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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Football's coming home? Perguntem a Jack

Inglaterra venceu a Alemanha, no Estádio de Wembley, por 2-0, com golos de Sterling e Kane. Jack Grealish entrou a 20 minutos do fim e esteve nos dois golos. Ingleses esperam, nos "quartos", o vencedor do Ucrânia-Suécia

Hugo Tavares da Silva

Alex Morton - UEFA

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Jack tinha nove meses quando "Football's coming home” enchia a alma e a boca dos que estavam nas bancadas de Wembley, naquela tarde quente de junho de 1996. Não tinha idade para se lembrar do que aconteceu e do que aconteceria tanta vez: os alemães levaram a melhor sobre os ingleses, que quase voaram de alegria com os quase golos de ouro de Darren Anderton (poste) e Paul Gascoigne (atrasado por centímetros). Mas esse fado mudou finalmente e Jack, que se fez Grealish, Jack Grealish, um artista que joga com as meias em baixo, ajudou a mudar a história 25 anos depois. A Inglaterra venceu esta tarde a Alemanha por 2-0: Harry Kane marcou num Campeonato da Europa pela primeira vez.

Foi curioso ouvir alguns podcasts britânicos antes deste jogo. A mochila, a carga emocional, que os britânicos levam debaixo da pele é enorme. Ora falam nos malfadados penáltis (1990 e 1996), ora no golo limpo de Frank Lampard que não valeu (2010), ora na vitória inútil com golo de Alan Shearer (2000), ainda num 5-1 para a Inglaterra num jogo de apuramento e, claro, na final de 1966. Chegam a dizer que a rivalidade é patética, pois só os ingleses o veem assim e que, na hora da verdade, os outros são implacáveis. Mas bastou ver-se como Wembley se transformou esta tarde quando Raheem Sterling fez o primeiro golo do jogo e o pensamento já ensaiava secretamente o hino de 1996: “Football’s coming home”.

Gareth Southgate, o homem que falhou o penálti decisivo no Euro 1996, trocou o sistema para três defesas centrais, com Kyle Walker a central, Kieran Trippier na ala direita e o veloz Bukayo Saka atrás de Harry Kane, tal como Sterling. Do outro lado, Joachim Löw apostou em Leon Goretzka pelo indisponível Ilkay Gundogan e preferiu outros avançados: Thomas Müller e Timo Werner em vez de Sèrge Gnabry e Leroy Sané. Ou seja, haveria um avançado rapidíssimo, porventura mais posicional, para explorar o espaço nas costas da defesa inglesa e os arrastamentos de Walker e do acertado e protagonista Harry Maguire.

A Alemanha entrou melhor, Müller até descobriu Goretzka com o corredor aberto para a baliza, mas este teve de ser puxado por Declan Rice, que cedo ficou condicionado com um cartão amarelo. O rigor e a generosidade de Kalvin Phillips compensariam tudo. Os ingleses finalmente deram alguns toques na bola em campo rival perto dos 15’. Foram ganhando confiança e estariam em muitos momentos do jogo por cima, melhores, mais confortáveis.

Saka ia sacando faltas, Sterling fez Manuel Neuer voar com um remate de longe. Iam-se notando alguns movimentos interiores de Luke Shaw e sobretudo de Walker, que terá aprendido com os colegas do City a fazer o mesmo. O lateral da equipa de Pep Guardiola, aliás, terminaria a primeira parte com mais toques na bola do que qualquer companheiro (45), no lado oposto estaria Kane (9).

Müller e principalmente Kai Havertz eram os principais desbloqueadores de jogo da Alemanha, que ia tendo dificuldades para assumir o jogo. Depois da meia hora, Goretzka recuperou a bola, tocou para Havertz e este isolou Timo Werner: excelente defesa de Jordan Pickford.

