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Euro 2020

Já não há heróis

Sem Portugal no palco das grandes decisões do Euro, por quem torcer agora? Bruno Vieira Amaral diz que a Dinamarca é "a equipa mais simpática das quatro que restam", mas ainda assim falta-lhe "o jogador capaz de nos atrair, aquele que nos obrigue a vestir de boa vontade a camisola de outro país"

Bruno Vieira Amaral

Dean Mouhtaropoulos/Getty

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Ontem falei das equipas que restam e que jogam como equipas. O que é bom. Mas depois bate aquela saudade do jogador-íman, do criativo, do carismático, do herói, e Insigne não chega. Nem Sterling. Nem Pedri. Nem um qualquer coisa Gard ou Berg. A culpa é dos dinamarqueses. Esta é, pelo menos, a minha teoria.

Em 1992, chegaram ao Europeu – e para a rapaziada nova é bom dizer que o torneio contava com apenas oito equipas e, naquele ano, foi disputado na Suécia, em dois ou três estádios, incluindo um em Ullevi, se a memória não me falha, com capacidade para 17 mil espectadores e uma pista de tartan estilo Complexo Municipal de Vila Velha de Ródão – com a historieta de que estavam todos na praia – uma conversa que já era enjoativa na altura e que, quase trinta anos depois, não melhorou – e ganharam o campeonato mesmo sem levarem a maior estrela Michael Laudrup – devia estar noutra praia.

E as estrelas dos outros? Cantona não conseguiu levar a França às meias-finais. Van Basten não marcou um único golo. A Suécia tinha Tomas Brolin. O avançado marcou “o” golo daquela edição, mas Brolin era sueco e, antes de Deus-Ibrahimovic, todos os suecos tinham ar de quem devia estar no coro dos ABBA ou a pescar arenque no Mar do Norte. Sobrava Thomas Hässler, o mais latino dos jogadores alemães, para simplificar as coisas.

A habitual ausência de Portugal das grandes competições obrigava-nos a escolher a seleção pela qual iríamos torcer porque ver jogos da varanda da neutralidade era um exercício insuportável para as crianças que ainda éramos. Nos mundiais, era fácil. A maioria dos portugueses vestia a camisola do escrete. Eu e muitos outros da minha geração sofríamos pela Argentina de Maradona. Nos europeus não havia uma escolha óbvia. Em 1992, a Dinamarca atraiu os órfãos, os apátridas, os neutrais. Mas eu, que não me comovia com o conto de fadas, escolhi Hässler e, por extensão, a Alemanha.

Por razões muito diferentes, este ano a Dinamarca ficou sem o seu jogador mais emblemático e criativo e é, sem dúvida, a equipa mais simpática das quatro que restam. E o futebol que pratica, como disse ontem, é agradável. Ainda assim, falta um herói, o jogador capaz de nos atrair, aquele que nos obrigue a vestir de boa vontade a camisola de outro país. É triste chegar às meias-finais e não ver um Thomas Hässler para quem possamos transferir a energia do nosso patriotismo desencantado.