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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Os amores de Sommer não duram para sempre

Tem olhar meigo, feições calmas e ficou com o recorde de defesas feitas num só jogo deste Europeu. O guarda-redes Yann Sommer aguentou os suíços por mais um prolongamento e até aos penáltis, onde falharam três contra os dois da Espanha que, nove anos depois, está de volta às meias-finais da competição

Diogo Pombo

KIRILL KUDRYAVTSEV/Getty

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O que é o pedaço do corpo armado em bombeiro de Zakaria, a tentar socorrer o que descortina ser um perigo redondo e alarmante disparado na direção da baliza da Suíça, que tão à-queima reage que acaba por agir tarde, sem tino, e dar o rechaço à bola que a desvia para dentro da baliza?

Entre a corda bamba da sorte e do azar estará algures a tristeza do defesa suíço, urgente na área a reagir à ressaca de um canto, e a alegria de Jordi Alba, o espanhol que remata essa sobra e o 1-0 surge por graça da arte do ricochetear. E o que isto é, sem dúvida, andará perto da qualidade do que é fadário.

O que conforta os espanhóis tão cedo (8') no jogo é um auto-golo, mais um, é o terceiro de que beneficia a equipa e o décimo que ocorre neste Europeu e o que será então isto? É a sorte a bafejá-los? É a coincidência dos ressaltos a coincidir mais vezes na vida eles?

Inclinemo-nos para hipótese viável, a segunda, a Espanha nisto é como outra seleção qualquer, mas, contra os suíços, continua a fazer o que a distingue das outras seleções, abusa e troca e passa a bola entre os seus jogadores com fidelidade a um jogo de posse, feito o mais perto possível da baliza do adversário para, quando a bola se perde, o obrigar a ter quase todo um campo para percorrer.

Fazem-no, de novo, nestes quartos-de-final, se bem que fora o golo às duas pancadas e um cabeceamento de Azpilicueta, num canto (23'), nada mais fabricam até ao intervalo com incomparavelmente superior companhia da bola de que gozam em relação aos suíços. Mas, sem Xhaka, com quem poderiam discutir mais a posse, e sem Embolo, lesionado ao fim de 23 minutos e a principal seta que teriam em transições rápidas, pouco chegam perto da baliza.

A tanta parra dos espanhóis com bola prosseguiu, abusadores de uma posse mais pela posse, foi sendo cada vez menos uva, a Espanha dos inícios da década anterior a espernear dentro da sua sepultura e só num livre laboratorialmente planeado é que Ferrán Torres ameaçaria (56'), entre duas oportunidades flagrantes dos suíços - a cabeça de Zakaria quase vingou o ricochete e Zeuber, senhor assistências (quatro) do Europeu, por pouco não gracejou com sua sorte.

E será nisso, afinal, onde cabe um ressalto? Ou também a bola que Laporte cortou com o corpo e foi contra o de Pau Torres para ficar à frente de Freuler, na área, é coincidência das leis gravíticas? A inconclusiva resposta é que a errância dessas bolas deu o empate (68') à Suíça, marcado pelo capitão Shaqiri.

Desconhece-se, também, o que terá pesado no árbitro que tirou um cartão vermelho do bolso de peito para mostrar (77') a Freuler, quando o suíço se rasteirou para tirar a bola a Gerard Moreno, não sabe, mas até Cesc Fàbregas, quem muito viveu nos tempos vivaços de uma Espanha já enterrada, agradeceu do conforto das redes sociais ao homem do apito.

MAXIM SHEMETOV/Getty

A Suíça condenada ficou a sofrer um tipo de sofrimento muito corredor atrás da bola, qualquer posse vira menos inócua se menor for o número de corpos que tem de ultrapassar, mas os 10 resistentes aguentaram para forçarem um segundo prolongamento seguido para ambas as seleções. E, aí sim, sofreram.

Os 30 minutos adicionais foram um prejuízo acrescentado para os suíços, que bateram em retirada para a sua área, recuaram as linhas e concederam, de vez, a iniciativa aos espanhóis, a quem o cansaço e a rapidez eram forças opostas e nem sempre deixaram circular rápido a bola que já lhes propriedade quase exclusiva.

Com menor ou maior ritmo imposto na circulação, no ter gente a atacar a profundidade enquanto outros se davam ao passe no pé, a Espanha carregou e, depois de Gerard Moreno não acertar na baliza estando a um metro dela, deu-se um festival de remates no alvo retangular - evitando todos os corpos menos o último que sobrava diante dele.

O dono de feições serenas, olhar meigo e apelido veraneante teve as mãos no meio de todas as tentativas que os espanhóis foram capazes de inventar. Avesso a acrobacias e do tira-o-pé-do-chão para pular à relva uma vez feita a parada, Yann Sommer parou remates aos 96', 101', 103', 105', 118', enfim, já terão percebido a ideia, o guarda-redes suíço acabaria com 10 defesas feitas, um recorde no Europeu.

E o que são, agora, uns penáltis que aparecem para desempatar tudo no final de 120 minutos de jogo? Esta é uma questão respondível, porque são algo à parte e um novo jogo que começa.

Neste tão peculiar, Sommer ainda parou uma bola de Rodri e viu outra bater no poste, os espanhóis falharam duas tentativas, só que os suíços falhariam três, a último de Rúben Vargas, por essa altura o mais novo em campo e o miúdo que nem na baliza acertou. Quando os espanhóis rejubilaram, ele desmanchou-se em lágrimas.

Não chegou à Suíça ter um verão irradiante na baliza que os fez sobreviver até onde pôde, até onde nunca tinha ido, até ao único ponto em que a Espanha logrou fugir para as meias-finais de um Europeu, nove anos volvidos. Os espanhóis não são como eram dessa última vez, os suíços foram como jamais tinham sido.