, estudou e pensou bastante sobre a Bélgica que aí vem. Sabe o que os jogadores terão de executar para explorar as fraquezas dos belgas, que são uma coisa em 3-4-3 e outra em 3-4-1-2, muitas as diferenças gravitam em redor das presenças, ou não, de Hazard e De Bruyne, mas sobretudo do último: “O que é importante é controlar a posse deles, evitar que troquem, troquem, troquem [a bola], temos que amarrá-los”.

Angel Martinez - UEFA

Apesar dos dois dias a menos de pausa, os portugueses não vão estar mais cansados do que os belgas, “não podemos”, ponto final, Fernando Santos fala quase sempre de perna cruzada e com postura descontraída, até quando o tema redunda nos golos de Ronaldo, toca no esgotamento enérgico de Nélson Semedo que, até nos treinos, o selecionador tem de pedir que doseie, ou em João Palhinha, a quem gaba a “capacidade de ouvir e de tentar perceber”. Não joga um, joga o outro, as gentes querem aqueloutro, mas é Fernando Santos quem está, orienta e vê os treinos, não só os jogos - lembrou o particular contra a Espanha, última vez que o médio do Sporting aparecera até à partida com a França.

Foi o tempo que demorou até as circunstâncias o pedirem e ele interiorizar coisas, como a diferença de ter um trio de centrais nas costas ou uma linha defensiva de quatro atrás, o que se tem no costado também dita como se aperta ou salta na pressão e Fernando Santos, no dia em que ia explicar-lhe isso com mais calma, já Palhinha tinha percebido. “Mister, estive a ver o jogo”. E aí sim, falaram e conversaram e, depois, viria a segunda parte que o médio fez contra os franceses.

Aquela hora desastrosa passada em Munique foi tema boomerang, idas e voltas constantes. O selecionador lamentou, mais uma vez, a falta de critério defensivo que tramou a seleção, “se permites que o adversário jogue e jogamos a olhómetro” é uma fatalidade, porque não se “eliminam” jogadores contrários só com o poder do olhar. Isso já é passado, Fernando Santos ainda resgata o termo “naturalidade” para continuar a dizer que Portugal é candidato a ir a Sevilha, depois a Munique e mais tarde a Londres para ganhar tudo.

Porque Fernando Santos tem 66 anos, medroso garante não ser e diz ter um Europeu e uma Liga das Nações que o demonstram. “Aqui como na vida tem é de se pensar pela cabeça”, diria, a terminar antes de as câmaras se ligarem, “ser diferente não é ser melhor, ou pior, é ser diferente”. E também não foi a primeira vez que o selecionador garantiu que morrerá é com as ideias dele, não com as dos outros.

Mantém a convicção que vai ser campeão europeu?

"Mantenho, se não levava as malas para Sevilha para ir para casa se as coisas não corressem bem. Espero é ir para casa daqui a um tempo, portanto a convicção é a mesma".

Os pontos fortes da Bélgica

"Não me parece relevante comentá-las aqui, também iria estar a dizer ao adversário. Vou falar mais do que são as suas forças. A equipa da Bélgica tem, na realidade, alguns pontos que podemos e devemos explorar.

Agora, desde logo têm muito conhecimento mútuo, jogam juntos há muito tempo, percebemos que o jogo flui de forma muito natural, a forma como a equipa se compensa, como se desenvolve, muitas vezes naqueles movimentos de definição final no ataque. Sabem que este sai bem para a esquerda e o passe sai sem pensar, quase de forma automática. Quando as equipas não têm isso, têm depois mais problemas de definição.

Depois, a forma como podem jogar. Além dos jogos que vi, a diferença entre jogar em 3-4-3, projetando cinco no ataque; outra coisa é 3-4-1-2 com um jogador a movimentar-se muito no espaço interior, seja o Hazard ou o De Bruyne, o que exige de nós uma atenção diferente. Temos de acomodar muito bem a equipa nesse aspeto.

É uma equipa que gosta muito de jogar. Não parecendo, é uma equipa que, sempre que pode, procura atacar a profundidade com o Lukaku ou até com o Meunier. É uma equipa que tem os seus argumentos, são argumentos fortes, mas tem as suas fragilidades. O jogo com a Dinamarca mostrou isso de alguma forma".

Ronaldo pode chegar aos 10 golos no Europeu?

"Não temo nada com o Ronaldo. O Ronaldo é o Ronaldo, sempre com disponibilidade muito grande para servir a seleção nacional e procurar fazer o que faz bem em campo, que é fazer golos. Sempre demonstrou compromisso com a equipa e o resto acontecerá".

Portugal vai atingir o ponto rebuçado neste Europeu?

"Não sei se alguma equipa o vai atingir. Agora a Espanha até passou a ser a principal favorita à candidata, não sei o que lhes terá acontecido quando empataram os dois primeiros jogos em casa. Não leio jornal, não sei o que se disse.

Esta competição é muito dura, muito distinta de todas as outras. Agora entrámos numa fase que o Scolari a dizia mata, não gosto muito, sou pela vida, não sou pela morte, mas é isso mesmo. Isto agora são finais e as finais ganham-se. Estas coisas são para ganhar e é isso que vamos procurar fazer. Tens que jogar bem, se não jogares bem, não se podem ganhar.

A este nível, com este conjunto de equipas, se não jogas bem há uma forte probabilidade de perder e quanto muito empatas. E jogar bem, é o que eu digo - é defender bem, atacar bem, estar bem nas transições, nas bolas paradas e o adversário não fazer golo à gente e nós lhes fazermos golo".