Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

Depois do azar, Kacper Kozlowski é o mais novo de sempre em Europeus: “Quando começou a treinar connosco, deu para ver que era diferente”

Ricardo Nunes jogou no Pogon Szczecin entre 2014 e 2020 e a certa altura começou a contar com um rapazito "sossegadinho" no treino que parecia especial, mas que teria um acidente grave de automóvel, colocando tudo em xeque. “Sempre foi um miúdo de quem toda a gente falava muito, que era um craque, um fora de série. Teve sempre destaque". Kozlowski jogou no Europeu com apenas 17 anos e 246 dias

Hugo Tavares da Silva

Lars Baron

Partilhar

Os futebolistas do Pogon Szczecin já estavam no sintético do campo indoor, perto do estádio, e iam colocando os pesos e as marcas no sítio certo, sob a orientação do preparador físico. Era inverno, a estrada estava matreira e, para ali chegarem, dividiram-se pelos carros oferecidos pelo clube, para passearem o patrocínio e os números que também levavam nas camisolas.

Chegaram todos menos um, o carro onde seguia Kacper Kozlowski, o agora mais jovem futebolista da história a jogar um Campeonato da Europa (17 anos e 246 dias).

“‘É para arrumar tudo de volta, encosta tudo aí, não vai haver treino’, disse-nos o preparador físico. O que se passou?, perguntámos nós: ‘O carro do [Maciej] Żurawski teve um acidente e os miúdos estão mal’. Arrumámos tudo e fomos embora”. Quem conta a história à Tribuna Expresso é Ricardo Nunes, um canhoto que fez formação no Estoril Praia e Benfica e que esteve no Pogon Szczecin entre 2014 e 2020, quando pendurou as botas e se mudou para o Algarve, para dar uma trégua ao corpo e desfrutar da família.

Żurawski, o condutor e o mais velho dos quatro que seguiam naquele carro, com 18 anos e pouco tempo de carta, foi o que ficou em melhor estado. Houve dentes e nariz partidos, mas o pior ficou guardado para a jóia do clube: “Ele ficou à rasca das costas, porque ia à frente e o que ia atrás dele bateu-lhe com os joelhos nas costas. Ficou um tempo no hospital”. Os futebolistas do Pogon até foram aconselhados a não visitarem Kacper na unidade hospitalar, “para ele não se lembrar do que estava a perder”, para a frustração e a ansiedade não golearem. Afinal, estava prestes a ganhar espaço na equipa principal e toda a gente lhe prometia um futuro imenso, mesmo com os tenros 16 anos.

Quem é, afinal, Kacper Kozlowski? “Sempre foi um miúdo de quem toda a gente falava muito, que era um craque, um fora de série. Teve sempre destaque”, continua, elogiando também os programas de formação do clube, assinalando que, há umas semanas, os juniores venceram o campeonato nacional, ressalvando o quão longe estão dos orçamentos e dimensão dos maiores clubes da Polónia. “Trabalham muito bem”, garante. Com a mesma camisola também joga há três anos Tomás Podstawski.

Ricardo Nunes, na temporada 2018/19

Ricardo Nunes, na temporada 2018/19

MB Media

Nunes não se recorda ao certo se Kozlowski começou a treinar com a equipa principal aos 16 anos ou se até foi com 15. “Quando ele começou a treinar connosco, deu para ver logo que ele era diferente. Em termos físicos era muito forte, passava os treinos todos em rotação muito alta. Era uma questão de ter cabeça e de não se perder, porque de resto tem tudo.”

E continua: “Está muito confortável com a bola, é muito forte nos duelos, era daqueles gajos que ia mesmo, encostava, batia, metia o pé, chuta bem também. Consegue correr para trás e para a frente o jogo inteiro, a capacidade física dele é fora de série. Treinando connosco, mesmo sendo mais novo, notavam-se qualidades muito acima da média. Ele também já jogava nas seleções jovens e muitas vezes num escalão acima. Sempre foi um miúdo diferente”.

No dia a dia era um rapaz pacato, não se ouvia um pio. Era introvertido e falar pouco inglês não ajudou muito entre os futebolistas estrangeiros. “Era um miúdo muito sossegadinho. A gente brincava com ele e ele dava uma risada assim entre os dentes, era muito calado, muito sossegado, nunca foi de palhaçada, pelo menos ali no balneário connosco. Estava sempre na dele”, conta Ricardo Nunes, que, depois de alguns anos na Polónia, até se metia com ele em polaco, mas não recebia troco muito do outro lado.

