Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

Inglaterra-Dinamarca: Várias vezes casadas, desde sempre enfrentadas

Aqui conta-se uma história com reis chamados Barba Bifurcada, Pé de Lebre ou Dente Azul, do tempo em que invasões dinamarquesas incentivaram a coesão do reino inglês. Também há tempo para falar de uma rainha teimosa que não saía da cama, de um cavalo sepultado com honras militares ou de traineiras alvejadas em tempo de paz. Viagem pelas relações nem sempre cordiais entre a Inglaterra e a Dinamarca, no dia em que jogam a meia-final do Euro

Pedro Cordeiro

O inglês Carlton Palmer persegue o dinamarquês Brian Laudrup no jogo da fase de grupos do Euro 1992 em Malmo, na Suécia. Foi o único campeonato europeu vencido pela Dinamarca

Icon Sport/Getty

Partilhar

“Pode dizer-se que a Inglaterra deve a sua existência aos dinamarqueses.” A frase talvez não seja de repetir diante dos adeptos da seleção dos três leões, mas ouvi-a a um historiador inglês num recente episódio do podcast “The rest is History”. Que melhor mote para explorar as relações entre os países cujas seleções de futebol lutam esta quarta-feira por um lugar na final do Europeu? Será que em Wembley (Londres) jogam ambas em casa? Curiosidade: as respetivas chefes de Estado são primas, já que a rainha Vitória do Reino Unido era trisavó das duas. E Margarida II da Dinamarca figura na linha de sucessão ao trono de Isabel II.

O que o perito Tom Holland quis frisar com a frase que abre este texto foi que as invasões nórdicas dos séculos VIII a XI impeliram a manta de retalhos que era então a atual Inglaterra a aglutinar-se num reino único, um “conglomerado contra os dinamarqueses”. Vigorava a heptarquia dos reinos de Ânglia Oriental, Mércia, Nortúmbria, Wessex, Essex, Kent e Sussex, com outros territórios seus vassalos.

Estava-se na Alta Idade Média, depois de o Império Romano ter ruído, dando lugar a uma Europa fragmentada e sacudida por incursões bárbaras. Se os iberos levaram com celtas e visigodos, os britânicos originais (também ditos britões ou britanos, a não confundir com os bretões da Bretanha francesa) viram-se reduzidos à Cornualha, invadidos primeiro por saxões vindos da atual Alemanha e, depois, por vikings, mormente oriundos da Dinamarca e da Noruega. Estes começaram por aparecer de fugida para saquear, mas cedo optaram por uma ocupação mais perene, enviando aquele que ficou conhecido como Grande Exército Pagão.

Isabel II recebeu Margarida II no castelo de Windsor em 2000. São primas por via da trisavó de ambas, a rainha Vitória do Reino Unido

Isabel II recebeu Margarida II no castelo de Windsor em 2000. São primas por via da trisavó de ambas, a rainha Vitória do Reino Unido

Anwar Hussein/Getty

Coube ao reino de Wessex ­­o papel da aldeia de gauleses dos livros de Astérix ou, em termos menos ficcionais, o das Astúrias na reconquista cristã da Península Ibérica. Derrotados os demais, continuou a resistir aos nórdicos. Reinava neste feudo, entre 871 e 899, Alfredo, o primeiro a declarar-se rei “dos anglossaxões” e não apenas de Wessex.

Repelir os vikings consumiu grande parte do seu reinado. Para tal apostou em criar uma marinha e um sistema burgos fortificados, com base nos velhos assentamentos romanos e cujos habitantes eram sujeitos a tributação para sustentar o esforço. Além da defesa, esta rede alimentou comércio, ofícios e cultura. Em 878 o rei conseguiu um acordo que deixava o norte e leste da ilha sob a égide dos dinamarqueses (a chamada “Danelaw”, que nasce de “direito dinamarquês” e acabou por designar área geográfica com ponto centrípeto em Iorque). Alfredo até convenceu o líder dos nórdicos, Guthrum, a converter-se ao cristianismo e foi seu padrinho de batismo.

Os descendentes do monarca, mau-grado uma dose considerável de conflitos e confrontos entre ramos da família nas décadas seguintes, deram continuidade a esta política de resistência e reforço. Os pequenos reinos britânicos acabariam unidos, tendo sido Etelstano, neto de Alfredo, o primeiro rei a consegui-lo a meio do século X. O avô, mentor da proeza, viria a ser chamado “o Grande”.

