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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"O Goethals andava sempre com um blazer onde tinha guardanapos para fazer táticas e bonequinhos": a época de Raymond 'La Science' no Vitória

Manuel Machado conta à Tribuna Expresso como o acaso de ter "um francês de liceu" o levou a ser adjunto de Goethals, em Guimarães. Já Laureta, um canhoto daquele plantel de 1984/85, recorda com saudades o "mago da bola" que antes via na revista "Onze". Esta sexta-feira há Bélgica-Itália (20h, SIC), por isso trazemos um pedaço da história deste homem polémico e apaixonado pelo jogo

Hugo Tavares da Silva

Paul Marriott - EMPICS

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O futebol não fazia gazeta no pensamento. Nem no bolso do blazer, onde descansavam os guardanapos para mais tarde se transformarem numa tela para táticas e ideias. O cigarro nunca abandonava o canto da boca, era magistral, a cinza caía despreocupada, a conversa acelerava e o cigarro ali, quase um complemento do homem. Raymond Goethals (1921-2004), um treinador controverso e apaixonado pelo jogo, chegou a Guimarães no verão de 1984.

Raymond la Science, assim era conhecido, entrou no Vitória depois de ser suspenso pela federação belga devido a um escândalo de corrupção no Standard Liège. O presidente Pimenta Machado, já depois de despachar meia equipa por comportamentos impróprios num estágio no Luxemburgo, decidiu avançar para o então já mítico treinador belga, que devolvera àquele país a presença num Campeonato do Mundo em 1970 - não acontecia há 16 anos - e que conseguira também um terceiro lugar no Euro 1972, eliminando a poderosa Itália nos 'quartos', antes da fase final.

Certo dia, meio por acaso, Manuel Machado foi ao departamento de futebol profissional do clube minhoto e testemunhou a dificuldade de comunicação entre os presentes. Era Goethals. “Eu tinha, enfim, um francês de liceu, mas algumas bases, ajudei um bocado na comunicação e ele disse: ‘Ahh, é importante ficares comigo, vais ajudar nesse sentido’. E foi aí que me tornei adjunto dele. Foi uma casualidade mesmo”, conta o treinador à Tribuna Expresso. “Ele estava só com um adjunto, o Djunga, já falecido. Integrei essa equipa técnica por essa casualidade da tradução e como preparador físico. Foi o meu primeiro ano no futebol profissional.”

Machado ia buscá-lo pela fresca, ao hotel, depois preparavam o treino, davam treino, iam almoçar, voltavam para outro treino e ia levá-lo de volta ao hotel.

Testemunhou de perto a implementação de um sistema com três centrais que, embora frequente na então Holanda e Bélgica, não se via por cá. Na ponta da língua só morava o futebol, no canto da boca já se sabe: “Sempre. Muitas vezes não precisava de isqueiro, acendia um cigarro com outro e mantinha-o no canto da boca, a cinza ia caindo por ele abaixo, na secretária, onde estivesse, não se preocupava com isso. A conversa fazia-se com o cigarro permanentemente no canto da boca. Fazia parte da imagem.”

O humor era peculiar, embora seja uma das primeiras vítimas quando existe uma barreira na linguagem. “Lembro-me muito bem de, quando os jogadores num treino de finalização chutavam e a bola ia para longe, ele dizia ‘sabotage, sabotage, ó não sei quantos’. Tinha este tipo de presença, era permanente. Um homem comunicativo, era um homem da bola fundamentalmente. Muito genuíno”, recorda Manuel Machado.

Quando pegamos no telefone para ligar a Laureta, um jovem futebolista canhoto daquela altura, e lhe prometemos roubar pouco tempo, a primeira frase é encorajadora: “Esteja à vontade. Para falar de quem é, estamos aqui o dia todo…”

Alain Gadoffre

Hoje a trabalhar na formação do Vitória e assombrado pelos treinadores que têm mais pressa de subir do que de ensinar, Laureta, de 59 anos, não disfarça o carinho. “Foi um ano maravilhoso. Era o mago da bola. Andava sempre com um blazer onde tinha guardanapos para fazer táticas e bonequinhos. Vinha do futebol belga, que eu adorava, um futebol rápido, de contra-ataque, nunca gostei do tique-toque, nem de chique-chique do futebol português. Foi a primeira vez que joguei com três defesas”, conta, revelando ainda que o treinador acabou por abandonar o sistema por desconfiar dos fiscais de linha, recuperando assim a defesa de cinco com líbero.