Markus Gilliar

Só por volta do minuto 40 é que se viu Harry Kane a sair da posição, baixar, livrar-se do marcador e isolar um colega. Saiu comprido, mas estava ali um sinal: o avançado do Tottenham, que usou uma braçadeira arco-íris tal como Neuer, tem de estar mais presente no jogo da equipa.

Ao jogo faltou pausa, aqueles momentos que permitem ocupar melhor as posições, estar melhor posicionados até na hora de perder a bola, para mais rápido a recuperar. E, serenando, ganha-se oxigénio no pensamento, descobrem-se caminhos novos ou buracos que a vertigem não permitem ver. Toni Kroos ia tentando, juntando-se perto dos defesas. Mas o jogo não foi rico por aí, aquela gente queria acelerar sempre.

Antes do intervalo, Mats Hummels, que provavelmente ia sendo o melhor do lado dos germânicos, tirou o golo certo a Kane, que já tinha desviado de Neuer.

O segundo tempo começou praticamente com um belo remate de primeira de Havertz, mas Pickford negou o golo do campeão europeu. Os alemães pareciam chegar melhor, mas duraria pouco o sentimento. Hummels iam mantendo-se como o homem que descobria as rotas do avanço no terreno.

Aos 69’, os treinadores decidiram finalmente mexer na equipa e, pelo menos um deles, resolver o duelo eterno. Serge Gnabry entrou pelo apagado e aparentemente sempre triste Werner, enquanto Saka saiu para entrar o menino bonito daquelas bandas, Jack Grealish, que momentos antes exibia uma tristeza comovente por estar no lado errado daquela fronteira de cal.

O rapaz do Aston Villa só precisou de seis minutos para ajudar a mudar o rosto de um Wembley inteiro. Sterling recebeu descaído para a direita, correu apressadamente para o centro, tocou para o calmo Kane, que deixou para Grealish. O médio esperou como esperam os que sabem o que estão a fazer e tocou para Shaw, que cruzou de primeira: Sterling encostou para a baliza, 1-0. Southgate gritou de alegria.

Wembley estava maravilhosamente feliz.

Apesar de tanta derrota debaixo da pele e das angustias, ainda ninguém tinha coragem de cantar a canção que o pensamento queria cantar, mas a boca não autorizava. Afinal, há respeito pelo colossal rival que está do outro lado, vestido todo de preto, quem sabe a honrar o que muitos magicavam sobre o tal grupo da morte, que estariam todos mortos dentro de pouco tempo.

Catherine Ivill

Sterling esteve no melhor e quase no pior, já que perdeu uma bola que permitiu, aos 81’, um contra-ataque que cheirava a golo. Müller, isolado, chutou ao lado e ajoelhou-se, questionando-se. O avançado do Bayern Munique, que piscou o olho para a câmara enquanto o seu hino era vaiado pelos ingleses, nunca marcou num Europeu.

A quatro minutos do fim, deu-se a cacetada fatal nas aspirações germânicas. Gnabry recebeu mal a bola, aconteceu demasiadas vezes, a Inglaterra avançou, Shaw conduziu, tocou para a esquerda para Grealish, que sacou uma bolinha com a canhota que Kane aproveitou para ser feliz. Dois-zero.

Já não podia fugir, não ia fugir, mas nem um pio sobre a tal canção.

Apito final em Wembley, festejos dignos de quem ganhou o trono do universo e agora, sim, a canção que esteve desanimada 25 anos na gaveta da alma. Southgate parecia aliviado e vingado por 1996. Sterling, abraçado a Kane, chamou Jack Grealish para fazer parte daquele valioso abraço.

Grealish, natural de Birmingham, disse há dias que queria imitar Gascoigne e Wayne Rooney e ser importante num torneio internacional. Com a camisola 7, que outrora foi de Beckham, um senhor bem-parecido que estava na bancada, Jack engrandece o jogo da Inglaterra e, talvez mais importante, ganha o direito à imortalidade no coração dos ingleses.