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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

O futebol até pode estar prestes a ir para casa, mas tem de agradecer aos dinamarqueses

A Inglaterra jogou este Europeu quase todo em casa, onde vai jogar a final porque ganhou (2-1) à Dinamarca, que sai como muito mais do que a única equipa a marcar um golo aos ingleses. Sai como a seleção que perdeu o melhor jogador para uma tragédia que não o foi, superou o trauma, alimentou-se dele, esmifrou todo o potencial que tinha e aguentou até ao prolongamento de um cansaço inevitável. E há crónicas que são devidas, sobretudo, aos derrotados

Diogo Pombo

LAURENCE GRIFFITHS/Getty

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Este jogo, como qualquer jogo, nunca seria jogado por quem escolhe quem joga, haja um árbitro e a bola deixe de estar num treino e a influência do treinador mirra. Deixa de haver um técnico dentro do campo, vai-se a presença de quem dita como se deve jogar e, pela sexta vez em coisa de um mês, Kasper Hjulmand está mesmo à beira do sítio no Europeu onde pouco pode influir, mas, permitam-me a insistência, onde também é uma fonte de contágio para quem treina.

Vemo-lo descontraído, de presença respeitosa, a ladear e a aplaudir a entrada dos seus jogadores no relvado de Wembley, poder-se-ia cair na tentação de julgar como apenas motivador de homens, ele não nos deixou, livrou-nos disso logo quando um coração adormeceu, depois acordou em Christian Eriksen, um “jogador do caraças”, que expôs a humanidade sem estribeiras que há em Hjulmand, quando falou do quão pequeninos todos somos realmente.

De pontapés na bola está o mundo cheio, nós é que os inflacionamos de relevância quando, por acaso, a vida aparenta ir bem e Hjulmand, vendo os seus combalidos e com as cabeças a titubearem pela tragédia que não foi, viu-os também a perderem os dois primeiros jogos do Europeu - mas, a partir daí, logrou vê-los a inspirarem os demais dinamarqueses e nisto, agora, sou eu a confiar nele e no que tem dito.

Porque, além do que notamos de um treinador no que a sua equipa faz, ele também é o que diz e faz.

E nesta Dinamarca, a maior enganadora do Europeu com dinâmicas coletivas descaradas como rugas de expressão, fazendo-a parecer uma equipa de clube com anos de treinos diários em cima e não uma seleção, há saídas de trás rápidas, com poucos toques e viciadas no conceito do terceiro homem, há as viragens de jogo de Vestergaard, as atrações de adversários a certas zonas para depois se lançar Maehle, há o desplante talentoso de Damsgaard, há liderança de Kjaer e Schmeichel. A embrulhar estes e outros que não têm o melhor jogador entre eles, há um conjunto que vem do treinador.

A limitação da vida que impõe aos ingleses, em Wembley, pressionando a campo inteiro e condicionando-os a bolas longas dos centrais ou do volátil guarda-redes Pickford, contribuem para o fartote que também é esta meia-final e há Hjulmand a respirar em cada decisão.

Venha quem ouse contrariar que não existe ousadia do treinador no desplante de dar rédea solta a Damsgaard, o craque desconhecido na medida do que desconhecimento possível nesta era, quando o médio martela um golo de livre (30’) já tivera os pés de lã a inventarem espaço entre adversário para curvar um remate (23’) que rasou o poste da baliza onde ainda não entrara uma bola neste torneio. A Inglaterra sofreu um golo e tinham de ser os dinamarqueses.

Eddie Keogh - The FA

Teriam que, a partir de aí, arcar com a igualmente desconhecida reação de uma seleção a ver um resultado a fugir-lhe, os ingleses apertaram no ritmo e puxaram do melhor que Harry Kane tem longe da área, a ser um avançado total que foge para os espaços em terra de ninguém enquanto alguém ataca a profundidade, aí o capitão recebeu, orientou e virou-se com várias bolas. Numa viu um passe para entrar na corrida de Saka, que cruzou para o inglório desvio de Kjaer evitar o remate de Sterling, mas ser ele a fazer o 11.º auto-golo do torneio.

