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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Um passeio no Parken com Morata e o faro de Šuker

Croácia perdia por dois a cinco minutos dos 90 e conseguiu empatar. No prolongamento, Álvaro Morata foi decisivo e a Espanha chegou ao 5-3, alcançando agora os "quartos" do Europeu, onde vai esperar França ou Suíça

Hugo Tavares da Silva

Wolfgang Rattay - Pool

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O presidente da federação croata, um tal de Davor Šuker, que já como avançado tinha sensibilidade para saber uma coisa ou duas sobre o vento, deixou uma nota interessante antes deste épico Espanha-Croácia. “Vi que houve muitas queixas [ao Morata] depois do primeiro jogo. O Luis Aragonés, que descanse em paz, dizia sempre que há que cuidar do avançado, há que mimá-lo, porque vai devolver-te esse carinho com golos.” E assim foi: Álvaro Morata, tão criticado e insultado, fez um golaço no 4-3 e ajudou a criar o 5-3, ambos já no prolongamento. A Espanha já está nos "quartos".

Não demorou muito para se perceber quem ia mandar naquele jogo. Laporte, Busquets e, mais tarde, Pedri fizeram o seu joguinho, beneficiando numa primeira fase do encolhimento da Croácia. O defesa canhoto do Manchester City demorou menos de dois minutos a colocar Gaya na cara do guarda-redes croata. Dominik Livakovic antecipou-se.

A Croácia não queria nada com a bola, o que soa a heresia quando um futebolista como Luka Modric está em campo. Já os espanhóis voltaram a entrar bem, bons de bola apesar do relvado em péssimas condições, e rápidos quando perdiam a posse. Do lado croata, com as descidas de Rebic, chegou a ver-se uma linha de cinco.

Os homens de branco, que hablan muy rápido, estavam confortáveis, sofrendo pouco com o desacerto dos croatas até na hora de sair em contra-ataque. Perisic, o venenoso extremo, ia fazendo muita falta.

Pedri parece jogar sempre no mesmo ritmo, maravilhoso no trato. Descobre conexões, seguranças, espaços, venenos por envenenar. Foi o que aconteceu aos 16’, quando isolou Koke e este desiludiu-se perante a boa defesa do guarda-redes croata. Pedri, com este jogo, tornou-se no futebolista mais jovem da história a jogar numa fase a eliminar de um Campeonato da Europa, segundo um senhor reputado da estatística em Espanha, Mister Chip. Pedri tem 18 anos e 215 dias.

Stuart Franklin

Modric, sofrendo com a falta de qualidade ou valentia da equipa, tocava pouco na bola, mas ia salpicando aqui e ali o jogo com momentos de classe. Não precisa de muito, basta apenas tocar na bola, permitindo tantas vezes a equipa respirar uns segundos, tirar a cabeça debaixo de água.

Aos 20’, deu-se um lance caricato que salvou o jogo. Pedri tocou para Laporte, que escorrega e devolveu ao médio do Barcelona. O miúdo, a 50 metros de Unai Simón, tocou de primeira, em direção à baliza, com alguma força e a bola não ia a beijar a relva. Unai abordou o lance de uma forma estranha, o próprio posicionamento do pé anuncia coisas hediondas, o relvado terá ajudado. A bola bateu então no seu pé direito e escapou para dentro da baliza. Os croatas juntaram-se e tentaram afinar mais a equipa do que celebrar um golo.

A bola deixou de se sentir pouco desejada nos pés dos croatas, e os espanhóis, apesar de uns largos momentos de dúvida, sentiram debaixo da caixa torácica o que significa a urgência de ir atrás de algo. Diz-se muita vez que o futebol é aquele desporto em que não é preciso fazer um remate à baliza para ganhar, mas nunca se dá um exemplo cabal. Senhoras e senhores, aqui está um.