O treinador belga sabia bem mexer com as cordas do temperamento difícil de Laureta, que se dizia “um bom profissional e um mau desportista”, por isso colocava-o sempre nas equipas mais fracas nos treinos “para puxar pelos outros”.

O legado de Goethals está muito ligado à armadilha do fora de jogo, à defesa em linha e até ao pressing. Mas não era fã do futebol de toque, gostava da urgência. “Ele era muito pragmático, muito adaptativo”, resume Machado, lembrando que, apesar do 9.º lugar, estava ali a semente de um projeto importante com jovens jogadores e outros que chegaram de clubes secundários, depois do tal episódio no Luxemburgo. O Vitória ficou em 4.º e 3.º lugares nas épocas seguintes, com António Morais e Marinho Peres no banco, respetivamente.

“Era muito, muito, muito acima da média”, desenvolve Laureta, que depois até foi para o FC Porto ser campeão europeu. “Estava sempre a falar com os jogadores nos estágios, nos treinos. Era como um pai. Tenho grandes saudades desse grande homem e grande treinador. Ele gostava de quanto mais depressa chegássemos à baliza melhor. Foi uma lufada de ar fresco. A seguir ao [José Maria] Pedroto, foi o Goethals que mais me impressionou. Eram muito parecidos. Ele tinha muita confiança em mim. Tinha uma perceção do jogo, antecipava as coisas que iam acontecer. Nunca vi aquele homem a falar de outra coisa que não fosse futebol.”

Laureta, equipado à Vitória

Laureta, equipado à Vitória

D.R

E, para validar o encanto que é óbvio, acrescenta: “Na altura, comprava a revista francesa ‘Onze’ todos os meses, sonhava em ser como esses craques que apareciam lá. E apareciam fotografias do Goethals, eu lia as coisas e pensava: ‘Gostaria de um dia ter um treinador como este’”.

"Era uma personagem típica do futebol belga"

Miguel Pereira, autor do livro “Sueños de la Euro”, vai contando de cabeça todas as fases da carreira deste treinador, que nos capítulos finais da mesma até consegue, depois de subir e descer na estrutura do clube algumas vezes, levar o Marselha à conquista da Liga dos Campeões, em 1993 (com Abedi Pelé, Alen Bokšić e Rudi Völler na frente), após ter perdido a final dois anos antes. É o único clube francês a consegui-lo, mas também esse feito ficou manchado por corrupção interna.

“Era conhecido como Raymond La Science porque era um desses estudiosos. Foi um jogador praticamente anónimo. Como treinador, levou de forma surpreendente o Sint-Truiden ao segundo lugar do campeonato belga. Isso chamou a atenção do selecionador da Bélgica, [Constant] Vanden Stock, que o convidou para adjunto. Trabalhou dois anos para ele e, quando este se retirou, ficou como selecionador. Contra todos os prognósticos, conseguiu classificar a Bélgica para o Mundial de 1970”, contextualiza.

Goethals levanta o troféu da Liga dos Campeões, em 1993

Goethals levanta o troféu da Liga dos Campeões, em 1993

Christian Liewig - Corbis

A sua Bélgica era, segundo o autor, muito defensiva e apoiava-se sobretudo no talento de Paul Van Himst - “os belgas diziam que era o Pelé branco, era bastante bom, mas não era para tanto”.

Pereira lembra como, no apuramento para o Campeonato do Mundo de 1974, esteve quase a eliminar a Holanda de Johan Cruijff, Rob Rensenbrink e companhia quando o árbitro assinalou um fora de jogo equivocado num golo tardio dos belgas. “Estavam uns três a meter em jogo. É um desses lances da história do futebol. Dizia-se na altura que não se podia deixar que o Cruijff não fosse ao Mundial. O Ajax era tricampeão europeu já”. Goethals falharia também o apuramento para o Euro 1976.

