Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

Itália-Espanha: duelo entre nações aparentadas

A primeira meia-final do europeu põe à prova as seleções de dois países que já se dominaram reciprocamente. Se Roma ocupou a Península Ibérica há dois mil anos, há seis séculos era o Levante espanhol que dominava as ilhas hoje italianas do Mediterrâneo e todo o sul do país. Mas Espanha chegou a eleger (!) um rei nado e criado em Itália e, mais recentemente, o fascismo transalpino foi fonte de inspiração para a ditadura de Franco

Pedro Cordeiro

O italiano Marco Tardelli e o espanhol Migueli disputam a bola num jogo do Europeu de 1980, em Milão

Gerard Bedeau/Onze/Icon Sport/Getty

Partilhar

O encontro está marcado para a capital de Inglaterra, mas desta vez (para já!) não é perante o inimigo figadal de sempre que Espanha terá de mostrar o que vale. A “pérfida Albion” — que venceu a Armada Invencível dos Filipes, partida de Lisboa em 1588 para invadir as ilhas britânicas, e que de novo humilhou os espanhóis em 1805, ao largo do cabo Trafalgar — serve apenas de anfitriã, terça-feira às 20h, no estádio de Wembley, à primeira meia-final do Europeu de futebol.

“La Roja” estará de um lado, do outro perfilar-se-á a “Squadra Azzurra”. A mistura das duas dá roxo, esperando-se que nenhum atleta volte a casa com um olho dessa cor. Como o autor destas linhas sabe pouco de bola, olhemos antes para a História.

Nove dias depois de decidirem qual das duas irá à final, Espanha e Itália celebram 156 anos de relações diplomáticas: foi a 15 de julho de 1865 que Madrid reconheceu o novel reino da Itália unificada. Estamos, em todo o caso, a falar dos estados modernos com estes nomes, democracias aliadas e membros da União Europeia e da NATO. O entrelaçar dos seus destinos é bem mais antigo, remontando pelo menos ao ano 218 a.C., quando os romanos ocuparam a Península Ibérica, desde então Hispânia, que incluía o que é hoje Portugal. O domínio imperial duraria seis séculos.

Um reino de muitos reinos

Já na nossa era, partes dos atuais Reino de Espanha e República de Itália estiveram sob o mesmo monarca. Do tempo dos almograves no século XII ao dos Borbón no XVIII, o Mediterrâneo Ocidental foi dominado pela coroa de Aragão, reino composto de reinos que abarcou, na sua extensão máxima, as atuais regiões espanholas de Aragão, Catalunha, Valência e Baleares, precedente invocado pelos independentistas catalães mais radicais; a faixa occitana do sul de França; as ilhas mediterrânicas Córsega (francesa), Sicília e Sardenha (italianas) e outras mais pequenas, a metade sul da “bota” italiana, Malta e franjas da Grécia.

Em 1282 o rei Pedro III de Aragão invadiu a Sicília — a que a sua mulher, Constança, tinha pretensões dinásticas ­— a convite de nobres locais revoltados contra a dinastia angevina (francesa). Foi a guerra das Vésperas, que valeu a excomunhão do aragonês pelo papa Martim IV. Só passados 15 anos o Vaticano, já sob Bonifácio VIII, tentaria compensar Aragão entregando-lhe Córsega e Sardenha. A Sicília haveria de voltar ao redil, consolidando-se a anexação através de novo casamento, o de Pedro IV de Aragão com Maria da Sicília, em 1381. No século seguinte, seria a vez de Nápoles.

Da união matrimonial do rei Fernando II de Aragão com Isabel I de Castela nasceu Espanha, que, portanto, dominou durante séculos os territórios italianos da coroa aragonesa. As instituições desta última viriam a ser dissolvidas em 1716, após derrota na Guerra de Sucessão espanhola. Filipe V de Espanha, o primeiro Borbón no trono, cedeu os territórios hoje italianos ao império austríaco dos Habsburgo, ao abrigo do tratado de Rastatt, que selou a paz.

Na ilha de Ísquia, ao largo de Nápoles, o Castelo Aragonês é testemunho da ligação histórica entre o reino espanhol de Aragão e o italiano das Duas Sicílias. Construído num rochedo antes da era cristã, foi o rei Afonso V de Aragão que o uniu à ilha com uma ponte de pedra

Na ilha de Ísquia, ao largo de Nápoles, o Castelo Aragonês é testemunho da ligação histórica entre o reino espanhol de Aragão e o italiano das Duas Sicílias. Construído num rochedo antes da era cristã, foi o rei Afonso V de Aragão que o uniu à ilha com uma ponte de pedra

ROLF COSAR

A fusão, no século XIX, dos reinos da Sicília e de Nápoles fez nascer o das Duas Sicílias, que já assim era chamado pelos aragoneses no período em que dominavam ambos. A coroa napolitana, mesmo quando separada da siciliana, nunca prescindira desse nome. Era o maior dos estados que Garibaldi viria a unificar na atual Itália e o escritor francês Stendhal chamou-lhe um dia, de visita, “uma monarquia absurda ao estilo de Filipe II”, isto é, de alguém que reinara quase três séculos antes (trata-se do rei Filipe I de Portugal, que uniu as coroas ibéricas). Já no nosso século, a cidade de Nápoles inspirou a tetralogia “A amiga genial”, de Elena Ferrante.

