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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Antonín, um homem vulgar que fez uma coisa extraordinária

Panenka inventou o penálti mais famoso de todos os tempos para superar o guarda-redes do seu clube, com quem fazia concursos depois dos treinos, apostando cervejas e chocolates. "Sempre concebi o futebol como uma alegria para os espectadores, um espectáculo que proporcionasse temas de conversa nos bares"

Hugo Tavares da Silva

Mark Leech/Offside

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É um daqueles que escolheu o ídolo sem o ver jogar. Uma vez, quando era miúdo, com 10 ou 11 anos, leu um artigo qualquer sobre Didi e a maneira como o genial brasileiro do Real Madrid jogava. O nome seduziu o pequeno Antonín e assim, cegamente, ganhou um herói distante. A imaginação fazia o resto.

Antonín, que ainda não era Panenka, era um miúdo que ia com o pai ver futebol ao fim de semana, chegavam a ver seis ou sete jogos. O amor do pai àquele desporto levou-o a tentar algo mais a sério. O senhor Panenka nunca perdeu um treino do filho, até um que o jovem Antonín faltou porque não sabia que estava marcado. “Ele foi ao campo e não me viu, voltou a casa e encontrou-me lá. Deu-me uma tal bofetada que nunca me atrevi a explicar-lhe que não perdi aquele treino por preguiça, mas por desconhecimento”, contou Panenka, em entrevista para o número 1 da revista “Panenka”, em 2011, numa sala humilde do modesto estádio Ďolíček, onde joga o Bohemians, de Praga, o clube onde Antonín jogou 230 jogos durante 23 anos. O ídolo evoluíra entretanto para Josef Masopust, o mago checo das décadas de 50 e 60.

A vida de Panenka, claro, parece resumir-se àqueles poucos segundos em que, com coragem espalhada por todos os milímetros da elegante carne checa, picou a bola para o meio da baliza de Sepp Maier, transformando aquela manobra da final do Euro 1976 numa obra de arte eterna.

picture alliance

Esta manhã começou com cheiro a café e com essa final no ecrã. Antonín levava a camisola 7, ia navegando pela meia-esquerda e foi tudo o que prometeu naquela entrevista: lento e criativo. Perante atletas vigorosos e bons de bola, como eram os alemães, ver alguém naquele registo a driblar é como ver um bailado, algo majestoso, único.

Para ele, aquele penálti nunca foi um ato de rebeldia. “Sempre concebi o futebol como uma alegria para os espectadores, um espectáculo que proporcionasse temas de conversa nos bares. Não foi um gesto que procurasse a rebeldia, mas sim a diversão”, disse o checo, hoje com 72 anos, na mesma entrevista.

O penálti nunca foi um acaso, testou-o várias vezes no seu país e talvez durante dois anos. Lembrou-se de o inventar após tantos e tantos duelos depois do treino com o guarda-redes do Bohemians, Zdenek Hruska, que quase sempre levava a melhor. Para a coisa ganhar mais interesse, apostavam cervejas e chocolates. “Uma vez, pela noite, pensei nesse remate para o centro e fraco, que surpreenderia o guarda-redes quase atirado já para um lado.” E assim nasceu aquele gesto que todos já imitámos.

“O que mais me surpreendeu foi quando ele me contou sobre o seu receio, provavelmente com razão de ser, de que se tivesse falhado aquele penálti à maneira dele, naquela final contra a RFA, não teria tido um regresso cómodo à Checoslováquia comunista”, conta à Tribuna Expresso Aitor Lagunas, o autor da entrevista e diretor da “Panenka”, que notou algum fastio debaixo da pele de Antonín por sentir que o criador foi superado pela sua obra prima.

“O treinador e toda a gente sabia como eu ia bater. Talvez tenha sido uma surpresa no estrangeiro. A única pessoa que me disse que num jogo a sério não me deveria atrever a fazê-lo foi Ivo Viktor, o guarda-redes [da Checoslováquia]. Éramos companheiros de quarto e disse-me que se me atrevia a bater o penálti à minha maneira não me deixaria entrar outra vez no quarto. Por sorte, saiu bem.” E não foi num treino, a apostar cervejas e chocolates, nem nos experimentos em particulares ou na liga nacional, foi mesmo no último penálti da final de um Campeonato da Europa.