O ainda muito se espreguiçaria, mas, pouco depois, o apogeu da Dinamarca pareceria tomado, o cume domado, o seu potencial explorado até ao teto quando nem uma hora de jogo se jogara, Hjulmand substituía corpos desgastados pela competição e carcomidos pela sobrevivência acima das possibilidades previstas pela qualidade per capita. À cabeça, eram, de longe, a seleção menos talentosa entre as semi-finalistas.

Mas, enquanto a Inglaterra carregava com o seu potencial humano contra a área, os dinamarqueses resistiam cada vez mais como podiam, Kjaer e Vestergaard as torres a susterem o castelo e a capacidade para tornar úteis as bolas recuperadas ia-se nulificando. Kane continua a espreitar nas costas dos médios, os centrais ingleses eram como números seis a ordenarem jogadas e os ingleses, luxuosos por terem em Sancho, Foden e Grealish tipos para ficarem sentados no banco, à espera de aflições.

Os ingleses cairiam com tudo sobre o culminar do cansaço alheio, Gareth Southgate não os equipou com uma forma de atacar capaz de procriar ideias, jogadas e rasgos coletivos entre os engenhosos jogadores que tem, aqui também se vê o que distingue treinadores antes de a matéria-prima à mão de cada um obrigatoriamente os diferenciar, o futebol é espetacular, mas atenuável só até certo ponto quando em causa estão as castas de talento entre quem se defronta.

Mas, quando a Dinamarca já não se conseguia elevar mais, sobrou-lhe Kasper Schmeichel.

O melhor guarda-redes em Wembley, provavelmente o melhor do Europeu, susteve a seleção com a sua serenidade loira, aquele ar impávido de quem apenas tinha mexido uns ovos para levar ao lume, todo ele uma acalmia sem esforço a barrar Maguire, Mount, Shaw, Kane e Sterling, todos remataram como puderam porque a Inglaterra jogava como podia - a forçar e a confiar em laivos individuais abre-latas - e não como poderia - criadora de muitos problemas em organização com bola, dado a qualidade que tem.

Lars Ronbog/Getty

As luvas de Schmeichel foram sendo manietadas pela resistência de todos os dinamarqueses, estes onze e os milhões que Hjulmand disse, repetidamente, querer tentar inspirar pela atitude que estes tais punham no futebol e puseram até estoirarem, eles já só aguentavam e já nem jogavam quando o seu muralhado guarda-redes até barrar um penálti de Harry Kane conseguiu, ele o quase intransponível, ao incapaz ser de acorrer à recarga do avançado. O jogo ia nos 104’.

O que se jogaria depois foi um corpo presente no Europeu, um falso espetáculo, não sei o que resulta do casamento entre uma vontade esgotada de energias com uma superioridade amedrontada. Será mais um divórcio ao que o futebol interessa: os dinamarqueses de meias em baixo, corridas cambaleantes e esforços sem pólvora tentavam, mas apenas se acercaram da área porque os ingleses foram murchados pelo medo do seu treinador. Jack Grealish, o suplente que não há jogo que não agite, até virou substituído para a Inglaterra ter 15 minutos com três centrais.

Os ingleses e Gareth Southgate, o falhador daquele penálti, naquele outro Wembley, nas meias-finais de 1996, tiveram o que há tanto uma nação quer jogando o que havia para jogar desta vez com uma renúncia flagrante a atacar um adversário, muitos dirão que importa é ganhar sem que se releve o como; é uma crença possível, mas que se possa dizer também que importará sempre como se perde.

E a Dinamarca, representada por estes dinamarqueses para quem o Europeu arrancou na corda bamba da vida, acaba de mostrar como se pode jogar para adiar ao máximo o momento em que não se pode mais - arriscar e ousar com o que se tem, dando-se tudo, apostando-se na valia do todo e nunca abrandando até essa totalidade esgotar as suas possibilidades.

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    Euro 2020

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