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Football Leaks

Como Mao enredou o Atlético na teia dos jogos combinados

O empresário que comprou a SAD do Atlético Clube de Portugal e a deixou falida está hoje ligado a escândalos de viciação de resultados e negócios obscuros que se estendem à Roménia, Irlanda e Espanha

Costin Stucan e Michael Bird (The Black Sea) com Micael Pereira e Miguel Prado (Expresso)

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O futebol é um negócio complicado para os clubes das divisões de baixo na Europa. O dinheiro escasseia. Por isso, quando um misterioso investidor chinês aparece à porta de um desses clubes com uma oferta de 150 mil euros, ligações ao Extremo Oriente e promessas de jogadores estrangeiros, é uma oportunidade dificilmente recusável para clubes em situação financeira delicada.

A vulnerabilidade de alguns desses clubes tem sido explorada por Eric Mao, um agente FIFA que usa uma rede internacional de contactos para investir em clubes de segundo ou terceiro escalão na União Europeia, com a promessa de trazer talentosos jovens chineses para os relvados europeus. Através da sua empresa, originalmente designada Anping Sports Agency, Mao e os seus sócios estiveram ativos em Portugal, Irlanda, Roménia, Letónia, República Checa e agora também em Espanha.

O agente chinês está no centro de uma rede de combinação de resultados. A sua estratégia é comprar clubes falidos ou em dificuldades e, com pequenos investimentos, contratar os seus próprios jogadores, treinadores e dirigentes, muitos dos quais já envolvidos no passado em casos de manipulação de resultados.

A estratégia de Mao passa por forçar as suas próprias equipas a perder alguns jogos com resultados desnivelados, no âmbito de um esquema ligado a apostadores asiáticos, segundo foi possível apurar.

A Anping foi identificada como “uma fachada para operações ilegais de viciação de resultados”, segundo uma investigação do International Center por Sports Security (ICSS), do Qatar, consultada pelo consórcio EIC (European Investigative Collaborations), de que o Expresso e o The Black Sea fazem parte, que classifica Mao como “líder de um sindicato de apostadores de Singapura”. O EIC tentou contactar Mao e os seus sócios ao longo de mais de um ano, sem sucesso.

Os testemunhos e documentos recolhidos pelo The Black Sea, juntamente com o EIC e seus parceiros, no âmbito da investigação Football Leaks, permitem perceber o modus operandi de Eric Mao: o agente chinês e a sua rede investem num clube, onde ficam entre seis meses e dois anos. Há um padrão: em vários jogos o clube é goleado, os adeptos começam a desistir de ir aos jogos, o clube cai de divisão e vai à falência.

Até hoje os investimentos da Anping e de empresas relacionadas levaram a escândalos de viciação de resultados no Academica Clinceni, da Roménia, e no Athlone Town FC, da Irlanda. Mas também em Portugal, onde deixou o Atlético (de Lisboa) numa situação calamitosa.

Mao trabalha agora como Harry Zhang e é o homem por trás de um clube espanhol da região de Rioja, o Racing Rioja, que alinha num escalão inferior. A sua empresa mudou de nome, de Anping para Beijing Saint Rangers. E, apurou o EIC, Mao e a sua equipa têm também conseguido arregimentar futebolistas para atuarem como árbitros em jogos particulares combinados em Chipre.

O COLAPSO DO ATLÉTICO

Segundo as informações recolhidas pelo EIC, ao negociar a compra de um pequeno clube da República Checa, Eric Mao assumiu pressupostos não muito diferentes dos que viria a assumir no Atlético. Nesse negócio na República Checa o agente chinês previa alimentar o clube com 200 mil euros em 10 meses, pôr jogadores indicados por si a alinhar em jogos particulares e no campeonato, pôr um árbitro nomeado por si a apitar jogos particulares e pôr o treinador a decidir as contratações de acordo com os interesses do novo dono.

A primeira aposta europeia de Eric Mao foi o Atlético Clube de Portugal. O clube lisboeta tinha ascendido em 2011 à segunda liga. E em 2013 os sócios aprovaram a criação de uma sociedade anónima desportiva (SAD), que viria a ser presidida por Xialong Ji, indicado pela Anping, que nesse ano comprou 70% da SAD.

Um relatório da UEFA consultado pelo EIC nota que “foi reportado que [a Anping] investiria uma verba significativa no clube e ajudaria a resolver as suas dívidas”.

