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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

O vento está a favor e esta gente quer mais: Inglaterra está na semi-final 25 anos depois

Equipa de Gareth Southgate ainda não sofreu golos no torneio, algo que, após cinco ou mais jogos consecutivos em fases finais, só foi feito por Itália (1990) e Espanha (2012). Ingleses marcaram cedo, fizeram dois golos de bola parada, foram uma equipa com maturidade e engoliram a Ucrânia (4-0), que não teve frescura nem ideias. Inglaterra não ia a uma meia-final de um Europeu desde 1996

Hugo Tavares da Silva

Ettore Ferrari - Pool

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Quando Gareth Southgate disse, a seguir ao jogo com a Alemanha, com um ar de quem perdeu, que acabara de ver David Seaman no ecrã gigante e que não podia mudar o que aconteceu em 1996, sentiu-se que estava ali um homem com uma missão. Não que ele precise, afinal é profissional, mas o futebol vive de histórias, de sorte e azar, de glórias e desilusões, ó as amargas desilusões que levam a um quase inevitável acertar de contas no futuro. Southgate falhou o penálti contra a Alemanha, nas meias-finais do Euro 1996, e em vez do “football´s coming home”, foi a seleção inglesa que foi para casa. Os ingleses não jogavam uma meia-final deste torneio desde 1968.

O plano está definido, e não há pressão nem agonias que façam o selecionador encher o 11 com demasiados jogadores criativos como as gentes querem, para os lamberem com os olhos. Desta vez, já depois de assinar pelo Manchester United, Jadon Sancho até foi titular, mas Jack Grealish, por exemplo, nunca sairia do banco. Southgate, que desfez os três centrais e recuperou a defesa a quatro, é certamente um homem muito contente, pois a espinha dorsal da equipa está bem, acertada e competente: John Stones, Harry Maguire, Kalvin Phillips, Declan Rice e Harry Kane, que esta noite fez mais dois golos e piscou o olho ao hat-trick, com um remate maravilhoso com a canhota.

Do lado ucraniano, que nunca chegara a esta fase da competição, Zinchenko voltou ao meio-campo, deixando a ala esquerda para Mykolenko. Shaparenko, o jovem mago do Dynamo Kiev, jogou a interior-direito. Na frente estavam os muitíssimo bons futebolistas Yarmolenko e Yaremchuk. O último jogo foi exigente e as pernas pareceram miar, e aconteceu o pior que pode acontecer a quem não está fresco: sofrer cedo. E, já se sabe, não há melhor preparador físico do que um golo... o contrário, sofrendo, também é verdade.

A Inglaterra marcou logo aos 4’, depois de Shaparenko não ter pedalada para acompanhar Sterling, que insiste e insiste e que vai continuar a insistir. O nº 10 descobriu Kane na área, aproveitando um espaço no meio da defesa de três. O avançado do Tottenham desviou de Georgiy Bushchan, 1-0.

A Ucrânia até tocou mais na bola a seguir à desilusão, mas foi sempre meio consentido, era uma posse de bola pouco venenosa, é mais defensiva, no meio-campo próprio. Do outro lado, sempre bem organizados, iam-se vendo algumas movimentações interessantes, como Luke Shaw por dentro e Sterling a receber na linha, ou Sancho por Mason Mount.

Yaremchuk aproveitou, aos 17’, um erro de Kyle Walker e arrancou em direção a Jordan Pickford, que defendeu sem grandes problemas o remate com o pé esquerdo do avançado. Seria talvez a jogada mais perigosa dos ucranianos, o que não fala muito bem da criatividade e da competitividade da equipa. Os que imaginam mais coisas, Zinchenko e Shaparenko, iam-se desgastando muito a fechar por dentro e depois a cair nos laterais ingleses. Apesar disso, terminaram a primeira parte bem, com alguns passes cheios de boas intenções perto de Pickford.

Lars Baron

Se a Inglaterra fosse um homem, olhando para trás, era alguém azarado, com uma vida terrível, a quem corre tudo sempre mal, sem amigos, com dificuldade para pagar as contas, enfim. Mas a sorte mudou, de repente o sol brilha, a lotaria pingou, o carteiro já sorri, o senhor do talho dá umas abébias no recibo. O vento mudou, não é só no estilo de jogo, na maturidade, é também nos timings que as coisas acontecem. E foi isso que se viu logo no arranque da segunda parte, com um golo de canto: marcou Maguire, de cabeça.

Ou seja, à equipa organizada, competitiva e adulta, juntam-se agora golos em momentos chave. A ansiedade não intoxica a mente destes rapazes, estão num momento muito interessante, muito longe de deslumbrarem ou de terem essa intenção. Cinco minutos depois, aos 50’, foi a vez de Kane bisar: combinação na esquerda, bolinha de Luke Shaw para a área e cabeçada do capitão, 3-0. Shaw, um daqueles futebolistas mal-amados mas que vai fazendo uma época tremenda, já soma três assistências.

O descalabro defensivo da Ucrânia era também mental e físico, notava-se perfeitamente. O sonho desfez-se logos aos 4’, as pernas cantam logo de outra maneira. Nunca se encontraram.

A pouco menos de meia hora do fim, foi a vez de Jordan Henderson se estrear a marcar pela seleção inglesa, com mais um golo de canto. Era nesta altura uma Ucrânia sofrível, pouco competitiva. Gareth Southgate começou a poupar os seus atletas e meteu alguns jogadores que estavam no banco lá dentro, não arriscando perder por castigo homens como Rice e Phillips, por exemplo.

Tirando algumas investidas dos ucranianos, já salpicadas pelo descomprimir britânico, foi Pickford, com duas roscas, que trouxe alguma emoção ao jogo. O acidente não ocorreu e assim não se perde um dado que é como um tesouro: a Inglaterra ainda não sofreu qualquer golo no torneio.

Segundo o Playmaker, do Zerozero, as únicas seleções que estiveram cinco ou mais jogos consecutivos sem sofrer golos em fases finais foram Itália (1990, 3.º lugar), Espanha (2012, campeã europeia) e agora a Inglaterra. Southgate ainda sabe uma coisa ou duas sobre o ofício que desempenhava enquanto futebolista: defender bem também é uma rota para a felicidade.

A Inglaterra está na semi-final de um Campeonato da Europa 25 anos depois. Desta vez não terá o carrasco do costume pela frente, a Alemanha, mas sim a bela e dinâmica Dinamarca, que este sábado eliminou a República Checa (2-1), em Baku. As meias-finais estão agendadas para 6 e 7 de julho.