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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Quando uma barafunda e uma inútil armadilha secaram a laranja em 1976. Ah, e os checos

Antes daquela semi-final do Euro 1976 contra a Checoslováquia, em Zagreb, "os holandeses estavam focados em tudo menos em competir". Esta tarde joga-se o Países Baixos-República Checa (17h, SportTV1) para os "oitavos" do Euro 2020

Hugo Tavares da Silva

Peter Robinson - EMPICS

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Os cartolas da UEFA esfregavam as mãos. Aquela mítica final do Campeonato do Mundo de 1974, com ousados e bons de bola alemães e holandeses, tinha tudo para ser repetida dois anos depois, na Jugoslávia. Europeus como grandes figuras planetárias para públicos europeus, em palcos europeus. A cartola, se fosse gente, babava. Johan Cruijff e Franz Beckenbauer, os embaixadores mais importantes desses países, estariam presentes e isso era uma contribuição importante para a eternização daquela gloriosa rivalidade dos anos 70. Mas, bom, a bolinha não está ao serviço de ninguém, não seria bem como se estava a magicar.

“Depois do triunfo dos teutões no Mundial, muitos adeptos esperavam a revanche histórica da Holanda, mas, em troca, tiveram a oportunidade de desfrutar de um dos torneios mais surrealistas e divertidos da história dos Europeus”, relata Miguel Pereira, no livro “Sueños de la Euro”.

Antes da fase final, jogada a quatro equipas, a Alemanha superou Grécia, Bulgária e Malta no grupo de apuramento, eliminando depois a Espanha nos quartos-de-final. Mais complicada foi a vida da Holanda, contra Polónia, Itália e Finlândia. Nos “quartos”, a Holanda esmagou a Bélgica por 5-0, com um hat-trick de Rob Rensenbrink, um feiticeiro que driblava como uma serpente elegante. Na segunda mão, os rapazes de laranja voltaram a vencer (2-1). Johan resolveu.

Onde estava Johan havia rebuliço. Se esse ano no Barcelona já havia sido complicado, com episódios que culminaram na saída de Hennes Weisweiler, um treinador alemão - “ele ou eu”, terá dito o eterno 14, que neste Europeu e na Catalunha usava o 9 -, também na federação havia problemas pelos tentáculos resistentes da sua influência, assim como pela má relação com o presidente da instituição. O ego de Johan, já se sabe, era do tamanho do sol e podia derreter algumas pessoas pelo caminho. Antes da meia-final do Euro 1976 e por razões que não tinham que ver com Johan, o selecionador, Georges Knobel, chegou até a pedir a demissão. Ficou acordado que saía depois da fase final, com direito a indemnização.

A notícia foi publicada e o rebuliço interno transformou-se num rebuliço nacional. “Desconhecedores de tudo o que se passava nas suas costas, os jogadores ficaram irritados à medida que os corredores do hotel se foram enchendo de jornalistas interessados em confirmar aquela notícia exclusiva. Entre os que se posicionaram a favor do selecionador estavam Cruijff e os seus acólitos, mas havia já uma grande parte de jogadores insatisfeitos com a gestão do balneário que não tiveram problemas em celebrar publicamente a decisão. Seja como for, os holandeses estavam focados em tudo menos em competir”, pode ler-se ainda no livro de Pereira.

Apesar de todo aquele ruído, a qualidade e a riqueza do jogo eram imensas. “A Holanda de 1976 e a de 1974 têm praticamente tudo que ver. A essência era holandesa, já existia, e os jogadores eram quase os mesmos também”, começa a contar à Tribuna Expresso Francisco Javier Roldán, autor do livro "Rinus Michels, a escola holandesa chega ao Barça".

Não era só o estilo, a energia, o amor à bola, os holandeses chegavam a meados da década de 70 com quatro Taças dos Campeões Europeus ainda fresquinhas no bolso, cortesia de Feyenoord (1970) e Ajax (1971, 1972, 1973). O tal futebol total tinha-lhes oferecido noites e mais noites de alegria e prata por erguer.

“No futebol total impunha-se muito o físico, porque fazia falta ir à frente, havia que correr. Os laterais subiam muito, Ruud Krol e Wim Suurbier, eram jogadores com boa técnica, para subir, para pressionar. A marcação era uma marcação combinada - uns ao homem, outros livres, padrão misto; se um adversário pisa aquela área, persegue-o por toda a sua zona -, não se fazia só marcação à zona. No Brasil, sim, na Holanda não. E todos atacavam, todos defendiam”, continua Roldán.

No fundo, os holandeses queriam ter a bola, jogar sempre para a frente e rápido, sem especular, sem mastigar uma pastilha cansada. “O epicentro de todo o jogo, num sistema 4-3-3, que era falso, era Johan Cruijff. Tem um grande desempenho no Euro 1976. Faz quase todos os jogos de puta madre”, anima-se o autor espanhol.