Xialong Ji, também conhecido como “Bruce”, era o braço direito de Eric Mao, e liderou o Atlético juntamente com Xinxin “Nancy” Cao. Segundo a UEFA, Bruce Ji tentou influenciar as escolhas da equipa, em colisão com os responsáveis do clube. Ao longo de três épocas no clube português, a Anping levou para o Estádio da Tapadinha 67 jogadores, na sua maioria estrangeiros que chegavam a custo zero.

Um destes jogadores partilhou com o EIC uma das suas conversas com o presidente chinês do Atlético. “Bruce Ji disse-me: 'Vens jogar no meu clube e depois vendo-te para a China'. Eu disse: 'Tudo bem, porque não?'. Mas quando cheguei o treinador não sabia nada de mim, não estava contente. As condições eram terríveis. Os chuveiros tinham baratas. Não joguei um único jogo. Recebi apenas dois meses de salário enquanto lá estive e vim-me embora. Por causa deste clube desisti de jogar futebol.”

Em 2014 a UEFA informou a Federação Portuguesa de Futebol de que Eric Mao era “suspeito” de ter ligações à máfia asiática das apostas. Uma suspeita que se adensava com as transferências para o Atlético de jogadores ligados a esquemas de combinação de resultados.

Entre essas transferências esteve o guarda-redes letão Igors Labuts (mais tarde suspenso após um caso de resultados combinados na Irlanda), o médio Ibrahim Kargbo, da Serra Leoa (que chegou a ser investigado em 2015 na Holanda e posteriormente ilibado). Em junho de 2014 o então treinador do Atlético, Jorge Simão, abandonou o clube ao fim de 12 jogos, fruto das divergências com a administração da SAD.

Segundo um relatório do ICSS, do Qatar, os jogos de 2014/2015 do Atlético evidenciaram “fortes indicadores de viciação”. Foi o caso de um particular que o clube lisboeta disputou a 19 de julho de 2014 na Andaluzia com os ingleses do Charlton, que acabou com o Atlético a perder 2-0. Nenhum dos dois clubes comentou este jogo particular. O atual presidente do Atlético, Ricardo Delgado, disse desconhecer esta situação, por só ter tomado posse em 2017.

O relatório do ICSS é categórico: “Restam poucas dúvidas de que a compra do clube pela Anping foi feita para controlar o alinhamento da equipa e pôr a jogar futebolistas corrompidos, manipulando os resultados dos jogos, para cometer fraudes nas apostas”.

Depois de duas temporadas em queda, a SAD do clube de Lisboa entrou em insolvência, e em 2017 deixou de competir. Em junho do ano passado Mao desapareceu subitamente e nunca mais foi visto, de acordo com o atual presidente do Atlético Clube de Portugal, Ricardo Delgado.

A nova gestão começou a trabalhar em 2017, relançando o clube a partir do quinto escalão (está agora na Divisão de Honra da AFL - Associação de Futebol de Lisboa).

“Em junho/julho de 2017 a administração da SAD, indicada pela referido acionista Anping, desapareceu e não mais voltaram ao Atlético, tal como o senhor Eric Mao, que nunca mais foi visto. A equipa de futebol sénior da SAD deixou de participar nas competições e em novembro de 2017 a AFL puniu a SAD com a exclusão de todas as competições durante duas temporadas”, disse ao EIC Ricardo Delgado.

A 13 de dezembro de 2017 foi deliberada em assembleia geral a exclusão do acionista chinês e foi nomeada uma nova administração. A 27 de fevereiro de 2018, devido à “caótica situação financeira da SAD”, que não apresentava contas desde 2015, foi deliberada a apresentação da SAD à insolvência, que acabou por ser decretada em tribunal a 26 de abril deste ano, explicou ainda Ricardo Delgado.

Quando abriu o processo de insolvência, a SAD do Atlético devia quase 150 mil euros à Segurança Social e mais de 62 mil euros à Autoridade Tributária.

Mas agora, explica Ricardo Delgado, o Atlético “está livre de seguir o seu caminho e espera ir subindo nos escalões do futebol até chegar, de novo, às competições profissionais”.

