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As muitas fintas aos impostos do superagente Pini Zahavi por causa de Neymar

O intermediário israelita, que trabalha através de empresas offshore, fez de tudo para não ter de pagar impostos pela comissão de 10,7 milhões de euros que recebeu pela maior transferência da história do futebol. Mas mesmo quando tudo parece estar à mão, as coisas podem não ser assim tão fáceis

Yann Philippin (Mediapart) e Daniel Dolev (Walla News)

Anthony Dibon

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Tel Aviv, 10 de outubro de 2018. Pini Zahavi abre a porta a um repórter israelita que está a colaborar com o Expresso, o Mediapart e os outros parceiros do consórcio EIC (European Investigative Collaborations). O seu apartamento fica no sexto andar de um condomínio de luxo chamado “sol e mar”. A vista da sala de estar sobre o Mediterrâneo é sublime. Vestido com uns calções e um polo, Pini Zahavi oferece-lhes café. Este antigo jornalista desportivo israelita de 75 anos é um dos agentes mais velhos e mais poderosos do planeta. Foi ele quem facilitou a chegada da estrela brasileira Neymar ao Paris Saint-Germain (PSG) pela quantia recorde de 252 milhões de euros.

“Tratei das maiores transferências da história do futebol”, diz. “Não há nenhum grande negócio no mundo onde eu não esteja envolvido. Não há nenhum lugar no futebol internacional onde não eu tenha influência e poder.”

O empresário israelita é mais do que um agente. Pini Zahavi participou na compra de vários clubes, incluindo a compra do Chelsea pelo oligarca russo Roman Abrahamovich. Foi pioneiro na transferência de direitos económicos dos jogadores, TPO, uma prática banida pela FIFA em 2015. É suspeito de ter contornado essa proibição tomando conta de clubes no Chipre e na Bélgica. Zahavi define-se como um facilitador, capaz de desbloquear qualquer negociação. É por isso que tem a alcunha de “Mister Fix It”, o senhor que repara tudo.

Pini Zahavi é um homem discreto, que prefere ficar longe do radar dos media. O último grande perfil sobre ele, para o qual colaborou, foi publicado há doze anos. Recebeu-nos em Tel Aviv porque lhe enviámos perguntas sobre assuntos fiscais relacionados com a operação Neymar. Quer convencer-nos a não escrevermos a história. “Se publicarem uma palavra que seja, arrasto-vos para o maior julgamento de sempre,” ameaça.

Os arrepios do Paris Sain-Germain

Zahavi com Nasser Al-Khelaïfi

Zahavi com Nasser Al-Khelaïfi

ALAIN JOCARD

Os documentos do Football Leaks, obtidos pela revista alemã Der Spiegel e analisados pelo Mediapart e por outros parceiros do EIC, revelam que Zahavi negociou uma comissão de 10,7 milhões de euros a ser paga a o longo de cinco anos pela transferência multimilionária de Neymar. O pagamento da primeira tranche deu arrepios ao PSG, que temia ser processado por evasão fiscal.

Zahavi disse ao clube que queria ser pago através de uma companhia de Malta, depois por outra empresa no Chipre, onde estava a pensar estabelecer o seu domicílio fiscal. No final, o PSG obrigou-o a receber a comissão de Neymar em seu próprio nome em Israel e dar provas de que iria pagar os impostos devidos.

Pini Zahavi confirmou a maior parte da nossa informação, mas nega veemente qualquer intenção de fugir aos impostos: “Sou um dos idiotas mais estúpidos do mundo por pagar impostos aqui. Podia arranjar maneira, como todos fazem… existem tantos… como se chamam aqueles países… offshore”.

Esta declaração é surpreendente. Pini Zahavi trabalha como agente através de várias empresas com sedes em paraísos fiscais como a Irlanda, o Luxemburgo, o Chipre e Malta. A sua holding principal, Gol International Limited, está registada em Gibraltar, onde os impostos para as empresas são zero, e tem uma conta bancária na Suíça. Embora seja detida a 100% por Zahavi, a Gol International é administrada por gestores de fachada nomeados por um escritório de advogados local, Finsbury Trust, que aparece como seu representante no registo comercial.

Um homem com vários pés fiscais

As empresas de Zahavi pagam poucos impostos nos seus respetivos países. Mas onde é que o agente paga impostos? Normalmente seria no Reino Unido, uma vez que vive em Londres e só passa, como o próprio diz, “60 dias por ano em Israel”.

