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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"Dizer que os penáltis são como a lotaria é a desculpa por defeito de um treinador que não se preparou"

Ben Lyttleton pesquisou, estudou e recolheu dados sobre a marcação de penáltis e, em 2015, publicou um livro porque das seis vezes (em sete) que a seleção de Inglaterra foi eliminada de grandes torneios desta forma, todos os treinadores alegaram o mesmo. Em conversa com a Tribuna Expresso, o jornalista inglês e hoje estudioso da arte de bater grandes penalidades, diz que é a má ideia um jogador mudar de ideias enquanto caminha para a bola, como o é deixar "as super estrelas" ficarem para o fim: "tem muito a ver com egos e vaidades, de quererem ser quem marcou o penálti vencedor"

Diogo Pombo

Justin Tallis - Pool

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A cavaqueira montada entre capitães e árbitros ao fim de 120 minutos não foi amena, Chielini então era quem mais puxava por gargalhadas, sorrisos e gelo a ser quebrado em ocasião tão friorenta em nervos Jordi Alba era o amenizador entre eles, parecia não se querer dar ao à vontadinha do italiano e quando o fadário da moeda ao ar ditou que a Itália bateria o primeiro penálti, as probabilidades começaram a ser tendenciosas.

A matéria dada, que é como quem diz os estudos e os ene desempates por penáltis que o futebol teve, mostra que ser a equipa inauguradora deste outro jogo dentro do jogo é meio caminho andado para sair do tira-teimas com a felicidade que Chielini já tinha antes de tudo começar. A Itália marcou quatro penáltis, a Espanha dois e quem se aventurou primeiro está na final do Europeu.

Ben Lyttleton estava ciente destas hipóteses. Em 2014, o jornalista publicou o "Twelve Yards", um livro sobre a arte e o engenho de bater penáltis, defendê-los e abordá-los que supera em muito o que é a fortuna, ou a lotaria, como ainda se ouve muitos treinadores e jogadores a chamar-lhe. É isso que lhe faz "ferver o sangue", tira-o do sério e fá-lo ter uma certeza: quem o diz está a denunciar a própria impreparação.

FRANCK FIFE/Getty

Entre as centenas de penáltis que viu e as pessoas com quem falou, além da vantagem probabilística de ser a primeira equipa bater penáltis - e, mesmo assim, não havendo uma fórmula mágica -, Ben sabe que não apressar a corrida para a bola assim que o árbitro apita e não mudar o sítio na baliza onde se escolheu apontar o remate também ajudam. Na terça-feira, Belotti demorou sete segundos a chegar à bola, e marcou; Morata arrancou assim que ouviu o apito, e falhou.

Fórmulas certas não as há, o sucesso não está dentro de um baú secreto, mas, com o tempo, certo é que os penáltis devem ser treinados e praticados e repetidos até serem uma questão de "memória muscular dos jogadores a trabalhar". Desde que os jogos de Europeus podem ser desempatados desta forma (1976) que só uma edição (1988) não os teve. Em 2021 já vamos em três e, sim, os futebolistas "podem controlar a situação" até certo ponto.

O que achaste dos dois desempates por penáltis que já houve no Europeu?
Ambos foram bastante interessantes, mas por razões diferentes. O primeiro foi no França-Suíça, onde vimos lições retiradas dos nossos estudos a serem provadas durante esse desempate. Por exemplo, sabemos que quem bate o primeiro penálti tem uma maior hipótese de ganhar, sabemos que as super estrelas estão sob pressão e têm maior probabilidade de falharem num pontapé, e sabemos que o tempo de reação dos jogadores, desde que o árbitro apita até ao momento em que começam a partir para a bola, tem um importante efeito na taxa de sucesso do penálti. E essas três coisas aconteceram. A Suíça ganhou a moeda ao ar, foi primeiro e ganhou; o [Kylian] Mbappé falhou o quinto penálti e foi o único a apressar-se na aproximação à bola - o seu movimento durou apenas 1.2 segundos.

