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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Foi a velha Itália que salvou a nova Itália

A nova romântica Itália, da variabilidade do ataque, do meio-campo que manda na bola, teve de voltar às catacumbas do seu ser para aguentar uma Espanha a jogar o seu melhor futebol neste Europeu. A fúria caiu nas grandes penalidades, no dia em que Itália foi a equipa mais cínica e pragmática em campo. Às vezes, é preciso fazer rewind para sobreviver. E chegar à final do Euro

Lídia Paralta Gomes

JUSTIN TALLIS/Getty

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Às vezes, é preciso ir lá atrás. É preciso fazer o rewind, remexer nos nossos instintos mais básicos para sobreviver. Sempre fizemos assim, mudámos, passámos a fazer de outra maneira. Mas a semente está lá, bem lá no fundo.

É possível que a Itália tenha sido obrigada a praticar este exercício de regressão quando ali algures na 1.ª parte da meia-final com a Espanha percebeu que esta terça-feira não era dia para ter bola. A bola que tão bem tem tratado, trocado, passado, chutado, mantido consigo ao contrário dos seus antepassados, mais confortáveis a jogar sem ela, a cheirá-la apenas e a tê-la em seu poder o estritamente necessário para matar. Todos nós gostamos mais desta Itália, das variações no ataque, da forma como controla o meio-campo, mas às vezes é preciso ir ao âmago para sair vivo, porque esta Espanha tomou para si a bola e não a largou mais.

E como tantas vezes em tempos inauditos, nesses primórdios em que se inventaram palavrões como catenaccio, foi a Itália que saiu a sorrir e que vai estar na final de domingo, no mesmo Wembley em que se jogou um grandes jogos deste Europeu, talvez de muitos Europeus. A velha Itália, pragmática, astuta, eficaz, foi o que valeu à nova Itália romântica, levada para o jogo decisivo depois de ser mais competente nas grandes penalidades, após o casmurro 1-1 com que terminaram os 90' e depois o prolongamento.

Shaun Botterill - UEFA

Num jogo entre duas equipas que queriam a bola, muito rapidamente se percebeu em que pés é que ela iria andar mais. A Itália entrou a pressionar, naquela sua pressão intensa mas inteligente que a galvaniza rapidamente para a frente, mas a Espanha conseguiu quase sempre encontrar caminhos para a ela fugir, com a sua equipa milimetricamente organizada e as surpresas no onze de Luis Enrique a parecerem acertadas.

Bem, mais uma que outra. Enquanto Dani Olmo foi sempre uma espécie de falso 9 ou falso 10, vindo tantas vezes cá atrás buscar jogo e dando a Espanha peso no meio-campo contra a fantástica linha média de Itália, Oyarzabal pareceu logo em dia não. Porque só estando em dia não é que não se aproveita aquela bola de Pedri (13'), um passe perfeito no timing e na execução, um passe que cria o espaço que a defesa de Itália não estava a dar e que desmarcou o avançado da Real Sociedad. A receção foi má e o lance perdeu-se.

O futebol enganosamente dolente de Espanha foi uma espécie de prisão para os cavalinhos rampantes italianos, perdidos a seguir com os olhos as bolas que os espanhóis iam trocando. Bola de pé para pé, a avançar no terreno. Ferran Torres e Dani Olmo iam criando perigo, a criatividade saía quase sempre das botas de Pedri, que ao longo de todo o jogo não deve ter errado mais que um, dois passes. E o ataque de Itália ficava logo ali, na primeira fase de construção.

Só nos minutos finais da 1.ª parte, quando Pedri (um gigante naquele corpo tão aparentemente frágil) passou a ter guarda-costas individuais para todo aquele talento, a Itália se conseguiu desamarrar de algumas das grilhetas, principalmente pela esquerda, de onde saiu o único lance de perigo, já aos 45', uma jogada entre Insigne e Emerson, com o italo-brasileiro a rematar ao ferro.

Ao intervalo, Roberto Mancini vestiu o clássico fato italiano, quase tão clássico como aquele que usa no banco, numa reminiscência nostálgica a Enzo Bearzot: acabou-se a pressão, com esta Espanha é para jogar em organização defensiva. Assim foi e a Itália passou a sofrer menos sem bola, mas ainda assim a sofrer.

FRANK AUGSTEIN

E como em todas as histórias que começam com "Itália a defender", a Itália acaba sempre a marcar. Aos 60', já depois de Ferran Torres e Sergio Busquets ficarem perto, a bola entrou do outro lado, numa transição rápida que começou nas mãos de Donnarumma.

Aproveitando o desequilíbrio na equipa espanhola, o gigante lançou rápido para o espaço que abundava na zona central, a bola foi com a mesma rapidez ter com Insigne à esquerda e já na área, depois de Immobile não conseguir rematar, apareceu Chiesa para um remate em arco que Unai Simón nem com braços elásticos conseguiria agarrar.

Típico italiano. Ou vá, típico da velha Itália.

É possível que não houvesse justiça no marcador e a Espanha fez desde logo por voltar a repor o equilíbrio do Mundo, com várias jogadas de perigo e mais um falhanço épico de Oyarzabal, que penteou uma bola que deveria ter sido bem atacada de cabeça, depois de um passe precioso de Koke.

Nisto, já Mancini tirava o seu lateral mais atacante (Emerson) para colocar um defesa mais posicional (Tolói) e quando Luis Enrique já se preparava para as substituições do desespero, quando Adama Traoré já se preparava para entrar e cavalgar por ali fora, naquelas correrias desenfreadas que não poucas vezes não dão em nada, eis que Espanha encontra o caminho do golo. O relógio marcava os 80' quando Laporte fez um passe vertical para Morata, que depois tabelou com Olmo para ir buscar a bola à área e concretizar.

Traoré ficou no banco e assim um dos grandes jogos deste Europeu preparava-se para nos dar mais 30 minutos de futebol.

JUSTIN TALLIS

O prolongamento explica-se em poucas palavras. Nos primeiros 15 minutos, bola praticamente sempre nos pés dos espanhóis, com os italianos a fazerem um pequeno ressurgimento na 2.ª parte, mas já demasiado estourados fisicamente para fazer a diferença. Entre as duas equipas, os transalpinos desejavam mais as grandes penalidades que os espanhóis.

Aí, voltou a ser Morata, o herói espanhol do tempo regular, a fazer mais uma daquelas idas ao inferno em que parece estar a ficar especialista. Falhou o quarto penálti espanhol, na resposta Jorginho fez a sua paradinha habitual, a bola foi devagarinho, como que por inércia, para dentro da baliza de Unai Simón e, no jogo em que mais sofreu, no jogo em que menos foi a nova Itália, no jogo em que foi obrigada a ir às catacumbas do seu ser, a squadra azzurra chegou à final.

Pelo que fez esta terça-feira, talvez não tenha sido assim tão merecido, mas no long run esta é uma final que os italianos fizeram por agarrar. Todas os campeões, mesmo aqueles com o futebol mais positivo, foram obrigados uma vez ou outra a meter a faca entre os dentes e sobreviver. Já a Espanha cai no seu melhor jogo, quando pareceu finalmente conseguiu acertar todo aquele potencial que não apareceu no início do Europeu.

A bela Itália foi um pouco menos bela, mas ainda há um jogo. O mais importante deles todos.

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