Isto era o que pensava Mark H., um belicoso inspetor das finanças ao serviço da Administração Fiscal e Aduaneira do Reino Unido (HMRC). Depois de investigar as comissões de Zahavi pagas por clubes britânicos entre 2007 e 2012, Mark H. notificou Zahavi que estava a dever à coroa 17,5 milhões de libras de impostos em atraso.

Zahavi contestou a decisão da HMRC e em março de 2017 acabou por ficar isento de pagar. O agente aproveitou uma cláusula do acordo fiscal entre Israel e o Reino Unido, que permite a um cidadão israelita escolher em qual dos dois países quer ter o domicílio fiscal, mesmo que passe a maior parte do seu tempo em Londres. Zahavi escolheu Israel. “Porque é melhor para mim pagar impostos aqui do que em Inglaterra,” disse ao EIC.

No Reino Unido a taxa máxima de impostos sobre rendimentos é de 45%. Em Israel, Zahavi conseguiu negociar um ‘acordo’ feito à medida com as autoridades fiscais – o agente recusou dar mais detalhes sobre o assunto. No caso de Neymar, contudo, lutou bastante com o PSG para não pagar o imposto francês de 33,3%.

No final de julho de 2017, quando começaram as negociações com Neymar e os seus agentes, o PSG pediu a Zahavi informações para poder redigir o contrato. A 25 de julho, Zahavi afirmou que vivia em Londres, com domicílio fiscal em Israel e pediu ao clube para ser pago através da sua empresa maltesa, a Gol Football Malta Ltd.

Os advogados internos do PSG não perceberam nada do caso e ficaram preocupados. A lei francesa é muito clara em relação à evasão fiscal: nos casos de pagamentos a cidadãos estrangeiros, as empresas têm de fazer retenção de 33,3%. A menos que o beneficiário prove que paga impostos no seu país e a uma taxa normal.

Como salvar 3,6 milhões?

A situação de Zahavi preocupou os executivos parisienses, porque a lei afirma que o clube é responsável: se o PSG não pagar os 33,3% ao Estado Francês e não conseguir provar que Zahavi paga impostos em Israel, o clube corre o risco de ser acusado de evasão fiscal.

O PSG acha que Malta é muito exótico e avisa Zahavi que irá reter 3,6 milhões de euros de imposto da sua comissão sobre a venda de Neymar. O que significa que o agente só receberá 7,1 milhões em vez de 10,7. Zahavi irrita-se e propõe outra solução: a quantia deverá ser paga à sua empresa do Chipre, a Grebere Consulting Limited. Mas, além da documentação relacionada com a Grebere, Zahavi envia outro documento surpreendente ao PSG. Trata-se de um certificado passado pelas autoridades fiscais do Chipre, a 19 de maio de 2017, que atesta que Zahavi tem domicílio fiscal no Chipre e que “paga impostos relativos ao seu rendimento global na ilha mediterrânica”

O documento certifica que esse rendimento atingia os 17.500 euros em 2015 e que o “imposto pago tinha sido nulo”. Para um agente que ganha milhões de euros em comissões, isto é surpreendente. O “rendimento global” declarado no Chipre corresponde apenas ao salário de 2500 euros que Zahavi recebe por mês da Grebere desde junho de 2015.

Este documento deixa os executivos do PSG perplexos. Como é que Zahavi pode ter domicílio fiscal em Israel e no Chipre? Após revisão do caso, o PSG decide que deve aplicar a taxa de retenção, porque o Chipre é um paraíso fiscal e a Grebere parece uma empresa de fachada de caráter duvidoso. Depois disso, na manhã de 31 de julho, Zahavi envia ao PSG uma carta do seu contabilista a declarar que o seu domicílio fiscal é em Israel. Isto não é suficiente. O clube quer um certificado oficial, assinado e carimbado pelas autoridades fiscais.

Não é pelo dinheiro, mas pela atitude

Jean Catuffe

O problema transforma-se em crise. No dia seguinte, o administrador executivo do PSG, Jean-Claude Blanc, e a sua equipa irão viajar para Barcelona para finalizar o contrato de Neymar. A conclusão da transferência está marcada para dia 3 de agosto. O problema com o agente israelita ameaça dar cabo de tudo.

Na noite de 31 de julho, Blanc, Zahavi e os seus conselheiros reúnem-se na sede do PSG. À 1h39 o agente envia um mail furioso a Jean-Claude Blanc: “Estou muito chateado com o resultado da reunião de hoje. […] Tinha a certeza que depois do que fiz pelo clube seria tratado com mais compreensão (com todas as provas que dei da minha situação fiscal). Não tem a ver com o dinheiro. Tem a ver com a atitude.”

