Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

"Otto Rehhagel transformou um grupo de amadores numa equipa profissional": uma viagem à final do Euro 2004. Foi há 17 anos

Vasilis Sambrakos, um jornalista grego que escreveu o livro "O Milagre" sobre a seleção grega em 2004, esteve à conversa com a Tribuna Expresso sobre esse torneio. Do sentimento pífio dos gregos em relação à seleção, passando pelas palavras de Cristiano afixadas no balneário e às mudanças de Rehhagel, o milagre até deu muito trabalho

Hugo Tavares da Silva

Icon Sport

Partilhar

E aqui estamos nós, campeões europeus. Quem diria, certo? Há exatamente 17 anos, depois daquele golo de Charisteas parecia algo inalcançável, pois os grandes são grandes porque não deixam os outros descobrirem a labiríntica rota da alegria muitas vezes.

Deve ter variado pouco de casa para casa. As comidas todas em cima da mesa, as garrafas que chocam e regam a felicidade, os melhores sorrisos vestidos, os grupos que se sentiam invencíveis. A despreocupação. A única dor de cabeça era saber onde seria a festa. Era inevitável, não era? Portugal não ia perder duas vezes com a Grécia, já bastava aquela estreia hedionda, no Dragão. Bom, ainda por cima com aquele espetáculo de gente, de homens e cavalos e barcos e carros, e tudo o que mexia, a engolir o autocarro da seleção.

Enfim, só faltava jogar.

E 90 minutos depois do primeiro apito árbitro, fomos todos as lágrimas de Cristiano Ronaldo e Rui Costa. O mundo desabou, o silêncio magoava como socos na garganta. O futebol que ia premiar a rapaziada que tinha jogado como os deuses em 2000, com um miúdo fora de série a aparecer, com uma senhora equipa campeã europeia como esqueleto, fez o que faz tanta vez: olvidou o guião e deu a taça aos que estavam esquecidos, quais fantoches úteis da glória alheia.

Icon Sport

“É sempre um prazer para mim falar sobre essa equipa. Eu sei que não é, como hei de dizer, agradável para ti [risos], mas ganharam depois, por isso está tudo bem”, é a primeira coisa que diz ao telefone Vasilis Sambrakos, um jornalista grego que escreveu o livro “O milagre”. Sim, é sobre a seleção helénica de 2004.

Depois de uma troca de risos como quem troca galhardetes antes de um jogo, garantindo que as feridas estão saradas, Sambrakos disse imediatamente uma coisa curiosa: “Eu estava lá na final. Lembro-me sempre do comportamento dos portugueses depois da final. Nós nunca suportaríamos a mesma situação aqui. Toda a gente foi muito educada connosco. Todos os gregos que estiveram em Portugal nesses dias dizem coisas boas. Nós não suportamos perder e não aplaudimos o adversário”, diz, gargalhando.

A pergunta era inevitável: então, foi um milagre? “Sim, sim, foi. Agora vemos as coisas com mais clareza, já analisamos melhor o sucesso. É tarde, mas nunca é tarde para pensar no que fizeste para aprender algo. Foi um milagre, mas toda a equipa trabalhou muito para criar essa sorte que tiveram durante o torneio.”

Icon Sport

Vasilis Sambrakos conhecia a maioria dos jogadores há algum tempo. Já era repórter da seleção desde 1999, seguia-os por todo o lado, até para o estrangeiro. Era próximo dos jogadores, falava bastante com eles. É curioso que alguém que esteve dentro da bolha dos trabalhos da seleção nacional conta agora, à distância, que não compreendia tudo o que acontecia por ali, nomeadamente o dedo do selecionador.

“Quando comecei a procurar informação para o livro, tive a sorte de ficar a respeitar muito, muito mais Otto Rehhagel. A sua liderança, o mindset, a forma como trabalhava para mudar a mentalidade, todas as pequenas sociedades que criou. Foi o homem que transformou um grupo de amadores numa equipa profissional. Antes de ele chegar, a seleção era muito pobre na mentalidade. Não eram profissionais como nos clubes, quando iam à seleção iam viajar, desfrutar, divertir-se. Ele mudou tudo. Fê-lo passo a passo, quase sozinho, só tinha um adjunto e um individuo que ajudava a equipa. Ele fez com que os jogadores sentissem a equipa”, conta.

Já o estilo de jogo, recorda Vasilis, era um e só um, “mas jogavam-no muito bem". Isto é, “era uma equipa que tentava fechar os espaços, tentando proteger o seu meio-campo, estavam sempre prontos para atacar e para serem eficazes. Não foi um acaso”, alerta.

Vasilis Sambrakos, o repórter enviado por um jornal que estava a cortar orçamento, só tinha estadia para a fase de grupos, ou seja, achavam impossível passar aquela montanha que a sorte ditou com Portugal, Espanha e Rússia. Por isso, depois de garantido o apuramento, pagou do seu bolso para ver o jogo contra a França, nos quartos-de-final. E prometeu a si próprio: “Se forem à final, tenho de estar lá. Voltei a Lisboa para a final”.

