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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Jack Grealish, o mais divergente que há entre os ingleses

Tem dois troncos musculados nas pernas, joga com as meias nos tornozelos para não ter dores nos gémeos e tem um penteado inusitado. Não é só o visual de outros tempos que distingue Jack Grealish na seleção de Inglaterra que está nos quartos-de-final: colando a bola ao pé direito, é quem mais capaz é de jogar futebol de outra forma. E quem mais insiste em fazê-lo

Diogo Pombo

Markus Gilliar/Getty

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Os ingleses têm queda para comoções, fica com os corações a tremelicarem peito dentro, a agitarem-se para saírem peito fora quando, nesta geração ou numa outra, aparece um jogador que os exalta pelo talento transbordante e os faz crer encontraram o tipo que os salvará, agora é que o futebol virá para casa, temo-lo a ele.

Assim o foi com Paul Gascoigne, teve que o ser com Wayne Rooney e está a sê-lo com outro incaracterístico inglês que não tem par na atual fornada de jogadores que a nação-berço da bola espera, a cada dois anos, ser a tal que vai trazer de volta um grande título de seleções.

Os rejúbilos hoje em Wembley são por Jack Grealish e o estádio acorda por ele, ouve-se gente a pedir que tragam o Jack, que tirem o Jack do banco, que se ponha o Jack a jogar, ele virou um Jack of all trades mesmo não sendo um talento geracional dos que só aparecem quando um deus do futebol se distrai e deixa cair um perdigoto cá para baixo.

Jack Grealish é um muito bom jogador que ainda joga no Aston Villa, o clube da Birmingham onde nasceu e se mantém desde os 6 anos. Só vai com 10 internacionalizações feitas pela Inglaterra, neste Europeu apenas foi titular no derradeiro jogo da fase de grupos, ele entra em campo ou sai sempre nos 60 e tais minutos, quando o conservador Gareth Southgate quer chocalhar ao de leve as coisas ou farto está de o ter lá dentro a abanar com tudo.

Porque Jack Grealish é o descaramento em futebolista, o tipo de jogar que dá a sensação ser indiferente ter Mats Hummels por diante ou um qualquer amigo de infância, a querer roubar-lhe a bola na rua.

Ele cola-a ao pé direito e, sem a pressa dos apressados ingleses que durante décadas basearam o seu futebol na urgência, encara qualquer adversário, pausando os movimentos para os acelerar logo a seguir. Grealish ousa atrair em si as atenções para tentar inventar coisas a partir da ala esquerda para onde a Inglaterra estiver a atacar.

Ryan Pierse - UEFA

Quando tem a bola, o inglês prende o braço direito no ar, engata-o, parece segurar o seu manípulo imaginário que ordena a bola a obedecer-lhe sem questionar e aí está dentro da sua zona, a que o fez ser jogador que mais faltas sofreu na última Premier League e o segundo inglês com mais assistências (10, só atrás das 14 de Harry Kane).

Jack Grealish parece jogar um jogo dele que, deixando jogá-lo, beneficia o jogo maior em que está inserido e que a sua equipa, no caso a sua seleção, está a tentar ganhar. Na terça-feira, em menos de 30 minutos participou no 1-0 da Inglaterra e fez a assistência para o 2-0, enquanto deambulou mais do que os outros ingleses por entre a equipa presa à tímida mecânica do selecionador.

Depois, o inglês é toda a figura que ostenta - um cabelo rapado sobre as orelhas para ter duas ondas no topo, presas por uma bandelete; os troncos que tem por pernas, anormalmente musculadas, com as meias e as caneleiras nos tornozelos, para não lhe apertarem os inchados gémeos, nem causarem as dores das quais se queixava quando esticava as meias até ao joelho.

É todo um visual de outros tempos, inusitado como o eram a figura diletante de Gascoigne ou o falso rechonchudo Rooney quando apareceram. Jack Grealish talvez não possua o talento em bruto desses dois, porventura não será tão bom a fazer tantas coisas, mas é o mais divergente dos ingleses neste Europeu, o maior portador de uma forma diferente de jogar futebol que a Inglaterra tem.

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