Zahavi pede a Blanc uma “garantia” que a sua comissão não terá um corte de 3,6 milhões de euros a favor do Estado francês. Mas recusa-se a dar um certificado oficial de residência fiscal. “As hipóteses de eu pedir ir às autoridades fiscais israelitas uma carta são zero. Não vou fazê-lo a meio do processo de me desvincular de residente fiscal em Israel.”

Estaria Zahavi a tentar mudar-se para o Chipre para fugir aos impostos relacionados com a operação Neymar? Primeiro nega-o categoricamente. Depois admite que a ideia lhe passou pela cabeça:

— Posso mudar-me para o Chipre. Se, por exemplo, tivessem concordado que pago os meus impostos no Chipre. Mas não concordaram.
– Os franceses não concordaram, é isso?
– Se tivessem concordado, talvez tivesse encerrado tudo aqui e me tivesse mudado para o Chipre. Porque lá a taxa é zero, ou 10%.
– E foi por isso que não concordaram.
– Certo, não concordaram. É por isso que tudo isto é uma treta.

Depois da reunião de 31 de julho, o PSG quer incluir uma cláusula no contrato de Zahavi onde diz que este tem de apresentar um certificado oficial de domicílio fiscal em Israel. Ele recusa-se e só quer apresentar um comprovativo assinado pelo seu advogado. Para não pôr em causa o negócio de Neymar, o PSG aceita escrever que serão necessários “documentos de apoio” sem especificar a sua natureza. O acordo com o agente é finalmente assinado por Blanc, Zahavi e Neymar em Barcelona a 3 de agosto, o dia da conclusão da transferência.

O PSG deve pagar a primeira tranche de 1,5 milhões de euros até 31 de janeiro de 2018. Por essa razão, devem pedir a Zahavi os “documentos de apoio” para determinar se devem ou não fazer a retenção do imposto. Em novembro de 2017 o PSG está preocupado e começa a antecipar problemas.

Um carimbo com um cheirinho a Gibraltar

Pini Zahavi começa por apresentar um certificado de domicílio fiscal assinado pelo seu advogado. O clube recusa. A 28 de dezembro de 2018, apresenta um certificado de domicílio fiscal carimbado pelas autoridades israelitas. Problema: o certificado é passado em nome de “Pini Zahavi Gol International Ltd” (a sua empresa de Gibraltar). O PSG diz ao agente que não é suficiente, pois o certificado não fala na pessoa individual Zahavi, nem na empresa cipriota Grebere Consulting a qual será feito o pagamento.

Os documentos do Football Leaks acabam aqui. Pini Zahavi contou-nos o final da história e mostrou-nos documentos que o comprovam. O PSG obrigou-o a apresentar um certificado que prove que tem domicílio fiscal em Israel, e obrigou-o a receber o primeiro pagamento de 1,5 milhões como pessoa individual (sem passar pela sua empresa), numa conta num banco israelita aberta por Zahavi especialmente para esse fim. O agente também assinou uma carta em que disponibilizou dar ao PSG todas as provas necessárias caso as autoridades francesas contestem o não pagamento do imposto de retenção.

Resumindo, Pini Zahavi será taxado em Israel no caso de Neymar, embora ainda não saibamos a que taxa. Segundo o superagente, os seus problemas devem-se aos incompetentes peritos fiscais do PSG que não compreenderam a sua situação: “Insistiram que tinham de aplicar a taxa de retenção e claro que me recusei. Pensaram que [a Gol International] era uma offshore, mas não é uma offshore porque pago impostos em Israel [sobre os rendimentos dessa empresa]. Não conseguiram entender. Agora que me conhecem compreendem, mas é tarde de mais.”

Nasser Al-Khelaïfi com Neymar

Nasser Al-Khelaïfi com Neymar

Xavier Laine

Zahavi ainda está furioso com o PSG por ter sido forçado a receber o dinheiro em nome próprio, mesmo tendo “trabalhado toda a [sua] vida” na sua empresa de Gibraltar. Diz que fez queixa ao presidente do PSG Nasser Al-Khelaïfi e ao seu “advogado principal” num hotel luxuoso em Paris no dia 3 de outubro, logo após o jogo da Liga dos Campeões entre o PSG e o Estrela Vermelha de Belgrado. “Gritei, esperneei no The Peninsula Bar.” Enfurecido, Zahavi afirma que disse estas palavras: “Sou apenas um agente. Mas sem mim não teriam o Neymar e vou levá-lo de volta por causa de tudo isto.”

A estrela brasileira acabou por ficar no PSG e Zahavi afirma que Nasser Al-Khelaïfi reconheceu que o clube o tratou muito mal. Como Pini Zahavi volta a afirmar, nunca “tentou não pagar impostos”.