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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Onde costuma estar Pogba durante um jogo de futebol?

O dia de Europeu com 14 golos em dois jogos coincidiu com a eliminação da França e a despedida de Paul Pogba, provavelmente a melhor exibição ambulante que a competição estava a ter. Aos 28 anos, não jogou ao ritmo ralenti-Pogba que costuma apoderar-se do médio, que nem sempre parece estar ligado ao que acontece à sua volta

Diogo Pombo

Alex Livesey - UEFA

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Ver Paul Pogba a correr é um exercício curioso, mecanicamente relevante até, tão pouco que parece ser o sentido anatómico quando está a fazer mais do que apenas caminhar.

Ele tem 1,91 metros, não deve muito à musculatura e há uma viga imaginária a endireitá-lo, de peito feito, em cada passo que dá com os pés de bailarina, se não corre sempre em pontas essa pelo menos é a impressão que fica; um corpo tão grande, tão pesado, ter igualmente tanta leveza a deslizar em relva é inaudito, mais ainda quando chocalha os ombros sem critério e abana a cabeça durante a corrida.

É um desajeito natural no francês, quase um coxeio gracioso com que anda por li no meio-campo praticamente sempre a um andamento próprio, Pogba parece jogar ao ritmo de Pogba. Só que, num de vez em quando que vai ganhando frequência, os jogos apanham o francês em modo ralenti Pogba, ele a jogar e a participar e a velocidade do futebol jogado a ultrapassá-lo.

Paul Pogba nunca se pareceu importar-se em grande pedaço com isto, as impressões iludem e muito, mas na mecânica do corpo do francês mora tanto talento que será esse jeito desmesurado a traí-lo. "Acho que tem dificuldades em concentrar-se, em parte, por o futebol ser tão fácil para ele", escreveu, na segunda-feira, Simon Kuper, jornalista britânico nascido no Uganda, com infância na Holanda e vida assente em Paris, dono de um habitual olhar incisivo em matérias de bola.

Factualmente, nada parece custar muito a sair de Pogba quando está em campo. Outra história é como as coisas lhe saem se, realmente, estiver ligado ao que se passa no jogo.

MARKO DJURICA/Getty

Este Europeu teve-o ligado à corrente, fosse um personagem de Matrix e estaria sempre com a ficha cravada na nuca, compenetrado e messiado no mundo paralelo como se manteve, com uma constância que lhe é pouco habitual, durante os enfrentamentos com Alemanha, Hungria, Portugal e Suíça.

Pogba foi o bully futebolístico que é capaz de ser se, e quando, está para aí virado.

Um poço de potência e força a proteger a bola, roubá-la ou discuti-la na colisão dos físicos quando é necessário; um calçador de pantufas nos momentos em que os adversários o cercam com números e são driblados, como se nada fosse; um fabricador de passes geniais, rasteiros ou pelo ar, a irrelevarem linhas organizadas da outra equipa para a bola ir ter com Mbappé, ou Benzema.

Contra os suíços, nos oitavos-de-final, o médio sucumbiu à irrelevância geral na primeira parte, mas, quando os franceses foram recompostos no sistema de sempre por Didier Deschamps e durante a meia hora em que estiveram em campo para jogar, Pogba evidenciou como era, provavelmente, o mais talentoso jogar em campo - que é diferente de ser o melhor futebolista.

Os passes que com que foi rasgando a organização da Suíça, a sua resistência de aço à pressão e os pés do mais técnico que pode haver num meiocampista. Mostrou-se assim em vários momentos, aquele passe sem qualquer preparação para Koman, a cortar uma bola a meia altura, ou aquele remate em colher que se encaixotou no ângulo superior da baliza, para depois celebrar o golo mecanicamente, ele robótico até sem caminhar, coreografando um festejo.

Até na festa Pogba foi inseriu numa caixa só dele. A França murcharia a partir do 3-1, abriu caminho à investida de querer jogar bem e ganhar da Suíça e o empate que os enviaria a prolongamento veio de uma bola perdida pelo médio. Aí pareceu que ia atrás do prejuízo, mas não, apenas assistiu no seu ralenti à vontade com que os helvéticos invadiram a área, ligados à corrente na caça à sua sobrevivência no Europeu.

Pogba sucumbiria com a França nos penáltis, onde, apesar da bola que perdera e não perseguira, lá esteve a dar o seu pontapé, o peito feito e todo o suar a pingar confiança presentes na forma como bateu a bola de novo ao ângulo reto de cima, a nem por instantes tremer a 11 metros do local que leva o jogo a jogar-se mais dentro da cabeça.

Ele fez a sua excelsa parte e cumpriu ao jogar neste Europeu com quase tudo o que tem de melhor, a ser o Paul Pogba presente nos jogos e a elevar-se à melhor versão de si próprio na seleção de França, onde é habitual vê-lo mais presente, a ser mais Pogba, a deixar toda a gente assistir à grandeza do jogador que há no francês - e por onde habitualmente andará este futebolista, nas horas vagas de Europeus e Mundiais a disputar com a seleção.

  • Em quatro minutos o mundo dá a volta. E depois dá a volta outra vez
    Euro 2020

    A Suíça fez cair a campeã mundial França num jogo emocionante, com voltas e reviravoltas, em que os helvéticos começaram a ganhar (e a dominar taticamente), falharam uma grande penalidade, sofreram três golos e ainda tiveram forças para empatar 3-3. E um jogo assim só se podia resolver nas grandes penalidades, em que a fava calhou ao menino Mbappé, o único a falhar e a ditar mais um adeus precoce de um favorito neste Europeu