Mas tudo se resume a essas três coisas?
Houve outras coisas a acontecerem que achei interessantes. Depois do desempate, a primeira coisa que o Hugo Lloris disse que foi os penáltis são como uma lotaria. Para mim, ouvir essas palavras é como um alvo vermelho para um touro, o meu sangue fica a ferver. Essa é razão pela qual escrevei o livro ["Twelve Yards"], porque a Inglaterra perdeu perdeu seis de sete desempates por penáltis [em grandes competições] e todos os treinadores disseram que é uma lotaria. É a desculpa por defeito de um treinador que não se preparou para os penáltis. E, se a Inglaterra perder neste Europeu no desempate por penáltis, o que é muito possível, uma coisa que não dirão hoje em dia é que são como uma lotaria. O que diriam é que se prepararam o máximo que puderam, que trabalharam o mais possível e, mesmo assim, não conseguiram ganhar. Se for essa a abordagem é perfeitamente normal e não se pode contestar. Numa seleção nacional, ou noutra equipa de futebol, ouvir um treinador dizer que não praticaram, mas que perderam e isso foi azar... a sério, tiveram dois anos ou mais para trabalhar nisto, o que andaram a fazer? Acho que há uma arrogância que vem por arrasto também.

Então por que razão continuamos a ouvir muita gente falar em lotarias?
Em parte, creio que é geracional. A expressão que usamos é old school, sabes? Os treinadores da velha guarda tendem a dizê-lo. O [Fernando] Santos é assim. O Roy Hodgson também o era, sobretudo quando comparado com o Gareth Southgate. Se olharmos para a Dinamarca, tinham o Age Hareide como treinador em 2018, quando perderam nos oitavos-de-final contra a Croácia, nos penáltis, e ele disse que era uma lotaria. Agora têm um tipo mais novo, o Kasper Hjulmand, que tem treinado os penáltis. Sinto que é algo um pouco geracional e se não tiveres sido afetado pelo trauma de perder um desempate por grandes penalidades, também é menos provável que te importes com isto.

Como jogador, o Southgate teve esse trauma. Transformou-o numa vantagem?
Yeah, correto, e tornou esse ponto negativo num grande positivo. Aconteça o que acontecer à Inglaterra, acho que esse é o seu maior sucesso enquanto selecionador: ter-nos libertado desse trauma de nos preocuparmos de perder no desempate por penáltis antes de cada eliminatória. Ganhámos dois em dois desde que ele assumiu a seleção. Ensinou esta geração de jogadores e a geração que já vem depois de que eles estão no controlo da situação, as coisas simplesmente não lhes acontecem só porque sim, têm um papel ativo e podes melhorar as tuas hipóteses. É isso que lhes ensinou.

Mas, em termos de preparação, é um trabalho mais técnico ou mental, ao nível dos nervos, da ansiedade e de todas as coisas que vêm à cabeça de um jogador?
Sem dúvida, porque se estás a jogar pelo teu país, então és bom o suficiente para marcares um penálti. Estes tipos são tecnicamente fantásticos, portanto deviam marcar sempre. A razão para não o fazerem é psicológica e isso pode ser trabalhado e tem sido trabalhado. Tem a ver com treinar o cérebro para a caminhada até à área, para a corrida até à bola, mas também com trabalhar a linguagem corporal com os teus companheiros de equipa. Alguns jogadores, por exemplo, gostam de estar sozinhos após o apito para o final do jogo, outros preferem estar em grupo, é uma questão de averiguar a que coisas os jogadores respondem melhor em relação à ansiedade de competição. É um período altamente stressante, mas há certas coisas que podes fazer para o tornar menos stressante, ou podes implementar mecanismos para todos estejam preparados para lidarem com isso.

