Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

Itália e o banho de neorrealismo austríaco

Os italianos passaram sem mácula pelo grupos, jogaram algum do futebol mais excitante da primeira fase, mas nos ‘oitavos’, em pleno Wembley, embateram num muro de realidade chamado Áustria. Bem organizada, a equipa austríaca defendeu bem, não deu espaços, criou perigo e só no prolongamento (e com as substituições) é que apareceram os golos da equipa de Mancini. Vitória por 2-1, com muitas, muitas dificuldades

Lídia Paralta Gomes

FRANK AUGSTEIN/Getty

Partilhar

Passou que nem foguetão a Itália pela fase de grupos, com golos, futebol empolgante, defesa segura e uma linha média de fazer suspirar o maior cínico das propriedades revigorantes de um bom passe. E mentirá quem disser que já não andava a fazer contas, a pensar com que maior ou menor dificuldade chegariam os italianos à final ou, para os mais traumatizados, com que equipa altamente pragmática iam os transalpinos, os novos paladinos do belo futebol, cair de forma triste e injusta, como sempre acontece aos que rejeitam as praticalidades do futebol moderno.

Não esperaríamos, talvez, era que essa equipa quase fosse a Áustria, um conjunto de rapazes rijos, taticamente certinhos, organizados, mas sem talento de encher o olho (as exceções serão Alaba e Sabitzer). O certo é que foi dos simpáticos vizinhos alpinos que chegou a maior oposição que Itália já teve neste Europeu, um verdadeiro banho de realidade para quem já parecia ter a passadeira estendida, e só um prolongamento sofrido, em que os italianos marcaram duas vezes e os austríacos uma, leva a equipa de Mancini a uns quartos de final onde vai encontrar o vencedor do jogo entre Bélgica e Portugal.

O ambiente anti-climático do jogo começou logo, bem, no apito inicial. Quem esperava um carrossel daqueles três médios centro italianos deu por si a ver uma Áustria com muito mais bola e uma Itália a tentar a sua sorte em contra-ataques muito pouco eficientes, graças a um jogo para esquecer do trio da frente, Insigne, Immobile e Berardi, que acumularam más decisões e remates aleatórios.

BEN STANSALL/Getty

Ainda assim, as primeiras oportunidade foram dos italianos, primeiro aos 16’, com um remate de primeira de Barella à entrada da área, que Bachmann defendeu com o pé, e depois aos 32’, numa altura em que a Itália já tinha mais bola e Immobile tentou do meio da rua aquilo que até parecia um balão condenado à bancada mas que acabou na barra da baliza de Bachmann.

Com tudo muito mastigado a meio-campo - Verratti é maravilhoso, segura a bola como quase ninguém, mas não tem a vertigem de Locatelli, para o bem e para o mal -, o que Itália mostrava era pouco. Os vencedores do Grupo A não pareciam encontrar solução para a defesa bem organizada da Áustria, que cerrou todos os caminhos no último terço, limitando-se a circulações de bola sem fim.

Na 2.ª parte, a Áustria voltou a entrar bem e Itália voltou a ter muito menos bola do que seria de esperar. E não foi com particular surpresa que se viu a bola a entrar na baliza de Donnarumma, um susto que só terminou quando se percebeu que Arnautovic estava em fora de jogo.

Com a entrada de Pessina e Locatelli para o meio-campo, notaram-se ligeiras melhorias, mas seria a substituição de Berardi por Chiesa, aos 84 minutos - e feita com 84 minutos de atraso - a virar o jogo definitivamente para o lado dos favoritos italianos. E, para tal, foi preciso chegar ao prolongamento.

Com o nulo no final dos 90’, lá chegou o primeiro tempo extra deste Europeu e não foi preciso muito tempo para Chiesa confirmar aquilo que parece mais ou menos evidente: que deve ser titular nesta equipa. Aos 95’, Locatelli meteu um passe vertical em Spinazzola, que levantou a cabeça e viu o jogador da Juventus sozinho na direita. A bola chegou-lhe, a receção foi difícil, mas Chiesa, com classe, tirou Laimer do caminho e lançou um tiraço com o pé esquerdo que finalmente abanou o marcador.

FRANK AUGSTEIN

Os primeiros 15 minutos do prolongamento foram todos Itália e aos 105’ chegou o 2-0, golo de Pessina, rapaz chamado à última hora para a convocatória, a dizer que sim a uma jogada de insistência de Belotti na área austríaca.

Está tudo acabado, pensámos todos, o ar de cansaço dos jogadores da Áustria parecia dizer isso, mas lá dentro, no sítio que não conseguimos ver, eles diziam-nos not so fast. Bastaram os jogadores trocarem de campo para a Áustria se fazer ao golo: Donnarumma salvou o primeiro, com uma grande defesa, Sabitzer desperdiçou a segunda, com um remate em frente à baliza que foi parar ao Big Ben, e à terceira aconteceu mesmo, com Sasa Kalajdzic a meter a cabeça a um canto e a fazer a bola entrar pelo buraco da agulha por entre uma série de jogadores adversários.

E a partir daí ficou o jogo partido, entrou o desespero e a Itália teve de ranger os dentes para sobreviver. Ao apito final seguiram-se caras de alivio, só depois de alegria. A Itália salvou-se, mas levou uma mangueirada valente de neorrealismo austríaco que não estaria seguramente à espera.