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Football Leaks. Não há jogadores à borla

O Besiktas usou o fundo Quality Football, ligado a Jorge Mendes, para comprar Hugo Almeida em 2011, apresentando-o como um negócio excepcional. Não ia pagar nada por ele. Mas o clube acabou por descobrir que futebolistas grátis é uma coisa que não existe

De Zeynep Sentek e Craig Shaw, The Black Sea

Hugo Almeida jogou no Besiktas entre 2010/11 e 2013/14

MUSTAFA OZER/GETTY

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Nos últimos dias de 2010 o presidente do Beşiktaş, Yıldırım Demirören, apareceu num canal desportivo turco para anunciar que o clube estava prestes a contratar o avançado internacional português Hugo Almeida. O que foi diferente nesta transferência, disse ele, foi que o Beşiktaş não pagou um cêntimo da transferência de dois milhões de euros do jogador. Em vez disso, o Beşiktaş tinha “usado um fundo para comprar Almeida”. O presidente orgulhosamente declarava que o Beşiktaş era “um clube tão importante que este fundo veio até nós com a oferta".

Dias depois, no início de janeiro, Almeida chegou a Istambul num avião privado de Demirören e assinou um contrato com um sólido salário e benefícios extraordinários que incluíam carros topo de gama, uso de aviões e um apartamento de luxo.

Mas o acordo extraordinário de Demirören acabou por se tornar um pesadelo financeiro para o Beşiktaş. Os documentos obtidos pela revista alemã Der Spiegel e partilhados com o The Black Sea e os outros media parceiros do consórcio European Investigative Collaborations (EIC), incluindo o Expresso, mostram que o contrato assinado pelo Beşiktaş com o tal fundo de investimento continha cláusulas tão restritas que o clube seria obrigado a pagar, três anos depois, não só a transferência por inteiro como também juros elevados.

Os ficheiros também revelam que um dos investidores do fundo era Ali Koç, patriarca da família mais rica da Turquia e vice-presidente à época do clube rival de Istambul, o Fenerbahçe.

Também ligado ao fundo estava o intermediário de Hugo Almeida, o superagente Jorge Mendes, que no mesmo período negociou vários acordos com Beşiktaş e com Demirören, que renderam milhões ao empresário português em comissões indevidas e ilegítimas, como revelado pelo The Black Sea no último fim de semana.

Fundo de Mendes mantém participação minoritária nos direitos do jogador

Hugo Almeida assinou pelo Beşiktaş durante a “onda portuguesa”, quando Demiroren transferiu sete jogadores de Mendes e um treinador também português para o Beşiktaş no intervalo de um ano, entre os verões de 2010 e 2011.

Beşiktaş foi generoso com os contratos para estes portugueses, mas especialmente com Almeida, proporcionando-lhe um salário de 2,5 milhões de euros, bem como uma série de luxos extra, como um Porsche novo, horas de voo em aviões privados, 11 mil euros por mês para um apartamento, bilhetes aéreos em classe executiva e ainda um segundo carro à sua escolha. Mendes também foi bem pago, recebendo uma comissão de 1,5 milhão de euros.

O clube pode ter sentido que estava a poupar dinheiro: não tinha contribuído com nada para a transferência de € 2 milhões paga ao clube alemão Werder Bremen. Em vez disso, a Demirören tinha feito um acordo onde o Beşiktaş comprava Almeida por dois milhões de euros, mas em simultâneo que isso um fundo de investimento chamado Quality Football Ireland Limited comprava 45% dos “direitos económicos” de Almeida ao Beşiktaş pelo mesmo valor. Esta prática, conhecida como Propriedade de Terceiros, Third Party Ownership ou TPO, significava que a QFIL tinha direito a 45 por cento de qualquer transferência futura, se o Beşiktaş vendesse o jogador.

Getty Images

Quando o acordo foi fechado, segundo os documentos dos Football Leaks, Demirören comentou que, com aquele fundo, estavam a abrir uma porta muito importante para o Beşiktaş e para o futebol turco, porque conseguir um jogador de graça era como vendê-lo com lucro.

