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Euro 2020

Quando a bola não quer entrar

Na ressaca da eliminação de Portugal do Euro, Bruno Vieira Amaral olha para o que aconteceu e sugere pragmatismo, mas não apenas pragmatismo. "Que não se faça do pragmatismo e do receio um dogma. Porque se nos deu a glória de 2016 também já nos atirou por duas vezes borda fora nos oitavos. E depois ficamos a dizer que a bola não quis entrar"

Bruno Vieira Amaral

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“Peu importe si nous jouons bien ou mal
Nous avons volé la coupe au Portugal”
Canção tradicional da Valónia

E assim acabou. Com o murmúrio, e não o estrondo, de um remate no poste. Com o coração acelerado e a mente turva. É favor dirigirem-se para a porta de saída. Gostámos muito de os ter cá. Esperamos vê-los brevemente. Agora não incomodem os hóspedes que seguem para os quartos. Adeusinho. Bye-Bye, beijinho, beijinho. Reservoir le Portugal.

O que é que aconteceu? Rúben Dias não hesitou: “a bola não quis entrar.” Como não lhe dar razão? Viu-se bem que a bola estava contra nós, a magana duma figa. Porém, no lugar da bola, eu também estaria lixado. É que ultimamente não a temos tratado como ela merece e como sabemos. Só a procuramos por interesse, quando nos vemos aflitos. Não é amor. E as bolas, meus amigos, também têm sentimentos. E são vingativas. Nunca menosprezem uma bola despeitada.

Ontem, a bola maltratada entregou-se aos pés do Hazard, o outro. Não porque a Bélgica a tenha tratado muito melhor. Só que estava ali ao pé de semear e a bola não foi de modas. Não é tarde nem é cedo. “Vês o que acontece quando não queres saber de mim? Agora, toma.” Se não acreditam nesta teoria revejam o lance do golo e como a bola se desvia “caprichosamente” da luva de Rui Patrício. A bola “quis” entrar e quando assim é só nos resta aceitar-lhe as vontades, os caprichos e os apetites.

Atribuir a responsabilidade do desfecho à bola é até mais digno do que vir dizer que jogámos muito melhor do que a Bélgica e merecíamos ter ganhado. É que todos nos lembramos do mantra do não importa jogar bem ou mal. Desta vez, o brinde calhou aos belgas e agora são eles que cantam a plenos pulmões o cântico do nosso contentamento.

É preciso entender uma coisa: não é uma derrota a pôr em causa a abordagem cautelosa de Fernando Santos, que se calhar até se adequa bem ao futebol de seleções quando não se tem a sorte de herdar a espinha dorsal de uma equipa de clube. Por isso mesmo é que as vitórias e os empates, independentemente da forma como são conseguidos, também não podem servir para justificar essa abordagem. Só dizemos que não importa jogar bem ou mal quando ganhamos. Quando perdemos ficamos no “futebol é isto” e a “bola não quis entrar”. Se não importa como se joga, então mais vale decidir o jogo com uma moeda ao ar.

A frustração que fica é a sensação, que já dura há algum tempo, de que não jogamos tanto quanto podíamos. Não jogamos de acordo com a qualidade dos nossos melhores jogadores. Optamos por um tipo de jogo que não é propício à manifestação dessas qualidades, como se entrássemos com a intenção de anular o que temos de melhor. Não quer dizer que não haja pragmatismo, que tenhamos sempre de ser brilhantes e esmagadores: a Alemanha em 2014 deu sete ao Brasil, mas na final foi mais pragmática; em 2018, a França deu uma lição de pragmatismo à Bélgica e depois rebentou a Croácia na final; em 2012, Espanha e Portugal anularam-se na meia-final e os espanhóis depois arrasaram a Itália de Pirlo.

Portanto, é admissível – obrigatória até – uma certa dose de pragmatismo e cautela para se triunfar no futebol entre seleções. Mas que não se faça do pragmatismo e do receio um dogma. Porque se nos deu a glória de 2016 também já nos atirou por duas vezes borda fora nos oitavos. E depois ficamos a dizer que a bola não quis entrar.