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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Itália e uma proposta que não podemos recusar

Depois da chamada à terra frente à Áustria, a Itália voltou àquele estado de graça que só as equipas com assinatura têm e bateu a Bélgica por 2-1, num grande, grande jogo de futebol, com duas equipas a jogar ao ataque, sem medo. Os italianos pareceram quase sempre uma equipa em controlo de si mesma, com uma qualquer aura brilhante assentada naquele futebol de toque e cérebro que nos faz ter zero saudades do seu clássico pragmatismo. Segue-se a meia-final com a Espanha

Lídia Paralta Gomes

Philipp Guelland / POOL/EPA

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Ahhhh, a maravilha que é um jogo entre duas equipas sem medo. Entre jogadores de camisolas de cores diferentes mas todos de olhos na baliza, uns de uma maneira, outros de outra, uns com mais vertigem, outros com mais toque, ambas entusiasmantes.

Podia ter sido uma final este Bélgica - Itália, teria sido uma grande final de um grande Europeu.

Mas não foi e é pena porque não teremos mais Romelu Lukaku e aquela agilidade que não vemos nunca em homens daquele tamanho. Não teremos mais Kevin de Bruyne e aquela souplesse a progredir com bola, mesmo claramente inferiorizado depois da lesão no jogo frente a Portugal. Não teremos a irreverência do miúdo Doku, o renascimento de Eden Hazard, não os teremos, com pena, mas teremos Itália, a variabilidade de Itália, o critério com a bola, essa coisa tão ou mais valiosa que 100 esculturas em Florença, a bela Itália que nos está a dar uma proposta de futebol tão boa neste Europeu que é mesmo uma proposta que não podemos recusar.

Há canções em que só com o tempo, com muitas audições, com uns bons auscultadores, conseguimos descobrir na plenitude, cada faixa de som, cada pormenor lá atrás, a linha de cada instrumento e podia jurar que a 1.ª parte deste jogo dos quartos de final foi um bocadinho como essas canções. Aconteceu tanto e tanto e tudo harmonioso, nada de instrumentos a atropelarem-se uns aos outros, nada de sons dissonantes, apenas uma Itália a tentar tomar conta do jogo com a sua qualidade de posse, com aquele meio-campo de cérebros e uma Bélgica a responder com as suas melhores armas, ataques rápidos, as investidas de Kevin de Bruyne no meio-campo contrário e um Lukaku a aparecer tanto no meio como nas alas para criar o caos naquela junção de massa e talento que ele tem e que não anda por aí à mão de semear.

Matthias Schrader / POOL

Bola para cá, bola para lá, intensidade de parte a parte, gente a aparecer nas áreas como fieis à missa ao domingo. Tanta coisa que eu podia jurar que perdi metade.

Golos iriam surgir, isso era certo, até podia ser para qualquer lado e a bola até foi cedo ao interior da baliza de Courtois, mas Bonucci estava fora de jogo. Estávamos aos 13’ e ao susto a Bélgica respondeu com duas oportunidades, primeiro um remate de De Bruyne (22’) para uma parada gigante do proporcional em tamanho Donnarumma e depois Lukaku, aos 26’, numa transição rápida a dançar na cara de Chiellini e a rematar colocado para, mais uma vez, Donnarumma brilhar.

Perdeu ali a Bélgica o elan e rapidamente o seu meio-campo voltou a estar pejado de rapazes italianos, nas suas trocas constantes, com os seus médios-metrónomo a pautarem o jogo e aos 30’ seria golo, agora sim, com Barella a aproveitar a confusão na área adversária para ganhar o lance entre três adversários e rematar cruzado para o 1-0.

Já perto do intervalo, Insigne, muito mais em jogo esta sexta-feira do que nos ‘oitavos’ com a Áustria, pegou na bola, tirou Tielmans do caminho, viu Alderweireld e Vermaelen a fazerem-lhe pressão à distância e agradeceu o espaço com um remate em arco perfeito para a baliza de Courtois.

O 2-0, ali aos 44’, estava longe de ser uma sentença de morte para a Bélgica, mas a Itália estava no controlo, leve como quem caminha nas nuvens, a aproveitar os espaços que raramente teve com a Áustria para jogar o seu melhor futebol.

Mas ainda antes do intervalo, o árbitro viu um empurrão de Di Lorenzo a Doku na área, Lukaku não desperdiçou a grande penalidade e, de repente, a 2.ª parte era um jogo em aberto.

É possível que o 2.º tempo não tenha sido tão bonito, foi de certo mais anárquico porque a Bélgica precisava de arriscar e por momentos a Itália sentiu-se acossada.

Aos 61’, não fosse a coxa direita de Spinazzolla e uma jogada rápida entre Doku, De Bruyne e Lukaku tinha acabado com a bola na baliza e aos 70’, acabadinho de entrar, Chadli foi à linha final cruzar para Lukaku e Thorgan Hazard, à vez, falharem o timing de chegada ao lance. Seria a primeira e única intervenção de Chadli, que esteve apenas quatro minutos em campo antes de sair lesionado.

Philipp Guelland / POOL

Lesionado, minutos depois, sairia também Spinazzolla, um dos melhores deste Europeu, uma máquina naquele lado esquerdo italiano e que vinha sendo um dos melhores da equipa de Mancini na 2.ª parte, em que, apesar das oportunidades belgas, a Itália parecia ter a superioridade emocional, como quem se impõe apenas estando lá.

A saída de Spinazzolla terá abanado esse estado de graça, essa coisa não palpável que esta Itália parece ter, afinal parece quase certo que o lateral não jogará mais neste Europeu e isso é um pontapé na cara desta equipa. Por isso, os últimos 10 minutos foram de sofrimento, de uma Itália mais retraída, a tentar conter o crescimento belga no suor, com homens de barba rija a festejar cortes como quem festeja um golo. E por muito que se tenha uma qualquer aura, e esta Itália tem-na, às vezes tem de ser assim, no nervo, na marra. O resultado que vinha 2-1 do intervalo, 2-1 estava no fim.

Esta Itália também sabe sofrer e também é dessa matéria que se fazem os campeões. Agora há meia-final de sonho com a Espanha, que parece bem menos em controlo de si mesma do que os italianos, que ainda devem ter aquela final do Euro 2012 - atropelamento ibérico de 4-0 - bem atravessada na garganta.