E, afinal, quem era este homem? “Era uma personagem típica do futebol belga. Era um futebol muito defensivo, partia de uma defesa muito sólida, a equipa era construída de trás para a frente. Se havia talento, havia liberdade para o talento. Era um treinador da velha escola, insultava jogadores, trocava os nomes dos jogadores, era agressivo com a imprensa, era extremamente teimoso, não gostava propriamente de futebol-espectáculo, era um homem de resultados, mas, se tinha jogadores de talento, montava uma equipa que fosse sólida para eles brilharem. Foi isso que fez com a Bélgica em 1972, foi o que fez com o Anderlecht, em 1976 e 1977, com o Rensenbrink. E também com o Standard, em 1982, e depois com aquele Marselha.”

Goethals no Anderlecht

Goethals no Anderlecht

STR

Antes de passar pelo Bordéus e Marselha, Goethals fez história no Anderlecht, com as conquistas da Taça das Taças (vs. Áustria Viena, 1978) e de duas Supertaças Europeias (Bayern Munique em 1976 e Liverpool em 1978). Depois de três ligas belgas, quatro taças e outras duas ligas francesas, seria ali, num regresso ao clube de Bruxelas, que terminaria a carreira, em 1994.

"Teve a preocupação de me ensinar"

Laureta, um ala que até chegou a ser segundo avançado para “andar a correr atrás deles”, não tem uma palavra negativa sobre o homem com fama difícil. “Foi das pessoas que mais me marcaram. Foi um ano muito bom para mim, um ano de crescimento, aprendi muito com ele, eu era jovem. Ele trabalhava bem em todos os aspetos, até no físico. Revolucionou o futebol no Vitória num ano muito difícil."

E o cigarro? 🚬

Uff, sempre de cigarro na boca. Ele conversava com uma facilidade terrível como se não fosse nada, com o cigarro sempre no canto da boca e falava, berrava, discutia e o cigarro sempre no canto da boca. Não há outra imagem a não ser Raymond Goethals com aquela popazinha, o olho azul e o cigarro no canto da boca, a falar, a falar, a falar, futebol, futebol, futebol. Era fabuloso. Tinha uma forma de espicaçar os jogadores que não estávamos habituados, estávamos habituados aos berros, ao filha da mãe, ao filha do pai. Com ele não, tinha outra forma de incentivar os jogadores.”

O facto de ter sido guarda-redes não o fez ter especial atenção àquela posição. “O Neno tinha chegado naquela época, emprestado pelo Benfica, até porque tinha sido colocado no serviço militar em Braga”, conta Manuel Machado. “Era muito jovem, estava a chegar, mas acabou por ganhar a titularidade, um bocadinho com base no que é o futebol do norte da Europa, em que a robustez física, a envergadura e a altura contam. O [António] Jesus era um guarda-redes redes de pequena estatura e o Goethals acabou por ir ao encontro do que era o seu contexto, era o conforto de olhar para uma baliza e ver um homem grande.” Neno confirmou, em junho, esta versão à Tribuna Expresso.

O ex-adjunto não tem pejo em dizer que Raymond Goethals é a sua grande referência. Depois de deixar o andebol de lado e de aprender as primeiras coisas sobre o jogo no futebol na formação com Emídio Magalhães e José Pereira, a “aprendizagem mais elaborada” deu-se com o ex-selecionador belga. Laureta diz até que Manuel Machado “bebeu muito de água muito pura”.

Manuel Machado confirma: “Ele percebeu a minha ignorância e ingenuidade relativamente ao conhecimento da modalidade e teve a preocupação de me ensinar. Lembro-me de, a poucas semanas do fim da época, dizer-me para fazer uma listagem com tudo o que eu tinha dúvidas, para nos sentarmos e deixar-me a informação ou conhecimento. E assim foi. Teve essa preocupação de me ensinar, é uma pessoa que estará sempre na minha memória, com esse grande sentido de gratidão. É a minha grande referência”.

Em Portugal, também não teve vida fácil. A federação não passou a licença e Goethals orientou o Vitória a partir da bancada, com Djunga e Manuel Machado no banco. Sem mensagens ou telefones como hoje, eram como pombos-correios, recorda o ex-adjunto.