Contra a Suíça, o espanhol Dani Olmo arriscou bater a bola ao ângulo superior direito da baliza de Yann Sommer

Contra a Suíça, o espanhol Dani Olmo arriscou bater a bola ao ângulo superior direito da baliza de Yann Sommer

Anatoly Maltsev - Pool

Quando vi aquela caminhada do Mikel Oyarzabal para ir buscar a bola, que durou quase um minuto, pensei logo que fosse falhar.
Bom, mas ele estava calmo, sem pressas, não se estava a apressar e soube usar isso a favor dele, porque ia rematar para ganhar a eliminatória, o que é logo diferente. Durante esse período, ele tinha a hipótese de ser o herói, então podia ter pensamentos positivos. Foi interessante, sim. Mas, depois desse desempate, o Luis Enrique disse que foi perguntar aos jogadores quem queria bater um penálti e eu levei as minhas mãos à cabeça: 'Não! Não podes querer fazer isso!'. Porque deveria ter-lhes dito antes quem iria bater, para que soubessem já. E claro que o Sergio Busquets levantou a mão, é o capitão, terá sentido que, enquanto líder, tinha de o fazer, e na altura até reparei enquanto se estava a preparar para partir para a bola começou a brincar com a braçadeira, o que é um sinal claro de uma espécie de ansiedade de palco, de ser capitão, de realizar que é o líder, de ter de dar o exemplo. E falhou, claro. Achei isto muito interessante. Depois, o Rodri entrou no jogo já no fim do prolongamento [aos 119 minutos] e nem sei quantas vezes tocou na bola. Gosto de substituições pensadas para os penáltis e não tenho grandes dados que demonstrem isto, mas, entre os jogadores com quem já falei, todos dizem que gostam de tocar na bola e sentir o relvado antes de baterem um penálti. O preferível é terem 10 minutos em campo em vez de 10 segundos. Já tinha visto o Rodri a marca um penálti pelo Manchester City contra o Tottenham, mas não foi convincente.

Mas a Espanha acabou por ganhar.
Sim, o que demonstrou também o poder quem é ter um bom guarda-redes, se tiveres um que faça a diferença com a linguagem corporal e o domínio do espaço enquanto permanece em cima da linha de baliza - o que é muito difícil hoje em dia, com o VAR, sem violar a lei. O Unai Simón é uma figura impressionante na baliza. O Yann Sommer também é bastante ativo sobre a linha, mas, por exemplo, o Hugo Lloris não é, de todo. Limita-se a ficar ali parado e não faz com que a baliza pareça pequena. Precisas que o guarda-redes também seja ativo.

E em relação aos guarda-redes que aguardam até ao último momento e não se mexem até ao jogador que bate escolher o lado? O Bruno Fernandes, por exemplo, nunca olha para a bola.
Hum, acho que contra alguém como ele, que o faz sempre e é muito bom a fazê-lo, é muito, muito difícil defender. Os guarda-redes esperam até à última porque não se querem mexer, mas o Bruno já decidiu o que vai fazer e marca mais vezes do que falha. Neste Europeu, o interessante é termos visto jogadores a tentarem esse método e a falharem, porque normalmente não batem dessa forma. Se não rematares os penáltis regularmente dessa maneira, vais apanhar um guarda-redes que já ficará mais tempo em cima da linha, por causa do VAR, portanto esperam e esperam. A esses penáltis chamamos de dependentes do guarda-redes, porque esperas que sejam eles a dar o primeiro movimento. O que vemos hoje em dia é que os jogadores bons nessa técnicas são apenas aquelas que batem dessa forma com regularidade, não podes ser um batedor de penáltis de pouca frequência e ser bem sucedido a marcá-los dessa forma. Tens o Jorginho, o Neymar, o Bruno Fernandes e não assim muitos outros. Mas, durante o Euro, vimos o Bale, o Alioski, o Malinovskyi e o Moreno a tentarem e não resultou. Portanto, se houve a prevalência de alguma coisa, foi a de penáltis independentes do guarda-redes.

Como costumam bater os jogadores ingleses? Têm uma relação complicada com penáltis.
Enquanto inglês, olhar para os dois desempates que a Inglaterra teve com o Southgate e ver que, dos 11 penáltis que tiveram, marcaram 10 e todos esses 11 foram batidos de forma independente do guarda-redes. Ou seja, penso que trabalharam nisso: não esperes pelo guarda-redes, corre para a bola e chuta. Se o tiveres praticado bastante não terás nada com que te preocupar, sabes que é aquele lado, sabes como rematar a bola para lá, ontem bateste 50 penáltis, no dia anterior foram 20 e sabes que é o teu momento, treinaste para isto, o teu corpo e a tua mente sabem como se faz. Não tens nada com que te preocupar porque treinaste isto com um propósito e o resto é deixar funcionar a memória muscular.

