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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

A "memória de peixe" e a virtude do esquecimento: mais uma aula de Luis Enrique

Quando Unai Simón errou contra a Croácia, nada mudou no jogo espanhol, nem na cabeça do guarda-redes, aparentemente. Não se deixou contaminar por aquele débil gesto técnico. Luis Enrique, citando Rafael Nadal, explicou uma das grandes ferramentas no desporto: o esquecimento

Hugo Tavares da Silva

Anadolu Agency

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Jogar futebol não é como trabalhar numa fábrica, o lado mental e a confiança são decisivos, mas há tantas ações repetidas que às vezes os futebolistas podem sentir-se protagonistas de um imenso loop eterno, tal como no filme “Groundhog Day”. Isso acontece sobretudo quando um jogo está domesticado pelas organizações e pelo rigor, pelos que tocam a bola à procura de um espaço e pelos que correm atrás dela como se tivesse um perfume maravilhoso. É um jogo de paciência.

Essa repetição também acontece quando há uma pressão alta de uma equipa e a outra usa o homem extra para ter superioridade naquela zona do terreno, neste caso os guarda-redes, os últimos a receberem o convite para a festa do futebol jogado com os pés. E estes repetem imensos gestos técnicos, como receções, passes curtos e bolas longas. Ocasionalmente, dá-se o azar ou o excesso de confiança. Foi o que aconteceu, seja o que for, a Unai Simón contra a Croácia, quando não conseguiu dominar uma bola que era inocente no início do trajeto e que se corrompeu pelo caminho.

Simón já parou aquela bola, que era imprudente, muitas vezes. E repetiu o gesto tantas e tantas outras vezes, nos treinos e nos jogos. É a vida desta gente, há muita repetição, até nas preparações das saídas de bola, na compreensão das vantagens e superioridades numéricas. Mas o erro, claro, está sempre na esquina, prontinho para falar ao mundo do que pode fazer.

E Unai errou.

Os jogadores espanhóis, apesar de terem tremido nos momentos a seguir, não deixaram de contar com o guarda-redes e o plano manteve-se. O pé não tremeu e o portero acabou por encher a baliza, foi decisivo com duas enormes defesas, uma exibição que repetiu no jogo contra a Suíça, nos ‘quartos’, decidido nas grandes penalidades. Simón foi protagonista, esquecendo o erro e lembrando certamente a confiança do seu treinador.

“Não há que martirizar ou flagelar, é ao contrário”, ia explicando Luis Enrique na sala da conferência de imprensa na véspera do jogo com os helvéticos. "Não há que olhar a jogada 25 vezes, temo-la todos na mente, o que é importante não é o erro, é o que se faz depois dele e ele fê-lo de maneira perfeita.”

O selecionador espanhol resgatou então a sabedoria de Rafael Nadal, um tenista que dá bom nome ao desporto, e explicou a glória que há no esquecimento durante um jogo, anulando assim a desconfiança que resulta de uma ação errada ou de um erro. “Uma vez, ouvi o Rafa Nadal dizer que tem memória de peixe. O que lhe interessa é a bola a seguir, a que atirou para fora já não traz nada. No futebol também funciona. Há que refletir depois do jogo, ver no que te equivocaste.”

Diego Latorre, um avançado que passou pelo Boca Juniors e Fiorentina, já havia mencionado esta virtude do esquecimento numa entrevista à Tribuna Expresso, quando recordava Gabriel Batistuta: "Para ele não existia a jogada anterior. Ele podia falhar um golo ou fazer um golo e não mudava, continuava ligado, conectado com o jogo que tinha de jogar. Era muito perseverante: se tinha que ir 100 vezes, ele ia 100 vezes. Teve isso desde miúdo".

Depois, dando um parecer técnico ainda mais rico, Luis Enrique explicou então como vê realmente a questão. “Aos erros diferencio-os entre erros de conceito, que são os perigosos e que deves mudar, pois se continuas a equivocar-te no conceito não vais encontrar a solução, e os erros de execução. Os de execução - controlar mal, tocar mal ou não meter bem o pé - têm solução fácil. Os que me preocupam são os de conceito. O [erro] de Unai não foi de conceito, foi simplesmente de execução. Memória de peixe e o que mostrou depois desse erro é o que lhe exigimos e ao nosso guarda-redes na seleção: gerar superioridade, que esteja lá nos momentos difíceis do jogo, que domine o jogo aéreo, que faça cobertura à linha defensiva, pois defendemos muito longe da área. Foi isso que fez o jogo todo.”

Há palavras e expressões que têm má fama, mas que, como quase tudo no mundo, podem ser salvas por alguém suficientemente generoso. A linguagem é assim, rica e bela, tal como uma bola de futebol, caprichosa e mais obediente a uns do que a outros. A “memória de peixe”, uma frase usada como arma de arremesso para acusar alguém de mentir, é afinal uma das melhores ferramentas no repertório de um desportista.