Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

A Alemanha perdia na meia-final do Euro 1976 e Dieter Müller entrou em campo: a história do primeiro hat-trick da prova

O avançado do Colónia, em estreia pela seleção, empatou logo um minuto depois de entrar (79') contra a Jugoslávia e levou o jogo para prolongamento, onde fez mais dois golos. Apenas outros seis homens sabem o que é fazer três golos num jogo do Campeonato da Europa

Hugo Tavares da Silva

picture alliance

Partilhar

Os alemães iam sendo alemães, desgostosos com o resultado e a forçar mudanças de destinos a menos de 15 minutos do fim. Franz Beckenbauer, com o número 5 nas costas e a elegância em cada gesto, ia jogando de frente para o jogo, distribuindo trivelas e ideias. Os jugoslavos, bons de bola, iam aguentando, desempenhando na perfeição a armadilha do fora de jogo, pelo menos segundo a bandeirola do fiscal de linha.

Jogava-se a meia-final do Europeu de 1976, em Belgrado, e a equipa da casa estava na frente, com golos de Danilo Popivoda e Dragan Dzajic (Heinz Flohe reduzira para os germânicos, aos 65’).

Dieter Müller, quem sabe inspirado com o legado do outro Müller, Gerd, foi chamado pelo selecionador alemão aos 79’, para substituir Herbert Wimmer. O avançado, natural de Offenbach am Main, foi importante nessa época no Colónia, que terminou em quarto lugar na Bundesliga, a meros seis pontos do campeão, Borussia M´gladbach, e a um do Bayern, o terceiro classificado, que contou com 23 golos de Gerd Muller, já retirado das andanças de seleções.

Ansioso, aos 22 anos e vestindo pela primeira vez aquela importante camisola branca que ganhou o Euro 72 e o Mundial 74, entrou no relvado antes de tempo e o árbitro pediu-lhe para voltar atrás. Faltava inspecionar aquelas magníficas e clássicas botas de futebol. Ele ia mascando uma pastilha. Aqueles momentos, a possibilidade de ser o herói de um país, uma cidade, um bairro, é o que dá vida a um avançado.

Icon Sport

Um minuto após entrar em campo, e depois de um livre lateral mal amanhado, a Alemanha ganhou um canto. Rainer Bonhof bateu para a zona mais venenosa da pequena área, ainda por cima sem qualquer futebolista jugoslavo. Lá, farejando o golo como quem fareja a glória, estava Dieter. O avançado, que também jogaria o Campeonato do Mundo na Argentina dois anos depois, cabeceou na imensa solidão e celebrou esticando os braços que quase rasgavam o céu, mais um clássico.

A Jugoslávia ia confirmando a fama de gente boa de bola, alguém se lembrou de chamar-lhes “os brasileiros da Europa”. No onze, contavam com seis sérvios, três croatas, um bósnio e um esloveno, sendo que no meio-campo estava o ouro, com uma mescla de craques do Hajduk Split e Estrela Vermelha.

Branko Oblak, pela direita, estava no meio de três e não se aborreceu muito, até que perdeu a bola, provavelmente em falta. Qual mago sem urgências, voltou para trás com calma. Josip Katalinski ia perseguindo Dieter. Num outro canto para os alemães, mais perto dos 90', já havia alguns habitantes para contrariar o fado anterior. Do banco alemão, onde estava Helmut Schön, ia-se berrando que faltavam três minutos. Nada mudaria no marcador e foi Dragan Dzajic quem esteve mais perto de ser o herói daquela noite. O livre direto saiu perto do poste esquerdo de Sepp Maier.

O prolongamento daquela semifinal, em Belgrado, tornou o conto de fadas do estreante Dieter Müller ainda mais grandioso.

Quando faltavam apenas cinco minutos para os impiedosos penáltis, Heinz Flohe, com uma fineza que distingue os grandes deste desporto, arrancou pela esquerda, deixando para trás Jure Jerkovic (excelente assistência no 1-0) e cruzou ao segundo poste. A bola um rocket. Com uma calma e generosidade épicas, Erich Beer tocou de primeira para dentro, confirmando a qualidade destes futebolistas, e nem o próprio Dieter Müller parecia esperar aquele milagre tão acessível: o avançado, qual killer faminto, chutou forte e festejou um pouco como um dia celebraria Alan Shearer, com uma mão no alto durante a corrida desenfreada.

Aos 119’, aproveitando o favor da bola bater no poste - depois de um bom remate de Bonhof -, Müller encostou para a baliza e celebrou aquele que foi o primeiro hat-trick da história dos Campeonatos da Europa. Na final seria titular e até marcaria um golo, mas Panenka e companhia tinham outros planos.

picture alliance

O feito de Dieter Müller, que entrou aos 79’ com a equipa a perder e que fez três golos empurrando a Alemanha para mais uma final, só seria imitado mais sete vezes.

O alemão Klaus Allofs, num Alemanha-Holanda da fase de grupos do Euro 1980, foi o primeiro, assinando o segundo hat-trick da história dos Europeus. Depois chegou a magia de Michel Platini, em 1984, com dois hat-tricks na fase de grupos, contra Bélgica e Jugoslávia, este último conseguido em apenas 18 minutos. Ainda é o hat-trick mais rápido da história dos Europeus. O genial 10 francês é também o único que conseguiu fazer dois hat-tricks na mesma edição.

Seguiu-se Marco van Basten, em 1988, contra a Inglaterra, na fase de grupos. Depois, em 2000, os pioneiros alemães sofreram com o veneno da sua invenção e viram Sérgio Conceição marcar três golos a Oliver Kahn, na última jornada da fase de grupos, no dia em que Lothar Matthäus celebrou a 150.ª internacionalização.

Finalmente, Patrick Kluivert, nos quartos de final do Euro 2000, fez mais um hat-trick, novamente contra os pobres dos jugoslavos. O último homem a saber a que sabe festejar três golos num jogo de um Campeonato da Europa foi David Villa. Aconteceu em 2008, na fase de grupos, no 4-1 à Rússia de Igor Akinfeev.