O tal falso 4-3-3 transformava-se muitas vezes num 3-5-2 porque um dos centrais juntava-se aos médios e Johan baixava para tocar e organizar a vida daquela gente toda. Os extremos jogavam muito abertos, colados à linha, mas funcionavam como avançados a surgir no meio, cínicos, à espera do espaço deixado por Cruijff.

Do outro lado estaria a Checoslováquia, orientada por Vaclav Jezek, um homem que passou umas épocas no ADO Den Haag, da Holanda, descobrindo ali o tal místico laboratório da laranja mecânica. Do seu lado tinha futebolistas como Jaroslav Pollák, Zdeněk Nehoda, o maravilhoso Márian Masný e, claro, Antonín Panenka. A escola checa, que gritava menos potência do que as demais, explicava a arte da criatividade, da técnica e da imaginação. Panenka chegou a dizer que hoje em dia não poderia jogar futebol, pois era muito lento, na altura contavam numa equipa de 11 com oito jogadores que criavam.

O favoritismo era monstruoso quando os ponteiros do relógio beijaram as 19h15, naquele 16 de junho, no Estádio Maksimir, em Zagreb. O jogo começou muito bem para os checos: livre na esquerda para o camisola 7, Panenka, cruzamento para a cabeça de Anton Ondrus. “Longe de reagir, os holandeses continuaram na apatia. A linguagem corporal de Cruijff revelava o seu estado de ânimo. Não motivava os jogadores e não dava indicações, como sempre fazia, caminhava cabisbaixo, sabendo que o final estava perto para eles”, descrevem as páginas do livro de Miguel Pereira.

O homem que primeiro celebrou um golo naquele fim de tarde marcaria também na outra baliza, aos 73’, depois de um cruzamento venenoso de Ruud Geels, levando o jogo para prolongamento, algo que aconteceria na outra semi-final, na final e no jogo de terceiro e quarto lugares. Nesta altura, Jaroslav Pollák e Johan Neeskens já haviam sido expulsos (Wim van Hanegem seria no prolongamento, aos 115’). Piet Schrijvers, o guarda-redes da Holanda, foi tendo muito trabalho. Os checos farejavam a fraqueza.

A seis minutos do fim, dos penáltis, onde quem sabe poderia ter acontecido ali o que aconteceria na final (panenkada), falta a história da velha armadilha que traiu e também secou a laranja.

Ladislav Jurkemik e Anton Ondrus

Ladislav Jurkemik e Anton Ondrus

Icon Sport

“Esta Holanda de Knobel não tinha um pressing tão intensivo e a armadilha do fora de jogo não era tão constante, como fazia Michels, em 1974”, sentencia Roldán. “Mas esta Holanda também a usava. O jogo contra a Checoslováquia é um jogaço, já o vi umas quatro vezes. Os checos eram muito bons, com Panenka, um interior técnico e líder, com Pollák e Nehoda, uma equipaça. Os checos ganharam 3-1, com dois golos no prolongamento, nos quais romperam a armadilha do fora de jogo. A Holanda avançou, fez mal, e concedeu dois golos."

A tal escola que ensinava a encurtar espaços, juntando linhas, que era senhora rainha do tempo e espaço, deixou-se levar pela lado emocional do jogo e, claro, isso castigou a linha defensiva que até sabia a cantiga de cor mas que estava perdida naquela altura.

Apesar de tudo e de tanto, daquele caos administrativo, dos amuos e facadas, do centro de estágio que foi tudo menos um lugar harmonioso para uma equipa pensar em jogar uma competição daquelas, Roldán deixa uma última e valiosa nota: "A Holanda era uma grande equipa, perdeu porque a moeda caiu assim. Podia ter ganhado". E assim, simplificando o que é belo e simples, se resume a coisa.

O caos defensivo daquela noite, em Zagreb, instalou-se também debaixo da pele de algumas figuras. Se Johan não esbracejava no relvado, a alma daquela seleção estava depenada. A seguir ao jogo, o balneário era uma casa de desamores e Johan, o capitão, abandonou a concentração imediatamente e seguiu para Barcelona, faltando disputar um jogo. A Holanda, ainda assim, ganharia à Jugoslávia (3-2), garantindo o terceiro lugar do Euro 1976, um torneio que ficou entalado entre duas finais do Campeonato do Mundo com sabor amargo.

Este domingo há uma espécie de reedição dessa meia-final de 1976, sem egos como o de Johan e sem o ralenti majestoso de Antonín: Países Baixos-República Checa, hoje, na Puskás Aréna, às 17 horas, na SportTV1.