O presidente do Atlético também disse desconhecer os casos de jogadores envolvidos em manipulação de resultados. “No entanto, e a serem verdade esses factos, é uma situação muito grave. O comentário que nos merece é que tem de haver um controlo mais rigoroso por parte da FPF, Liga e Secretaria de Estado da Juventude e Desporto relativamente à compra e venda de participações em sociedades anónimas. Tem que haver um controlo ou autorização prévia e informação pública que revele quem são os verdadeiros donos das sociedades desportivas, a bem da integridade e da transparência das competições de futebol em Portugal”, declarou Ricardo Delgado ao EIC.

Ouvida igualmente pelo EIC e pelo Expresso, a FPF disse monitorizar o Atlético desde que os chineses tomaram controlo. “Assim que a FPF tomou conhecimento da transformação do Atlético Clube de Portugal Sduq, Lda na sociedade anónima Atlético Clube de Portugal Futebol SAD, através da entrada da sociedade Anping Football Club Limited passou a seguir, no âmbito da monitorização especializada contratada, todas as participações deste clube nas competições profissionais e não profissionais”, indicou fonte oficial da FPF.

Questionada sobre se abriu alguma investigação sobre o Atlético, a FPF diz que “recolheu informações face ao investimento realizado e os jogos desta equipa foram monitorizados por uma empresa especializada [Sportradar] no âmbito das competições profissionais e não profissionais de futebol e futsal em Portugal”.

O SINDICATO

O núcleo duro da Anping integra três cidadãos chineses: Xiaodong Mao (Eric Mao, 36 anos), Xialong Ji (Bruce Ji, 35 anos) e Xinxin Cao (Nancy Cao, 28 anos). Segundo as informações recolhidas pelo EIC, os três viajam frequentemente entre a China e a Europa, com vistos de 90 dias. Eric Mao muda de número de telefone com frequência e costuma ficar hospedado em alojamentos da plataforma Airbnb.

Também ligado a este rede está o agente grego Gavril Papanastasatos, que em 2014 era um dos investidores do clube letão FC Jurmala, tendo em 2015 investido no clube checo MFK Vitkovice. É público que o Jurmala foi investigado pela UEFA por combinação de resultados. Os elementos recolhidos pelo EIC indicam que também o Vitkovice terá participado em esquemas de resultados combinados.

Eric Mao não começou no futebol. Segundo um artigo do Asia Times, o misterioso agente terá já trabalhado como jornalista desportivo de televisão, tendo-se licenciado em História em Pequim. Está registado como agente desportivo na FIFA com morada em Pequim. A sua carreira no futebol internacional arrancou em 2012.

Em julho de 2012 começou a trabalhar com a agência britânica Base Soccer, segundo elementos que constam de um processo judicial que envolve um intermediário britânico e um clube de futebol chinês.

O processo centrou-se na transferência de um antigo jogador do Celtic, Christopher Killen, para o clube chinês Shenzhen Ruby FC. Um agente da Base Soccer solicitou a Eric Mao a sua colaboração para convencer o clube chinês a pagar uma dívida de 60 mil dólares. Confrontada com a sua relação com Eric Mao, a Base Soccer não respondeu às questões colocadas pelo EIC.

AS QUEIXAS

Em 2014 Mao e os seus sócios estavam à procura de clubes no Báltico. O agente grego Gavril Papanastasatos (da agência Football Planet Association), ligado a Eric Mao, investiu no FC Jurmala, que contratou o guarda-redes letão Igors Labuts, antes de este rumar ao Atlético, tendo ainda contratado um defesa letão e sete jogadores argentinos.

Um dos jogadores estrangeiros que alinharam pelo Jurmala contou ao EIC o que aconteceu no clube letão.

“Assinei com um salário de 2 mil euros por mês mas nunca recebi. Acabei cheio de dívidas com esta experiência. Perdi 20 mil euros. Eles não respeitaram o contrato. Papanastasatos ficou a dever-nos muito dinheiro. Apresentei queixa na federação da Letónia antes de sair do clube, mas não aconteceu nada. Ouvi muitas coisas sobre combinação de resultados, mas não estive nesses jogos”.

O Jurmala foi investigado pela UEFA em duas partidas, incluindo uma de 17 de janeiro de 2014, em que perdeu 5-0 contra o HJK Helsínquia. Foi um amigável organizado por Nancy Cao, da Anping, e pela Football Planet, do agente grego.

Sobre a sua ligação a Eric Mao, Papanastasatos respondeu por escrito ao EIC: “Por vezes faço transferências com muitos agentes e outras vezes com uma empresa chinesa, mas não me recordo dos nomes”.