Bluetooth há mil anos

A paz com os nórdicos era frágil e nem sempre quem mandava na Dinamarca respeitou os acordos firmados na Grã-Bretanha. Em 1013 o rei dinamarquês Sueno Barba Bifurcada invadiu Inglaterra, depois de ter destronado em Copenhaga o pai (Haroldo Dente Azul, que mil anos depois ­— a sério! — deu nome a uma tecnologia que todos usamos: como o rei uniu o seu povo, o Bluetooth une protocolos de comunicação sem fios). Em solo inglês Sueno revelou-se cruel. Mulheres foram queimadas vivas, crianças empaladas, homens pendurados até à morte pelos genitais, escreve a BBC. A brutalidade era recíproca: na década anterior o rei inglês Etelredo, o Impreparado — que Sueno venceu — mandara matar todos os dinamarqueses da ilha, no massacre do Dia de São Brício.

Edmundo Braço de Ferro, rei de Inglaterra (à esquerda), foi derrotado por Canuto da Dinamarca na batalha de Assandun, em outubro de 1016. Ilustração do século XIII

Edmundo Braço de Ferro, rei de Inglaterra (à esquerda), foi derrotado por Canuto da Dinamarca na batalha de Assandun, em outubro de 1016. Ilustração do século XIII

UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE

Coroado rei de Inglaterra em Gainsborough, de que faria capital, Sueno teve pouco tempo para gozar o triunfo: morreu de repente após cinco semanas, de uma queda de cavalo que ainda hoje não se sabe se foi acidental ou provocada. O seu filho Canuto deixou Etelredo recuperar a coroa (que o filho Edmundo Braço de Ferro herdou após a sua morte), mas apenas para se preparar: voltou à Dinamarca mas não tardou a cruzar de novo o Mar do Norte. Em 1017 tornou-se rei de Inglaterra (viria a sê-lo ainda da Noruega) e casou com a rainha Ema, viúva de Edmundo, a quem terá mandado matar. Jovem e feroz, impôs uma taxa de imposto de… 100%. Corria a lenda de que era capaz de deter as ondas do mar com um gesto da mão.

A morte de Canuto, em 1035, abriu uma crise de sucessão entre Haroldo Pé de Lebre, filho do seu anterior matrimónio com Elgiva de Northampton; Hardacanuto, produto da união com Ema; e Eduardo o Confessor, filho de Ema e Edmundo. Reinaram todos, por esta ordem, mas a crise, que ainda envolveu outro efémero Haroldo, só se resolveria com a invasão normanda e o triunfo de Guilherme I, elevado de “o Bastardo” a “o Conquistador” e visto por muitos como o primeiro rei inglês (que tampouco era).

Da presença dinamarquesa, que não terminou aí, resultaram em Inglaterra — como entre nós com os árabes — milhares de palavras, incluindo topónimos, de raiz escandinava, além de achados arqueológicos, costumes e divisões administrativas. Se logo à noite, em Wembley, Harry Kane e companheiros vão ostentar ao peito o emblema dos três leões, ligados à figura de São Jorge, cuja cruz adorna a bandeira de Inglaterra, a verdade é que até ao século XV o padroeiro de Inglaterra era São Edmundo, o rei de Ânglia Oriental que os dinamarqueses martirizaram no ano 870 e cujo símbolo é uma coroa atravessada por duas setas.

Uma rainha determinada

Passaria meio milénio até novo cruzamento régio entre Inglaterra e Dinamarca. O rei Jaime VI da Escócia — que mais tarde seria o primeiro a ostentar também a coroa inglesa como Jaime I — casou em Oslo com uma princesa dinamarquesa. Ana era filha do rei Frederico II da Dinamarca e da Noruega e a sua união selava uma importante aliança protestante, numa época em que a questão religiosa ainda não estava resolvida nas ilhas britânicas. Divergências dinásticas, mas também religiosas, tinham levado à abdicação forçada da mãe de Jaime, a rainha Maria da Escócia, e posterior fuga para Inglaterra e execução a mando da prima Isabel I.

Foi também na Dinamarca que morreu o terceiro marido de Maria da Escócia, Jaime Hepburn, conde de Bothwell. Viajou para o reino nórdico após a deposição da esposa por nobres escoceses, para ali procurar auxílio. Ora, na Dinamarca vivia Anna Throndsen, que fora sua mulher e a quem abandonara. Acresce que Bothwell estava acusado na Escócia, como Maria, do assassínio do anterior marido desta, Henrique Stuart. Em vez de o ajudar, Frederico II prendeu-o no castelo de Dragsholm, perto de Copenhaga, onde o conde veio a morrer no opróbrio.

Jaime VI e Ana tiveram as suas fricções. Corria o ano 1600, ainda o casal reinava só em Edimburgo, quando dois irmãos aristocratas foram acusados de conspiração para matar o rei. Alexandre e João Ruthven foram imediatamente mortos pelos guardas reais, e as suas irmãs Beatriz e Bárbara, aias da rainha, despedidas com justa causa. Grávida de cinco meses, a rainha ficou furiosa. Disse que não se levantaria da cama nem comeria até ambas serem readmitidas. Jaime ainda contratou um acrobata para diverti-la e aplacar-lhe a ira, mas Ana nunca deixou de apoiar os Ruthven e conseguiu que Beatriz recebesse uma pensão vitalícia.

