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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Tiago Ferreira, o central que pede pressão contra os três centrais da Bélgica: "Caso contrário, é muito difícil cobrir o espaço por fora"

O central português de 27 anos jogou esta temporada no MTK de Budapeste, antes disso na Roménia num sistema de 3-4-3, tal e qual os belgas, próximos adversários de Portugal no Euro. Em conversa com a Tribuna Expresso, falou de como se enfrenta este tipo de sistema e como se pode pressionar os centrais, deixando também elogios a Pepe, que diz ser "sensacional", "um rapazito que ainda está ali e vai jogar mais cinco ou seis anos"

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Laszlo Szirtesi/Getty

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Um pedido de desculpas é devido a Tiago, pontualíssimo que é a anunciar a sua chegada à hora certa, “estou cá em baixo” e ainda tem de esperar uns minutos sentado, diante do hotel, a ser derretido pelo aquecimento ligado no máximo em Budapeste. Ainda nem se levantou e já se nota a simpatia bem erguida, em todo o trato se lhe capta a gentileza desinibida.

No carro de Tiago Ferreira seguimos para as redondezas de sua casa, quase um parapeito sobre o Danúbio. É uma zona tranquila da cidade, como ele, adaptado ao calor com os calções, os chinelos - estes, também, para deixarem à solta uma bolha causada pelas chuteiras -, a t-shirt que mostra a manga tatuada num dos braços e os caracóis no longo cabelo. Tiago Ferreira tem uma figura distinguível, mas leva uma vida tranquila, os húngaros não são de importunar os futebolistas com a sua curiosidade.

O português, de 27 anos, fez a última época no MTK de Budapeste e fê-la mais do que a jogou, porque o vírus que está no meio de nós privou-o de pelo menos dois meses de atividade. Agora que o Europeu passou na Hungria já ele está em pré-época, mas conseguiu ir ver Portugal e, depois, ver outras seleções.

A Bélgica foi uma delas e Tiago Ferreira, um central canhoto, do fundo da sua experiência de já ter “jogado durante quase dois anos” na Roménia em 3-4-3, tal e qual os belgas, falou de como se enfrenta este tipo de sistema e como se pode pressionar os centrais, antes de se dedicar aos elogios e mantendo sempre a questão central, em quem joga no centro da defesa - onde estão os 38 anos de Pepe, que "parece um rapazito" e "ainda é um velocista".

O que achaste dos jogos da seleção?
Foram jogos emocionantes, não é? O primeiro jogo, que se calhar as pessoas pensaram que iria ser mais fácil do que foi, e sofremos, tivemos felicidade no primeiro golo e as coisas tornaram-se mais fáceis. Depois veio a emoção a que estamos habituados desde sempre. Um jogo mal conseguido contra a Alemanha, mas, com a França, já fizemos um jogo dentro daquilo que sabemos fazer e acabámos por passar, que era o mais importante.

Talvez tenhamos apanhado a pior exibição que os húngaros fizeram.
Por acaso, um treinador meu até hoje [quinta-feira] me disse que se a Hungria tivesse jogado como jogou contra os franceses, Portugal não tinha ganhado. Eu não vi, estava a ver a seleção. Portugal acabou por merecer, vimos uma boa Hungria de que ninguém estava à espera, mas eu já contava que pudesse surpreender, se calhar só não tanto, pois roubou pontos a todos menos a Portugal.

Jogas no MTK com húngaros que tenham estado na seleção?
Tive dois. O [Roland] Varga é um, que jogou contra nós; o outro, o [Szabolcs] Schon, que até nos marcou o golo que foi anulado. Ele saiu na última semana da última época, foi vendido para a América, para o Dallas. Quando ele marcou aquele golo eu queria matá-lo [gargalhada]. Tive outro rapaz que também foi ao Europeu, pela Finlândia [Nikolai Alho], foi a primeira vez. Ainda hoje me piquei um bocadinho com os húngaros, estava lá a mandar umas boquitas, mas é porreiro, aquela brincadeira saudável.

Conseguiste ir ver algum jogo e sentir como eles faziam tremer o estádio?
Já esperava e tinha avisado, porque os húngaros, parecendo que não, gostam muito de futebol. Eles têm é uma coisa diferente: no dia do jogo eles amam, fazem uma grande festa e não sei quê, mas chegam à noite e acabou, no dia seguinte é trabalho e pronto. Nós não, estamos ali três ou quatro dias a discutir, com aqueles programas à noite que discutem se bateu na linha, se é o VAR, se não sei quê. Eles não têm isso aqui, falam aqueles 15 ou 20 minutos depois do último jogo, para resumir o dia, e acabou. Na segunda-feira, por exemplo, quase mal se fala de futebol nas televisões. Os árbitros aqui fazem muitos erros e nem se discute. A cultura deles é diferente. Em Portugal andamos sempre os dias todos com a camisola vestida, eles não, é só no dia de jogo, mas aí vivem mesmo. É um país que gosta de futebol à sua maneira.