Sambrakos lembra-se bem do famoso trajeto do autocarro antes da final. “Foi o que aconteceu, em Atenas, no dia seguinte, quando os jogadores voltaram. Exatamente o mesmo, desde o aeroporto até ao estádio do Panathinaikos. Foi o mesmo… mas depois da final [risos]. Foi a diferença”, a boa disposição era contagiante, mesmo com essas navalhadas na alma.

Otto Rehhagel

Otto Rehhagel

Icon Sport

Este homem diz que chorou no Estádio da Luz, ainda antes da final começar. “Eles eram da minha geração, conhecia-os desde miúdos, há mais de 10 anos, alguns até crescemos juntos. Não eram meus amigos, mas alguns dos meus amigos do futebol estava a jogar para ganhar o Europeu. Foi incrível, nunca poderia imaginar.”

De um lado, Ricardo, Miguel, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha, Deco, Maniche, Luís Figo, Cristiano Ronaldo e Pauleta. Do outro, Antonios Nikopolidis, Giourkas Seitaridis, Traianos Dellas, Mihalis Kapsis, Fyssas, Angelos Basinas, Kostas Katsouranis, Stelios Giannakopoulos, Theo Zagorakis, Angelos Charisteas e Zisis Vryzas.

Rehhagel, para espicaçar o orgulho dos jogadores, em particular de Seitaridis, então futuro reforço do FC Porto, pendurou nos balneários as declarações do jovem Cristiano Ronaldo, que admitiu não conhecer os jogadores gregos, conta o jornalista. “‘Podem acontecer duas coisas’, disse-lhe, ‘ou toda a Europa vai conhecer o homem que parou um jogador como Ronaldo ou toda a gente no mundo vai rir-se de ti’. O Rehhagel queria que os jogadores sentissem a responsabilidade. Agora, quando os jogadores se juntam e contam histórias, dizem sempre ao Seitaridis que o Cristiano já sabe o nome dele”, recorda. Entre risos, claro.

No fim de contas, quem sabe desorientados sem saberem a que porta bater no Olimpo, os portugueses caíram depois de um golo de Charisteas. E Sambrakos decidiu que tinha de escrever um livro.

Eric Renard

“Tinha de o escrever para os jovens aprenderem. Na Grécia, os jovens não sabem muito sobre a equipa, só veem umas coisas no YouTube. Não podem entender como aconteceu e porque temos de demonstrar respeito e apreciar o trajeto que fizeram. Subestimamos a seleção nacional, os gregos não adoram a seleção, eu era uma exceção em miúdo. Perguntava porque os estádios estavam vazios, porque os jornais não mostravam a seleção nas primeiras páginas. Só admiramos estrangeiros. Como nunca estamos em grandes torneios, aprendemos a apoiar os outros”, desabafa.

E, com muitos elogios pelo meio ao atual selecionador português que por lá passou muitos anos, lamenta: “Entre 2004 e 2014 podemos dizer que aprendemos a apoiar a seleção, mas depois, quando Fernando Santos saiu, a situação voltou ao que era antes de 2004. Agora, se a seleção tiver um jogo, ninguém quer saber. É muito triste”.

A Grécia não jogava um Europeu desde 1980, no qual se ficou pela fase de grupos. Em 2004 descobriu a que cheira a brisa do céu. Os gregos voltaram para os Europeus de 2008 e 2012, assim como jogaram os Campeonatos do Mundo de 2010 e 2014. Antes só haviam estado no Mundial dos Estados Unidos, em 1994.

Icon Sport

Num aparente exercício de autoflagelação, sai a pergunta sobre o estatuto de Charisteas aos olhos dos compatriotas. Há quase um desejo que, depois de provocar tamanha agonia, seja um imenso herói nacional, um deus, quem sabe.

“Embora as pessoas esqueçam muito rapidamente na Grécia, estes são os primeiros ex-jogadores que são amados e respeitados, especialmente o Zagorakis, capitão e melhor jogador do torneio, que agora é o novo presidente da federação de futebol grega. É o primeiro ex-jogador que chega a essa posição. Os jogadores desta seleção de 2004 têm feito muitos jogos para angariar dinheiro para solidariedade, desde 2012 até agora. Tentam fazer ações por boas causas”, revela, orgulhoso.

Os gregos, insistiu Sambrakos mais do que uma vez, esquecem muito rápido, olvidando até de glorificar futebolistas que fizeram o que parecia impossível. Talvez não esqueçam o que aconteceu naquele 4 de julho de 2004. Os portugueses nunca souberam esquecer, por isso o golo de Eder pareceu eterno, levitou de 2016 a 2004 numa velocidade supersónica, qual repositor de justiças e amores correspondidos.