Em meados de 2010, pouco antes de o acordo de venda dos direitos económicos de Hugo Almeida ser fechado, Peter Kenyon, antigo administrador-executivo do Manchester United e do Chelsea, e o agente Jorge Mendes criaram o Quality Sports Investment (QSI). A informação institucional desta empresa para investidores mostra que o QSI era parcialmente detido pela Gestifute de Jorge Mendes, sendo a outra metade detida pela CAA Sports International, uma agência desportiva líder de mercado. Além disso, Mendes e Kenyon foram assessores do QSI.

O QSI é um elemento-chave numa estrutura de investimento offshore que reúne dinheiro de grupos de investidores e que o dá ao QSI para ser aplicado. O QSI então empresta o dinheiro à Quality Football Ireland Limited e a outras sociedades-veículo para que comprem direitos económicos de jogadores. Desta forma, cada LP possui um grau variado de vários jogadores.

Kenyon e QSI estiveram muito envolvidos na elaboração e na aprovação do Acordo de Participação dos Direitos Económicos (ERPA), assinado com o Beşiktaş a 23 de dezembro de 2010, que concedeu ao fundo 45 por cento do passe de Almeida.

A partilha da propriedade do passe foi confirmada por Demirören perante as câmaras de televisão, quando disse que o Beşiktaş era dono do “jogador por inteiro, [mas] se o jogador for vendido, 55% da transferência vai para o nosso clube”.

Demirören, no entanto, não mencionou informações relevantes. Os Football Leaks documentam em detalhe como o presidente do Beşiktaş não divulgou que tinha assinado um acordo de ERPA por procuração no valor de dez por cento da futura transferência de Hugo Almeida com a agência irlandesa de Mendes, a Gestifute International.

Nos documentos dos Football Leaks, um advogado desportivo que trabalhava para Jorge Mendes, Karish Andrews, explicou que a Gestifute estava a receber 1,5 milhões de euros pela assinatura do jogador com o Beşiktaş e mais 10% pela comissão de venda. De acordo com Andrews, tratava-se de uma comissão sobre uma venda, o que não era o mesmo que direitos económicos, e havia motivos para o Beşiktaş classificar o contrato com a Gestifute dessa forma. Por um lado, Peter Kenyon não levantaria problemas com isso, desde que o Beşiktaş pagasse esses 10% descontando-os apenas da sua parte, isto é, dos direitos económicos do jogador detidos pelo clube. Por outro, ao pagar essa comissão de 10% à Gestifute, a ideia que ficava era de que o Beşiktaş detinha 100% dos direitos económicos do jogador que acabava de contratar.

Mendes não só recebeu por serviços prestados enquanto agente, estabelecidos através de contratos de intermediação indevidos, com o seu fundo QSI estando profundamente envolvido nos direitos económicos de Hugo Almeida, como também tinha 10% do passe do jogador, o que levanta questões sobre conflitos de interesses, sendo que esses interesses não foram dados a conhecer de forma transparente.

JACK TAYLOR

Quando o Beşiktaş avançou com uma oferta, em 2011, para comprar a participação de 45% que a QFIL tinha no passe de Almeida por seis milhões de euros — três vezes mais do que o fundo tinha pago por ele — essa oferta também foi enviada para Peter Kenyon e para o QSI (esse acordo nunca se concretizou).

Demirören não deu a conhecer quase nada disto, nem do que aconteceria se o Beşiktaş não conseguisse vender Hugo Almeida antes do seu contrato de trabalho chegar ao fim, em maio de 2014. À medida que essa data se aproximava, ficou claro que o jogador não estava predestinado a continuar na equipa, Os ficheiros revelam que ele andava a queixar-se de atrasos no pagamento dos seus salários no Beşiktaş e estava disposto a mudar-se para outro clubes.

Não demorou muito para o Beşiktaş perceber que jogadores à borla é uma coisa que não existe.

Uma compensação milionária

Enquanto Demirören confortava os fãs alegando na televisão que “o fundo [QFIL] não pode fazer nada com o jogador sem nos pedir”. O acordo entre as partes, no entanto, sugere que era ao contrário. Uma cláusula estipulava especificamente que o Beşiktaş tinha a responsabilidade de impedir que o jogador ficasse sem agente, caso contrário o clube teria de pagar ao fundo o valor da transferência por inteiro acrescido de juros à taxa de 10% ao ano.