Mesmo agora durante o Europeu, o canal húngaro que passa os jogos só tem uma pessoa em estúdio, no final, a falar.
É isso e acabou. E nem deve ser mais do que meia hora, no M4 Sport. Agora durante o Euro até podem falar durante mais um bocado, mas nunca é muito. Não há aquelas 'brigas' que vemos em Portugal, que é uma pessoa de cada um dos grandes a falar.

Mas os húngaros desligam mesmo durante a semana?
Sim. Eles também gostam do polo aquático e no andebol também são fortes. Não são se calhar tão fanáticos por futebol como nós, ou até podem ser, mas à maneira deles. Nós muitas vezes podemos ser exageradamente, a massacrarmos um assunto que não leva a lado nenhum, basicamente, serve só para alimentar confusão e discussão. Eles aqui não têm nada disso.

Falando da seleção nacional, que coisas gostaste mais de ver?
Já andava a pedir para o Renato jogar há mais tempo, eu e muita gente, e acho que ele mostrou o porquê de ter que jogar. Acho que tem características - e já nem falo em Portugal, porque acho que em Portugal ninguém tem - que a nível mundial pouca gente tem naquela posição. Fisicamente tem coisas incríveis, é forte, é um jogador que assume o jogo e não tem medo, pede a bola, é diferente dos outros. Há uma ou outra situação que se calhar tem de melhorar ali no último terço, mas já está bem melhor do que era, ao nível da decisão. Contra a Alemanha, pensei que o Fernando Santos, como é astuto, fosse mudar o sistema. Quando jogas contra uma equipa que joga com uma linha de cinco a atacar, é muito difícil defender com uma linha de quatro. A melhor maneira é contrariá-los, também, com cinco jogadores, ou manter os quatro e os alas terem certas nuances, tem de ser uma equipa bastante pressionante. Se os deixas jogar, como eles têm homens sempre muito abertos, fica difícil. Ou mete uma linha de cinco e consegue um encaixe direto, ou com uma linha de quatro tem de haver uma pressão bastante grande.

Voltando ao Renato, a resistência à pressão que ele tem é valiosa para a capacidade da seleção ter bola?
Sim, é muito forte nesses momentos. E assume o jogo, que às vezes é algo que falta, ter uma pessoa que disputa as bolas com os melhores médios do mundo e aí é que se vê mesmo quem é bom, ele mostra no meio deles que é melhor do que eles. Contra a França, ele pegava na bola, arrancava e ficavam para trás. E eu: 'o que é isto?!'. E nos duelos, em que ele mete a perna à frente e fica-lhes com a bola, é uma coisa surreal. Ainda por cima ele é pequeno, mas tem uma força nele...

És canhoto e jogas a central. O que tens achado do Pepe e do Rúben Dias?
O Pepe é um rapazito que ainda está ali e vai jogar mais cinco ou seis anos. O Rúben também está bem. O Fonte ainda não jogou, mas sabemos que podemos contar com ele. E, lá está, foi um bocado arriscado só levar três, foi por causa do Danilo. Mas, em princípio, o Rúben se não lhe acontecer nada vai jogar sempre, o Pepe é que durante a época ainda teve ali dois ou três momentos de lesão. Mas está bem, parece um menino.

O facto de Portugal defender, em muitos momentos, com uma linha bastante subida, mostra isso.
O Pepe ainda é velocista e eles sabem nisso. O Pepe tem confiança nele próprio, se não tivesse até mandava os outros baixarem mais um bocado, mas ele não. Até com o Mbappé, em dois ou três lances ele nunca saiu do lado dele praticamente. É sensacional, o Pepe é um fenómeno.

Laszlo Szirtesi/Getty

Agora vem aí a Bélgica. Viste algum jogo?
Vi-os contra a Dinamarca, que os fez sofrer e lá está, a Bélgica também joga num sistema de 3-4-3 ou 3-5-2 com algumas nuances. A Dinamarca foi uma equipa extremamente pressionante e causou-lhes muitos problemas. Quando estive no Universitatea Craiova tive um treinador italiano e ele jogava muito em 3-4-3, estive quase dois anos a jogar assim, e tínhamos muitas dificuldades quando alguém nos pressionava assim. Quando não nos pressionavam era fácil, tínhamos muito espaço por fora, e a Bélgica sentiu isso. Mas, claro, depois entrou o De Bruyne, o Witsel e o Hazard e fizeram a diferença, é outra história. São outros jogadores. Vai ser um jogo difícil para Portugal contra uma seleção com jogadores estratosféricos.

É uma decisão que se tem de tomar e, escolhendo pressionar algo, também será contra jogadores que têm a capacidade de individualmente tirarem um adversário da frente e criarem um desequilíbrio.
Também têm essas características e, mesmo se vais pressionar alto e o fazes bem, se calhar tens o Lukaku a entrar nas costas facilmente, parece que não mas ele é velocíssimo, é um cavalo autêntico. Mas não temos de ter medo, o Pepe é rápido, o Rúben Dias também, se calhar até nem tanto. Acho que temos de ser pressionantes porque, se não fomos, vamos sentir dificuldades.

Quando jogavas num sistema de três centrais, eras qual?
O da esquerda, sou canhoto. apesar de ter feito alguns jogos no meio.