O Jurmala acabou por abandonar o principal escalão de futebol da Letónia, desaparecendo em 2015.

A LIGAÇÃO CHECA

Quando Papanastasatos se tornou investidor no MFK Vitkovice, da terceira divisão checa, os seus laços com a Anping tornaram-se mais claros. O acordo entre o clube e os investidores foi assinado pela empresa Atlético Clube de Portugal – Futebol SA, a mesma designação de uma sociedade das Ilhas Caimão registada por Eric Mao.

Quando questionado sobre esta empresa e a sua ligação aos investidores chineses, o agente grego disse desconhecer o acordo. “Não uso empresas. Uso o meu nome”, declarou.

O defesa romeno Alin Stoica, que em agosto de 2015 foi contratado pelo Vitkovice, admitiu ao EIC que o empresário grego tentou integrá-lo no esquema de manipulação de resultados. O futebolista conta que Papanastasatos o sondou sobre se gostaria de receber um extra, indicando que para isso a equipa teria de perder o seu próximo jogo fora de casa.

Segundo Alin Stoica, o Vitkovice chegou a estar a vencer por 2-0, tendo o adversário conseguido empatar, até que o Vitkovice fez 3-2. Nos minutos finais da partida o adversário esteve quase a empatar a partida, mas Stoica impediu o golo num lance em que o guarda-redes já estava batido. O defesa não foi usado pelo treinador nos três jogos seguintes.

Questionado pelos jornalistas do The Black Sea sobre esta tentativa de corrupção do defesa, o empresário grego respondeu apenas: “Não tenho poder para isso. Tento apenas trabalhar para sobreviver”. E não respondeu a mais questões.

A NOVA AVENTURA EM ESPANHA E OS JOGOS AMIGÁVEIS NO CHIPRE

Em 2016 uma empresa portuguesa chamada Pré Season Unipessoal, detida pelo empresário José Manuel Ameixa dos Anjos Francisco, tornou-se acionista de um clube irlandês dos escalões secundários, o Athlone Town. O empresário português é pai de um antigo jogador do Atlético Clube de Portugal e tornou-se próximo de Bruce Ji, conforme o Expresso já escreveu no artigo “Apostas viciadas no futebol português”, publicado no ano passado.

Em fevereiro de 2017 a Pré Season participou na transferência de novos jogadores ligados aos clubes de Mao e Papanastasatos, incluindo o letão Igors Labuts e o português José Viegas, ambos do Atlético. Também um técnico do Atlético, Ricardo Cravo, e um jogador romeno, Dragos Sfrijan, foram transferidos para o Athlone Town.

A 29 de abril de 2017 o Athlone perdeu 3-1 contra o Longford Town, num resultado visto como suspeito, por seguir padrões dos jogos de apostas nos mercados asiáticos. Em setembro do ano passado Labuts e Sfrjian foram suspensos por um ano pela federação irlandesa. O clube irlandês, que terminou a época passada com um saldo negativo de 50 golos, recusou fazer comentários sobre a sua ligação a Eric Mao. Os jogadores estrangeiros que os novos investidores puseram na equipa já abandonaram o clube irlandês.

Em julho de 2017 Eric Mao investiu num outro clube checo, o FK Mohelnice, através de uma empresa britânica, a Football Investment Limited, que beneficiou de uma injeção de capital através de uma conta bancária portuguesa. Um dos jogadores contratados pelos chegos foi o chinês Dongyang Liu, que já tinha passado pelo Atlético Clube de Portugal.

Em 2018, Eric Mao estava já sob o radar das autoridades. E passou a usar o pseudónimo Harry Zhang, segundo uma fonte ouvida pelo EIC. Em julho deste ano Eric Mao, ou Harry Zhang, estaria a trabalhar a partir da Áustria. Em agosto foi criado em Espanha um novo clube, o Racing Rioja, para disputar um campeonato regional. Será Mao quem está por trás deste clube, segundo as fontes do EIC.

O presidente do Racing Rioja é o futebolista português José Coelho Viegas, que já jogou pelo Athlone e pelo Atlético Clube de Portugal. No início deste ano o futebolista viajou ao Chipre para atuar como árbitro assistente em oito jogos amigáveis. Em pelo menos seis desses jogos, a equipa de arbitragem incluiu um seu antigo colega do Athlone, Kirils Grigorov. Nenhum dos dois está registado como árbitro. José Coelho Viegas não quis prestar declarações sobre o sucedido.