Este acordo foi um dos muitos que a nova administração do Beşiktaş teve de enfrentar depois de Demirören deixar o clube no início de 2012. A cláusula significava que o Beşiktaş recebeu uma conta de 2,75 milhões de euros da QFIL por um jogador que no verão de 2014 já se tinha ido embora.

Dois advogados que analisaram o contrato de Hugo Almeida concordaram que se trata um acordo agressivo. Serhat Yilmaz, professor de Direito do Desporto da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, sublinham ao The Black Sea que o contrato “destaca claramente o nível de poder que um terceiro pode ter sobre a política de transferências de um clube”.

Shervine Nafissi, advogado e doutorando em Direito Desportivo na Universidade de Lausanne, onde se está a especializar em acordos de direitos económicos, diz que o facto do fundo pressionar o clube para transferir o jogador antes do término do seu contrato “vai claramente contra o princípio de estabilidade contratual que está previsto nos regulamentos da FIFA e até mesmo na legislação”. E acrescenta que o contrato é, do princípio ao fim, muito favorável para o QFIL: “[O fundo] nunca fica a perder”. O professor Yilmaz concorda com esse ponto também: "Não há qualquer risco [para o QFIL] com este acordo”.

O Beşiktaş acabou por negociar um acerto de contas com o QFIL a 15 de outubro de 2014, que reduziu o montante da compensação para 2,6 milhões de euros, a pagar pelo clube em 14 prestações.

Outra cláusula do acordo exigia que o Beşiktaş teria de pagar ao QFIL 4,5 milhões de euros se recusasse uma oferta de transferência que o fundo tivesse já aceitado. Esta cláusula de compensação dava ao QFIL um instrumento de pressão relevante e um poder de decisão sobre o clube. Nafissi, o doutorando da Universidade de Lausanne, diz que cláusulas como estas “colocam um clube num grau de dependência grande em relação a terceiros”. E acrescenta: “Assim que a oferta é posta na mesa, o clube tem uma arma apontada à cabeça: ou aceita e perde o seu jogador; ou recusa mas precisa de desembolsar vários milhões para compensar a outra parte”.

Os ERPAs e o papel desempenhado pela Third Part Ownership (TPO) no mercado de transferências tornaram-se um assunto difícil para a FIFA depois que se tornou público que muitos jogadores famosos da Premier League inglesa eram detidos por fundos incorporados em paraísos fiscais e com beneficiários escondidos. Os acordos de TPO também ocultaram conflitos de interesses evidentes, como no caso de Mendes, que esteve envolvido no contrato de Hugo Almeida através de vários esquemas pouco transparentes.

A TPO foi banida pela FIFA em 2015. Mas um ano depois disso o Beşiktaş ainda esta a sentir o efeito disso, já que o fundo QFIL contratou advogados para ir buscar ao clube quase 900 mil euros em comissões que ainda estavam pendentes do acordo de Hugo Almeida.

Um investidor do clube rival

No meio disso tido, ainda houve outro conflito de interesses. O dinheiro usado para comprar os direitos de Hugo Almeida veio de um fundo investimento, o Quality Sports II Investment (QS-II), com sede em Jersey, que por sua vez detinha os direitos económicos do jogador. Documentos dos Football Leaks mostram que o QS-II oferecia dez por cento de rendimento anual para qualquer pessoa que investisse um mínimo de 250 mil euros.

Cópias da lista completa de investidores por detrás do QS-II revelam que entre eles estava um “Yildirim Ali Koc”. Ali Koç é o patriarca da família mais rica da Turquia e vice-presidente do conglomerado de empresas Koç Holding. Na época em que era um investidor do fundo, Koç também era vice-presidente do Fenerbahçe, um clube rival de Istambul, sendo que hoje é o presidente do clube, depois de ter sido eleito em junho deste ano.

O fundo forneceu aos seus investidores actualizações regulares com detalhes sobre os jogadores que estavam na carteira de investimentos, o que significa que Koç deveria saber que tinha dessa forma uma relação financeira com o Beşiktaş e, portanto, tinha com isso um possível conflito de interesses. O Beşiktaş não respondeu às perguntas sobre se estava ciente deste facto. Koç não respondem a nenhum das questões do the Black Sea.