Amadeu, rei eleito e efémero

Madrid tardou em reconhecer o Reino de Itália e chamava a Vítor Emanuel II, seu primeiro monarca, o “rei sardo”, isto é, da Sardenha. Isabel II, então rainha de Espanha, fazia sua a objeção do papa Pio IX ao novo país. O primeiro-ministro Leopoldo O’Donnell teve dificuldade em vergar a rainha.

Esta viria a ser derrubada em 1868, após a morte do chefe do Governo, por uma revolução de liberais, moderados e até republicanos. Exilada a monarca em França, abdicou e não foi difícil ao novo poder espanhol adotar uma Constituição liberal. Punha-se, no entanto, a questão de quem deveria reinar. O movimento heteróclito que depusera Isabel não tinha uma cabeça óbvia com legitimidade para o trono, e proclamar a República parecia desavisado e pouco consensual. A ex-rainha tinha um filho, mas temia-se que se deixasse dominar pela mãe.

Chegou a pensar-se em Fernando de Saxe-Coburgo, viúvo na rainha D. Maria II de Portugal, que fora regente durante a menoridade do filho, D. Pedro V. A escolha recairia, por fim, sobre o príncipe italiano Amadeu de Saboia, filho mais novo de Vítor Emanuel de Itália, de pensamento liberal. Foi um rei eleito pelas Cortes espanholas, a 3 de novembro de 1870.

Moeda espanhola de cinco pesetas cunhada em 1871 com a efígie do rei Amadeu de Saboia

Moeda espanhola de cinco pesetas cunhada em 1871 com a efígie do rei Amadeu de Saboia

D.R.

Sem grande sorte, o monarca veria assassinado o seu principal apoiante, general Juan Prim, ainda antes da coroação. Acossado por republicanos, conservadores carlistas, independentistas em Cuba e outros quejandos, a que não ajudavam as divisões internas entre progressistas, Amadeu foi alvo de tentativa de assassínio a 18 de agosto de 1872, quando passeava de carruagem com a mulher, Maria Vitória, no Parque do Bom Retiro, em Madrid. Os tiros de revólver e espingarda não atingiram o casal, mas a impopularidade faria o rei abdicar no ano seguinte, declarando os seus súbditos “ingovernáveis”. Seguiram-se-lhe a primeira de duas repúblicas espanholas de triste fim e, posteriormente, a recuperação do filho de Isabel II como Afonso XII de Espanha.

Unidos na ditadura

Falar das relações entre Espanha e Itália requer, é claro, que se refira a proximidade dos seus regimes ditatoriais no século passado. O fascista italiano Benito Mussolini deu-se bem com a ditadura de Miguel Primo de Rivera nos anos 20 e, na sequência da segunda República, Itália envolveu-se na Guerra Civil espanhola do lado dos nacionalistas de Francisco Franco. O caudilho tinha no fascismo uma grande fonte de inspiração.

O Corpo de Tropas Voluntárias era uma força expedicionária italiana de 78 mil efetivos que combateu em locais tão diversos como Málaga, Santander ou Guadalajara. Também houve submarinos italianos em batalha naval contra os republicanos no Mediterrâneo e a ocupar as baleares, de onde lançaram ataques aéreos contra a Catalunha. A neutralidade espanhola na II Guerra Mundial (como a portuguesa, de resto) não apagou a proximidade com Mussolini e, após a derrota deste e do nipo-nazi-fascismo na II Guerra Mundial, o regime franquista duraria ainda três décadas, até à morte do Generalíssimo em 1975.

Os ditadores de Espanha, Francisco Franco (ao centro), e Itália, Benito Mussolini (à direita) na Villa Grimaldi, em Ventimiglia, a 13 de fevereiro de 1941

Os ditadores de Espanha, Francisco Franco (ao centro), e Itália, Benito Mussolini (à direita) na Villa Grimaldi, em Ventimiglia, a 13 de fevereiro de 1941

Mondadori Portfolio/Getty

Voltando ao futebol que aqui nos trouxe, Espanha e Itália contam 33 partidas oficiais entre seleções principais, na maioria amigáveis, desde 9 de março de 1924. Os hispânicos venceram 12 e os transalpinos 9, tendo os mais recentes desafios acontecido na qualificação para o Mundial de 2018: empate a uma bola em solo italiano; vitória dos espanhóis em casa por 3-0.

Têm sido frequentes os jogos entre ambas em Europeus. No último, em 2016, Espanha era campeã em título ­­— vencera a final de 2012 dando 4-0 a… Itália, após empate a um na fase de grupos — e foi eliminada pela Itália nos oitavos de final. No de 2008 foi ao contrário, nos quartos de final, desempatados a penáltis a favor dos vermelhos.