Tendo a bola, de que forma gostavas menos que te pressionassem?
De fora para dentro, porque obrigavam-me a jogar com o pé direito e a arriscar mais, até a meter passes por dentro. Era mais difícil para mim e acho que Portugal devia pressionar assim, porque o [Jan] Vertonghen já está um bocado mais amarrado e pesadão, já se notou isso no Benfica. O [Toby] Alderweirald do Tottenham, que está do outro lado, também já está um bocado nesse registo. No meio jogaram com o Denayer e também com o Boyata, por acaso estou curioso para ver quem vão escolher contra nós.

O mais fácil, jogando contra um 3-4-3, é replicar o sistema?
Porque é a maneira de encaixar. Se há uma equipa que joga num 3-4-3 com um bloco baixo, como temos certas seleções a fazerem - ou um 5-4-1, como às vezes San Marino ou Malta utilizam -, até podes jogar só com dois defesas que eles não vão lá. Mas, se for uma equipa que joga com esse sistema e olhos nos olhos, é muito difícil de os contrariares a jogarem por fora se adotares uma linha de quatro defesas. Podes consegui-lo com certas nuances e tens de ser bastante pressionante durante quase todo o jogo. Caso contrário, vai ser muito difícil cobrires o espaço por fora. Contra a Alemanha, quando havia aquelas viragens de jogo, o lateral direito tinha de fechar por dentro e não chegava a tempo; em situações de cruzamento também tinha de fechar por dentro no caso de haver alguém a entrar nas costas do central. Esse sistema agora está mais na moda, muitas equipa o usam, mas eu já joguei há três ou quatro anos assim, quando não havia assim tantas equipas a jogar. Em Itália sempre houve, mas agora há muito mais. Mas, como já joguei, a melhor maneira é o encaixe direto.

Mas, salvo erro, o Fernando Santos, pelo menos de início, nunca adotou um sistema com três centrais.
Eu acho que ele vai meter, se não vai sofrer outra vez. É que os belgas, ainda por cima, jogam bem por fora. E quando metem um passe no Lukaku ele às vezes parece um pivô de futsal, dentro da área é muito difícil, aí o defesa está desarmado, ao mínimo toque pode ser penálti. Se Portugal não jogar assim, acho que vai ser difícil segurar. Do que vi da Bélgica, também depende de quem vai jogar. Muitas vezes apareceu o Meunier à direita, pessoalmente não gosto muito dele, tecnicamente é bastante limitado, é mais um 'cavalo', mas do outro lado joga o Thorgan Hazard, que é mais ladino. A Bélgica sempre jogou da mesma forma com este treinador e tem conseguido bons resultados. Vai ser muito difícil, vamos ver.

Como vieste parar ao MTK e a Budapeste?
Estava no meu último ano de contrato na Roménia e o clube entrou indiretamente em contacto comigo, através de um intermediário. Depois comecei a falar diretamente com eles e até foi rápido, gostei dos pormenores que me apresentaram e tirei informações com malta, principalmente com o Rui Pedro [Mezokovesdi SE], que já cá estava na Hungria. E pronto, tomei a decisão de vir. Por acaso nunca tinha cá estado, mas só tenho coisas boas a dizer do país e de Budapeste, em particular. Apanhei a fase do covid, em que já quase tudo fechado e não andei fora de Budapeste quase. Até temos tempo, porque eles dão folgas boas, mas está tudo fechado.

Gostavas de em breve voltar a jogar em Portugal?
Eu estou bem aqui, mas tudo depende da oferta que possa surgir, das condições e de tudo. Não fecho as portas a nada, estou sempre aberto a qualquer coisa, mas estou bem aqui, gosto de estar aqui.

Aqui não jogas com portugueses, mas partilhaste seleção jovem com o João Cancelo, que teve de se ir embora.
E mais, e mais. Também com o Sérgio Oliveira e com o Danilo, fomos ao Mundial de sub-20 na Colômbia e perdemos na final. O Cédric também. E joguei com vários mais: o João Mário, o André Gomes, o Bruma, o José Sá também.

Estamos quase a cumprir 10 anos dessa final.
Por um lado, foi muito bom chegarmos lá e era quase impossível, ninguém acreditava em nós, mas depois estivemos ali tão perto, até tivemos aquela oportunidade do Caetano, quando estava 2-2 e ele sozinho só com o guarda-redes, que tenta fazer o chapéu. Acho que até já estávamos na segunda parte do prolongamento.

Por falar em Caetano, há 10 anos estavam a jogar esse Mundial de sub-20 e esta época ele retirou-se. Isso foi estranho para ti?
Ó, ele retirou-se porque quis, também é sinal de que o tempo não pára [ri-se], de que estamos a ficar mais velhotes. Mas também é bom para uma pessoa olhar para trás e ver os momentos bonitos, que ficam semrpe para nós.

Se formos como o Pepe ainda jogas durante mais uma década.
[Mais risos] Isso não sei, mas pelo menos até aos 36 vou tentar. Depois, é o que o corpo vai dizendo.