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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Mæhle e a doce recompensa da liberdade

O futebolista da Atalanta, de 24 anos, é destro e joga pela esquerda, num vaivém que já lhe garantiu dois golos e talvez a melhor assistência do torneio, a trivela contra a República Checa. Entre os jogadores ainda presentes no Euro 2020, ninguém completou mais dribles do que ele

Hugo Tavares da Silva

Eurasia Sport Images

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Os olhos preferem o horizonte lá adiante, onde o sol não se põe e a paciente glória descansa. As pernas, frescas como os lugares mais frios do planeta, obedecem à ousadia que se estica no pensamento. Os ensinamentos de bom futebol, resistência à pressão e fuga a ladrões de bolas começaram sobretudo em janeiro, em Bérgamo, nas aulas de Gian Piero Gasperini, o treinador da Atalanta.

Joakim Mæhle, de 24 anos, é uma das jóias da coroa dinamarquesa e tem sido um dos melhores futebolistas do Euro 2020. Basta ver os jogos e sentir essa influência do destro que joga pela esquerda, mas os números dizem o mesmo. E há um dado curioso: é o jogador ainda em atividade no torneio com mais dribles completos (22), um trono que divide com um companheiro de equipa, Martin Braithwaite, que é avançado. Acima deles, já eliminado, só há um (com menos um jogo portanto): Kylian Mbappé (26).

Talvez não seja um acaso que Kasper Hjulmand, um enamorado da Dinamarca dos anos 80, tenha três jogadores no top-6 dos mais dribladores do Europeu. Era uma das características da Danish Dynamite: dribles, liberdade e individualidade como ferramenta para resolver problemas. “Ele tem sido muito importante”, disse recentemente Mæhle sobre o selecionador. “Ele é bom a falar com os jogadores e dá essa liberdade que muitos jogadores precisam. É um bom treinador e agora um amigo também.”

É o dono do corredor esquerdo da equipa de Hjulmand, que joga com três centrais, e vai desfrutando de ter na vizinhança gente como Thomas Delaney, Mikkel Damsgaard, Kasper Dolberg e Braithwaite. É um sistema que o beneficia, claramente, pois tem carta branca para avançar, galgando metros como ele gosta, com aquela pedalada toda que mora nas entranhas do corpanzil com 1,85m. A técnica é como a sombra num dia de junho ao meio-dia: inseparável, jamais se evapora.

Por outro lado, para além da polivalência e de poder ser puxado para a direita (já aconteceu), é forte no 1x1 a defender e, sendo um quinto homem da defesa, tem menos raio de ação para cobrir, seja para tomar conta de um adversário, seja para cuidar das costas de um terceiro central, por isso mantém-se distante da baliza, num espaço mais limitado. Está confortável e pronto para olhar para a frente.

O mapa de ação de Joakim Mæhle no Euro 2020

O mapa de ação de Joakim Mæhle no Euro 2020

Sofascore

Mas há aqui um tema que tem sido alimentado entre amigos, jornalistas e treinadores, certamente.

Quais são as vantagens e desvantagens de um lateral jogar com o pé trocado? Está mais exposto? E com bola, ganha ou perde? “Um lateral que jogue com o pé contrário, se não perceber que espaços de progressão tem, tendencialmente vai jogar muito mais para trás do que para a frente”, resume o treinador João Nuno Fonseca. “Por outro lado, dentro das desvantagens, tens a questão de o adversário poder condicionar de fora para dentro, ou seja, em direção à própria baliza, o que vai expor muito mais a equipa, pois vai ter muito mais jogadores adversários a apanharem-no de frente e em contrapé.”

O contrário também pode acontecer, isto é, a pressão chegar de dentro para fora, provocando o encaminhamento da jogada para o pé mais fraco. Mas há vantagens. “Sendo um lateral que joga com o pé contrário e, entre aspas, fora de posição, acaba por estar mais ligado ao jogo, está mais alerta e vai pensar muito mais antes de executar. Depois, há outra questão que para mim é uma vantagem fantástica: a possibilidade de jogar a um toque no meio ou na frente. Se ele joga no lado direito, for pé esquerdo e receber uma bola do central-direito, pode facilmente metê-la em arco na frente, por dentro do bloco que está a defender. Isto permite-lhe jogar logo a um toque, de forma muito mais rápida”, explica, confirmando ainda que os cruzamentos de João Cancelo, por exemplo, quando na esquerda e puxando para dentro, são valiosos como ouro, pois “são precisos e vão na direção da baliza, o que é muito complicado defender”.

Mæhle, habilidoso e com um motor capaz de mudar de velocidade, começou os jogos sempre pela esquerda no 3-4-3 dinamarquês, à imagem de Leonardo Spinazzola, o italiano que se lesionou gravemente e que também era um destro a jogar pela esquerda (e que bem estava no Europeu). O ala da Dinamarca, que joga pela direita na Serie A, até já marcou dois golos neste Campeonato da Europa, a Gales e Rússia, o último aos 82’ depois de uma correria desenfreada pelo seu corredor.

A fama do antigamente discreto e nada recatado Mæhle agigantou-se perante o mundo, no último jogo contra a República Checa, nos ‘quartos’, quando surgiu pela esquerda e sacou uma trivela digna dos magos daquele país, seja Michael Laudrup, Preben Elkjær ou Allan Simonsen, tanto faz. É um daqueles momentos que marcam um torneio inteiro. Dolberg encostou para a baliza e assim se ganhou, quem sabe, a mais maravilhosa assistência do Euro 2020.

Mæhle e Hjulmand

Mæhle e Hjulmand

Friedemann Vogel - Pool

Joakim vai encantando no Europeu com aqueles pés que tratam bem a bola, com aquela caixa que não entra em falência, mais a ousadia de quem ouve e segue os conselhos de homens como Gasperini e Hjulmand. O camisola 5 da Dinamarca já disputou 450 minutos neste Europeu, nos quais fez apenas três faltas, dois remates por jogo (1.4 na baliza) e completou ainda 84% dos passes que tentou (206/244).

Aquele vaivém, no qual parece insuperável, já lhe garantiu algumas milhas, pois já soma 52.6 quilómetros nas pernas. O ponteiro da velocidade marcou os 30.4 km/h, um valor interessante, mas que apenas o coloca na 142.º posição na lista dos velocistas. Para os curiosos, o top-3 está entregue a Spinazzola (33.8 km/h), Loïc Négo (33.8 km/h) e Kingsley Coman (33.7 km/h). Mais interessante, sendo um defesa, recuperou 26 bolas e não levou qualquer cartão.

O lateral-ala-extremo nasceu em 1997, em Østervrå, cinco anos depois do feito dos compatriotas que agora sonha imitar. Começou a carreira no Aalborg, onde chegou aos 12 anos e saltou, em 2017, para o Genk, onde jogou três anos e meio, ganhando um título e várias presenças nas competições europeias. Agora está na aparentemente eterna sensação da Serie A, a Atalanta.

Nos entretantos de todas essas mudanças, soube como era jogar um Campeonato da Europa pelo seu país, ainda que tenha sido de sub-21, em 2019. Até começou no banco na derrota contra a Alemanha, mas depois foi titular com a Áustria e marcou dois golos. No terceiro jogo, novamente de início contra a Sérvia, fez uma assistência. A Dinamarca não passou dos grupos e mudou de treinador.

Os sinais estiveram sempre lá.