Mikel Ozarzabal, que bateu o penálti vencedor, a saltar para cima de Unai Simón, o guarda-redes espanhol que parou duas bolas no desempate com a Suíça

Mikel Ozarzabal, que bateu o penálti vencedor, a saltar para cima de Unai Simón, o guarda-redes espanhol que parou duas bolas no desempate com a Suíça

Joosep Martinson - UEFA

Outra coisa que é habitual vermos são seleções ou equipas que guardam o teórico melhor batedor para o quinto penálti.
Estive a falar com algumas pessoas de França e, por exemplo, disseram-me que o Mbappé só é o quinto jogador a marcar se realmente quiser ser o quinto. Portanto, ele quis bater o último penálti porque queria ser o herói. Não tenho dúvidas que o mesmo terá acontecido com o Cristiano Ronaldo em 2012 [nas meias-finais do Euro, contra a Espanha, nem chegou a marcar]. Mas, no desempate que Portugal teve depois desse, penso que ele até foi o primeiro a bater, certo? [correto, foi o primeiro a bater contra a Polónia, em 2016, nos quartos-de-final do Europeu]. Acho que a tendência é colocar os melhores batedores na primeira e quarta posições, basicamente. Penso que o melhor deve ir sempre em primeiro, para que a equipa fique logo no marcador, mas tem muito a ver com egos e vaidades, de jogadores a quererem ser quem bateu o penálti vencedor. Depois, compete ao treinador gerir tudo e, repito, quem diz que os penáltis são como uma lotaria é um treinador que não se preparou para eles. E o treinador que deixe a sua super estrela ficar com o quinto penálti também é o treinador que não se preparou realmente para eles. Esses são os meus feelings quanto a esse tema.

Existe uma fórmula de sucesso para bater penáltis ou não?
Bom, para quem bate, nem por isso, mas acho que o melhor é ser independente do guarda-redes e levar o teu tempo. Saber de antemão para onde queres rematar e não mudar de ideias entretanto. Apontar aos ângulos superiores é sempre difícil porque facilmente a bola pode ir por cima da barra, mas, se executares bem, apontar a bola para cima é sempre melhor por ser mais difícil para o guarda-redes defender, sem dúvida. Gosto de penáltis batidas para cima e ao meio, mas pronto.

Tal como o Frank Lampard costumava rematar.
Exatamente. Depende dos jogadores, cada um é diferente e aquela caminhada que têm de fazer para a bola é bastante assustadora. Portanto, desde que estejam preparados para esse percurso e não o usem para pensar para onde hão de rematar, porque, numa situação de stress, a primeira coisa que uma pessoa perde é a capacidade para tomar decisões. Um jogador deve saber de antemão para onde quer e vai bater a bola.

De vez em quando ouvem-se jogadores a admitirem que só escolher o sítio para onde iam bater ao colocarem a bola na marca de penálti.
Isso é tão arriscado. Em suma, penso que a conversa em torno dos penáltis tem mudado nos últimos 10 anos e, em linha com a revolução da data e a maior atenção dada à psicologia e linguagem corporal, estamos a assistir a diferentes estratégias a virarem mainstream no que toca aos penáltis. Na semana passada, um jogador da seleção inglesa falava de como se visualizava a marcar o penálti e em como esperava uns segundos após o árbitro soprar no apito, porque isso era algo que discutiam entre eles. Quando escrevi sobre isso em 2013 era algo muito novo, até parecia estranho, ninguém realmente o fazia, mas agora vemos muito, excepto em alguns países onde é muito difícil entrar no tecido do que é a cultura do futebol. Alguns são antiquados ou acham que sabem mais ou melhor, por exemplo, a França é campeã do Mundo, por isso por que razão hão de ouvir alguém? Creio que as equipas que levarem os penáltis mais a sério serão aquelas que, ao longo do tempo, vão ganhar mais vezes.