Mark Leech/Offside

Porquê dar o nome Panenka a uma revista? “É o emblema perfeito de um tempo já passado: o dos seres vulgares que faziam coisas extraordinárias sem darem importância”, responde Lagunas. “Antonín é um tipo absolutamente comum cujo apelido ninguém conheceria se não tivesse acontecido uma ocorrência genial naquele Euro 1976. Ele vive com modéstia, filosófica e até na forma de viver, muito afastado do que o penálti representou para o futebol. Pode dizer-se que Antonín vive à sombra de Panenka. E, claro, pode afirmar-se que se hoje, na nossa sociedade capitalista e neste futebol mercantilizado em que vivemos, algum jogador tivesse uma ocorrência com impacto semelhante, estaria em condições de rentabilizá-la infinitivamente mais e melhor do que pôde Antonín."

Aquele gesto técnico, difícil como contar as estrelas no céu, deu-lhe a fama eterna e um elogio de Pelé, que em certa altura disse que só um louco ou um génio faria uma coisa daquelas. Lagunas, que lhe recordou esse comentário, perguntou-lhe também sobre se o pensamento nunca o traiu, se não houve rumores internos sobre um cenário em que falhava aquele toque. Antonín riu: “Não me passou pela cabeça porque estava convencido a 1000%. Depois do jogo, quando as pessoas me perguntavam o que teria acontecido se tivesse falhado, disse que seria um canalizador, que é a minha profissão de formação, porque não acredito que pudesse continuar a jogar futebol”, reconheceu a Lagunas. As palavras de Pelé chutou-as para canto, sem picar nem nada (“nem louco nem génio”), afinal também Thomas Edison inventou a lâmpada, disse.

Voltando ao ecrã e ao cheiro a café, aquela final é um regalo. Marián Masný, técnico como os compatriotas e potente como os alemães, tinha a camisola 10 e encantava. Do outro lado, não há palavras para descrever Franz Beckenbauer. Nunca há. Quando a Checoslováquia faz o 2-0 (Švehlík e Dobiaš), vê-se o capitão a bater com as mãos ali perto das ancas, demonstrando que estava a ficar aborrecido. Os germânicos empatariam aos 89’, por Hölzenbein, depois de Dieter Müller reduzir ainda na primeira parte.

Antonín Panenka, em 2016

Antonín Panenka, em 2016

MICHAL CIZEK

Aqui entra outra história. Antonín Panenka, talvez recorrendo a uma bola de cristal ou à imaginação que dava movimento à dança de Didi, já sabia que era assim que as coisas iam acontecer. Haveria penáltis, ele ia pedir para ser o último e bateria como bateu para enganar Hruska. Acertou em tudo, menos no rival, pois achava que seria a Holanda de Johan e Rensenbrink, que havia chegado à final do Campeonato do Mundo dois anos antes e que terminaria aquele Europeu em terceiro lugar.

Ao homem que treinava cinco horas por dia, divididos por dois treinos de 2h30 (sem fumar, beber ou sexo nos três dias anteriores ao jogo), sem direito a folgas e que desfrutou na vida quando se mudou para o Rapid Viena, custou-lhe acreditar que ia mesmo emprestar o nome a uma revista espanhola.

“Surpreendeu-se enormemente que uma revista em Espanha quisesse ter o seu nome”, continua Aitor Lagunas, o diretor daquela publicação. “Perguntou-me sobre isso um par de vezes em checo, através do intérprete, e, desconfiado, insistiu uma terceira vez em alemão [Lagunas viveu em Berlim]. Quando confirmei que queríamos fazer essa homenagem, não tanto a ele, mas ao atrevimento, `valentia e contracultura do seu penálti, olhou-me incrédulo e agradeceu-me. Ele, a mim!”.

De Antonín Panenka guardamos o penálti imortal (do qual se sente refém), a valentia, o magnífico bigode, claro, e uma lição de um treinador dele que devíamos dizer todos os dias aos miúdos: “A bola é tua amiga, não é tua inimiga”.