Jaime I de Inglaterra e a sua mulher, Ana da Dinamarca, numa gravura feita por autor anónimo no século XVII

Jaime I de Inglaterra e a sua mulher, Ana da Dinamarca, numa gravura feita por autor anónimo no século XVII

NATIONAL PORTRAIT GALLERY

Já em Londres, brigaram de novo a pretexto de contratações. E a rainha queixava-se ao embaixador de França de que “o rei bebe tanto e porta-se tão mal em todos os aspetos que prevejo um mau resultado em breve”. O gosto do rei por cortesãos e uma paixão pelo duque de Buckingham podem não ter caído bem a Ana. Anos mais tarde, numa caçada, a arma da rainha disparou contra o cão preferido de Jaime. Este chamava-se Joia, mas foi o rei quem ofereceu uma à mulher para fazerem as pazes, muito embora fosse ele a parte ofendida. Depois passaram muitos anos com vidas separadas, o que não impediu profusa descendência, como é dever de qualquer casal coroado.

Outros dois monarcas britânicos viriam a casar com dinamarqueses. Em 1783 a rainha Ana desposou Jorge da Dinamarca, filho do rei Frederico III. O casamento teve a triste cifra de 17 gravidezes de que não chegou um único descendente à idade adulta. Passados 80 anos Eduardo VII casou com a princesa Alexandra, filha de Cristiano IX da Dinamarca. E até o marido de Isabel II, o recentemente desaparecido Filipe Mountbatten, embora nascido na Grécia, era membro da casa real da Dinamarca. Tal é a conhecida endogamia entre dinastias europeias.

Meu reino por um cavalo… com nome vindo do teu

A partir de Jaime VI, os tronos escocês e inglês não mais se separaram e os reinos fundiram-se em 1707 (ou seja, se o leitor é dos que chamam “rainha de Inglaterra” à simpática nonagenária que é hoje chefe de Estado, está a perpetuar um erro comum). Anos mais tarde o filho de Jaime, Carlos I, “penhorou” a cidade de Newcastle e as ilhas Orkney e Shetland a troco de apoio militar dinamarquês na guerra civil inglesa, que o faria perder a cabeça (literalmente).

As guerras napoleónicas voltaram a agitar as águas. Londres não gostou da neutralidade declarada pelos escandinavos e pelas potências bálticas (sobretudo Prússia e Rússia) e a sua armada bombardeou Copenhaga em 1801. Anos depois capturou toda a frota militar dinamarquesa, temendo que França se apossasse dela para invadir o Reino Unido.

Outro apontamento curioso é que o duque de Wellington, um dos grandes artífices da derrota de Napoleão, travou a batalha de Waterloo no dorso de um cavalo chamado… Copenhaga. O equídeo, que poderá ter nascido em solo dinamarquês, chamou-se assim em memória da vitória dos britânicos sobre os dinamarqueses nas batalhas descritas no parágrafo anterior. Distinguiu-se em corridas e em combate — em Waterloo chegou a carregar o duque 17 horas seguidas —, foram-lhe cortados pelos da crina para incluir em joias e, quando morreu passados muitos anos (por ingestão excessiva de açúcar), teve direito a honras militares e pedra tumular.

O duque de Wellington montado no cavalo Copenhaga durante a batalha de Waterloo, num quadro de Thomas Lawrence

O duque de Wellington montado no cavalo Copenhaga durante a batalha de Waterloo, num quadro de Thomas Lawrence

Coleção Privada do Conde Barthurst

O último choque que se conhece entre as duas potências atlânticas foi há 60 anos. Um barco de pesca britânico foi mandada parar por uma fragata dinamarquesa ao largo das ilhas Faroe (território dinamarquês que, por sinal, tem seleção de futebol própria). A embarcação britânica desobedeceu às ordens de se dirigir para Tórshavn, capital do arquipélago, dirigindo-se antes para a Escócia. Foram disparados tiros de aviso que acertaram no barco de pesca. Tudo se resolveu com uma comissão de inquérito bilateral que deu razão a Londres.

E nos relvados? Os jogos oficiais dão clara vantagem aos ingleses: doze vitórias, contra quatro dos nórdicos e cinco empates. Na Liga das Nações da UEFA no ano passado, houve um nulo em Copenhaga e vitória dinamarquesa em Londres. Nos oitavos de final do Mundial de 2002 os ingleses espetaram três golos sem resposta aos dinamarqueses. Já da última vez que se encontraram num europeu, na fase de grupos de 1992, não houve golos, mas no fim do torneio foi a Dinamarca quem riu: repescada para participar por impossibilidade da Jugoslávia mergulhada na guerra, havia de sagrar-se campeã. A Inglaterra nunca venceu um Europeu.