Depois de Morata falhar um golo de cabeça, enfurecendo ainda mais os fantasmas, a Espanha chegou ao empate antes do intervalo, por Pablo Sarabia, na ressaca de um remate de Gaya. Estava a adivinhar-se e isso terá acalmado as almas espanholas no descanso, para descobrir novas rotas para a felicidade.

A segunda parte seria talvez a maior festa do futebol que este Campeonato da Europa já viu. Começou com o golo de César Azpilicueta. Ferrán Torres, titular em vez de Gerard Moreno, recebeu de Pedri e cruzou para o segundo poste, onde o defesa do Chelsea ganhou a Josko Gvardiol. “Vamos!”, gritava Luis Enrique, aliviado.

O jogo foi tendo algumas oportunidades, mas parecia mais ou menos controlado pelos espanhóis. Quanto mais bolas Busquets tocar, mais sossegado estará o treinador. Pedri ajuda à festa, Koke esta tarde não esteve tão bem. Thiago nem entraria. Do outro lado, claro, os futuros nostálgicos iam imaginando que aqueles eram os últimos toques de Luka Modric num Europeu.

Ferrán Torres, depois de um passe soberbo de Pau Torres que parece ter sido feito noutra localidade, apanhou o defesa esquerdo distraído e aproveitou para se isolar e fazer o 3-1. Os sorrisos de Morata, honestos, com os golos alheios dão cabo de quem está atento a estas coisas. Agora sim, sossego. Será?

No.

Numa altura em que Jordi Alba e Fabián Ruiz já lá estavam dentro, e até que Luis Enrique celebrava foras de jogo e via Modric a ir buscar a bola à defesa, a Croácia reduziu por Orsic, depois de uma confusão ali tão perto da linha de golo. O número 10 esteve lá a morder o juízo aos espanhóis, claro, e perante a dúvida o relógio do senhor árbitro garantiu que era golo e os croatas festejaram mais um.

Stuart Franklin

Aos 90’+2, deu-se o empate que desatou uma loucura no Parken, em Copenhaga, palco mágico de grandiosos jogos de futebol. Orsis apareceu pela esquerda e cruzou a bola, para o que seria um dos últimos lances do jogo. Pasalic, mais um da Atalanta, saltou e cabeceou, 3-3.

Que jogo.

Haveria prolongamento. As pernas de Busquets e Pedri já pareciam começar a miar. Os croatas estavam mais dentro do jogo. E um duelo de vaivém ia beneficiar, na teoria, os croatas. Unai Simón, depois daquele erro, transformou-se num monstro, a encher a baliza e na serenidade com a bola no pé.

Depois de quase marcar, Dani Olmo descobriu Alvaro Morata no segundo poste, no minuto 100. O avançado cancelou a ansiedade, desfrutou ao ver a bola a passar por cima do defesa, dominou com a direita e atirou forte com a canhota, um golaço, à nueve. Mesmo que não fizesse golos, foi generoso, trabalhou muito com e sem bola, foi importantíssimo de costas para a baliza a ligar com colegas, foi importante. E vive bem com a alegria alheia.

Pouco depois, o avançado da Juventus fez uma tabela com Olmo e este, depois de uma correria em terreno baldio, cruzou para Mikel Oyarzabal, que, com uma calma olímpica, tocou para dentro da baliza. Agora sim, os espanhóis iam respirar.

E assim foi, na segunda parte do prolongamento, com a Espanha a congelar a bola mais tempo, a esvaziar o ímpeto guerreiro e inconformado dos homens dos Balcãs. Modric saiu, ouviu aplausos. Busquets saiu e os músculos das pernas bateram palmas a Luis Enrique.

Morata quase voltou a marcar, Olmo idem. Foi um grande jogo de futebol, evidenciando que a emoção come ao pequeno-almoço o xadrez e as organizações táticas. A Espanha segue para os quartos-de-final onde vai encontrar o vencedor do jogo França-Suíça.

Esta tarde ganhou o futebol e o faro de Suker.