Os pés falavam por ele. E, por isso, não era raro o Pogon Szczecin receber alguns telefonemas de grandes clubes da Europa. “Já há uns anos que se falava em Manchester City, no United. Já tinham ligado para lá a perguntar por ele, porque ele ia a torneios com as seleções e destacava-se num escalão acima do dele. Houve um torneio em Espanha, penso, em que ele foi brutal e depois houve logo vários telefonemas, a saber os planos do Pogon, valores para libertá-lo, etc.”

Kozlowski e Paulo Sousa, o selecionador da Polónia

Kozlowski e Paulo Sousa, o selecionador da Polónia

Anton Vaganov - Pool

Luís Catarino, comentador da Sport TV, deixou-se encantar pelo talento do miúdo, natural de Koszalin, onde nasceu em 2003. “Não tinha visto mais do que um ou dois jogos dele antes da jornada contra a Espanha, mas estava de olho no número 6 porque tinha indicadores que era um centrocampista especial, e a verdade é que as expectativas se confirmaram”, vai analisando. “Quando entrou na segunda parte, estabilizou a zona central do meio-campo, indo o Zielinski para o lugar de interior-direito, que pertencia ao Klich. A interior-esquerdo já estava o Moder, que também sabe tocar a bola, como já tínhamos visto no Lech Poznan.”

E, traçando o perfil do jovem polaco, acrescenta: “Para além do cabedal que já tem com 17 anos, o Kozlowski impôs-se sobretudo pela serenidade a dominar e a soltar a bola, assumindo o transporte de jogo com uma lógica mais técnica, perante a Espanha que tentava uma reconquista rápida da posse de bola. A Polónia foi melhor equipa na segunda parte e a Espanha foi uma equipa mais desligada nos últimos vinte minutos, em La Cartuja, muito por causa desse rookie. Safou-se muitíssimo bem e até acho que apresenta um jogo mais abrangente que o Krychowiak atual”.

Pogon Szczecin & o coração dividido

Sobre o Pogon Szczecin, Ricardo Nunes, de 35 anos, garante que, apesar de nunca ter ganhado nenhum título e ter disputado a Intertoto há muito tempo, se trata de “um clube extremamente estável”, que “será o número 1 em termos de estrutura”. Porquê? “Estão a acabar um hotel para os miúdos ficarem lá no estádio, tem um mini-estádio, campo sintético com cobertura, já tem outra academia, não muito longe do estádio, para os miúdos mais novinhos treinarem lá”, exemplifica.

Ricardo Nunes nasceu em Joanesburgo, na África do Sul, país pelo qual é internacional A, e veio para Portugal com oito anos: “O apartheid tornou as coisas muito agitadas e os meus pais [angolano e portuguesa] decidiram vir para cá, o país estava caótico”. Além da dupla nacionalidade, e por isso puxar por Portugal também, o Grupo E do Euro 2020 obrigou-o a dividir ainda mais o coração.

“A Polónia calhou num grupo com um país onde também estive: a Eslováquia”, vai contando. “Até troquei umas mensagens com o guarda-redes da Eslováquia, o [Martin] Dubravka, que foi meu guarda-redes no Zilina. Está no Newcastle agora. Tive a dar-lhe apoio para ver se passavam junto com a Polónia. São dois países onde gostei de estar.”

Antes do primeiro jogo esvaziou as ideias do sogro, que achava que a Polónia de Paulo Sousa ia passar por cima da Eslováquia, que até acabaria por vencer esse encontro. “Eu disse que não era bem assim, que a Eslováquia tem bons jogadores, são aguerridos, tem miúdos muito, muito talentosos. Joguei com o guarda-redes, com o Milan Skriniar, que quando subiu era um miudinho, é do Inter e anda tudo atrás dele. Há um central, o [Denis] Vavro, da Lazio [jogou este ano emprestado ao Huesca], que também jogou comigo. A Polónia também tem jogadores muito bons”, anima-se.

As duas seleções acabaram por ser eliminadas, passando Suécia e Espanha. A conversa aconteceu antes desse malfadado desfecho para o coração de Ricardo Nunes, que agora bate de outra maneira: “Este regresso a Portugal era muito desejado. O plano seria mais um ou dois anos fora, mas o contexto precipitou o meu regresso porque estava sozinho na Polónia. Eu e a minha família sonhámos muito com isto”.