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Football Leaks

A história da caça aos Wolves - e a Jorge Mendes e à Fosun

O atual chairman chinês do Wolverhampton foi nomeado administrador da holding de Jorge Mendes um mês antes de comprar o clube para a Fosun. Football Leaks revelam que o plano desde o início era adquirir uma equipa apenas para o benefício da aliança dos chineses com o agente

Micael Pereira e Miguel Prado

Sam Bagnall - AMA

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A história da aliança entre o superagente Jorge Mendes e os donos chineses do Wolverhampton Wanderers, o clube-sensação em Inglaterra que subiu esta época à Premier League, inspirou muitos artigos de jornal nos últimos dois anos. Desde a primeira hora, quando o clube passou a ser detido pelo grupo de investimento chinês Fosun, que essa joint-venture move ódios e paixões.

Seis dos 11 jogadores mais valiosos do plantel e também o treinador, todos eles portugueses, foram contratados através de Mendes, num total de quase 80 milhões de euros gastos em transferências desde 2016, já incluindo a recente aquisição do guarda-redes Rui Patrício. O New York Times resumiu a fórmula num título em 2017: “Os donos trouxeram o dinheiro. O agente entregou os jogadores.” Em plena maré de êxitos, e ainda mais desde que a equipa subiu de divisão este verão, o Wolves tornou-se “the ultimate Portuguese all-star team”. Para os clubes rivais, no entanto, uma questão intrigante continua por esclarecer: como é possível que não tenha havido nenhuma violação formal das regras quando existe, na prática, um conflito de interesses no facto de o grupo Fosun ser dono do clube e, ao mesmo tempo, sócio dos negócios do agente?

Dezenas de documentos obtidos pela revista alemã Der Spiegel junto da plataforma Football Leaks e partilhados com o consórcio EIC, de que o Expresso faz parte, mostram até que ponto a Fosun contorceu a realidade para que, formalmente, o Wolves não violasse o regulamento da Football Association, o equivalente em Inglaterra à Federação Portuguesa de Futebol, enquanto nos bastidores admitia perante a equipa de Jorge Mendes que o único interesse na compra do clube inglês tinha a ver com a parceria estabelecida com o agente.

Até ao momento, nem a English Football League (EFL), que gere o campeonato inglês (o nome que dão à segunda liga), nem a Football Association (FA), que gere a Premier League, barraram o Wolves por violação das regras sobre conflito de interesses.

Em julho de 2016, poucos dias antes da aquisição do clube ter sido anunciada publicamente, o responsável da Fosun para a área do desporto e atual presidente executivo do Wolverhampton Wanderers, Jeff Shi, estava ciente de que o investimento no Wolves era justificado pela aposta e confiança em Jorge Mendes. Quando o Wolves chegasse à Premier League, Mendes poderia ter no clube uma fonte de receitas segura e duradoura.

Já antes, em agosto de 2015, segundo um documento encontrado nos Football Leaks, e quando ainda estava a ser preparada a entrada dos chineses nas empresas do intermediário português, Jeff Shi tinha posto as coisas de forma clara junto dos seus futuros sócios: se a Fosun fizesse algum negócio com um clube de futebol, seria apenas para o benefício futuro da aliança do grupo com Mendes.

Foi Jeff Shi quem tomou a iniciativa de, em outubro de 2014, estabelecer um primeiro contacto entre a Fosun e a Start SGPS, a holding portuguesa de Jorge Mendes através da qual o empresário é dono da Gestifute, empresa de gestão de carreiras desportivas, e também da Polaris, a sua agência de exploração de direitos de imagem.

Os documentos mostram que este gestor chinês apresentou-se na altura como administrador-executivo da divisão de investimento para a área do desporto do grupo Fosun, que por sua vez foi descrito por ele como a maior instituição e investimento privado na China (em Portugal é hoje o maior accionista do BCP e dona da seguradora Fidelidade). Quando a 12 de novembro de 2015 o acordo para a compra de 15% da Start SGPS foi finalmente assinado, Shi festejava isso assumindo-se perante os seus novos parceiros como um membro da família Gestifute.

O regulamento da FA, que também é seguido pela EFL, impõe que uma entidade dona de um clube não pode ter nenhum “interesse” nos negócios de um intermediário, sendo o “interesse” definido como uma posição de mais de 5% nas empresas de um agente. Por outro lado, também diz que um agente não pode ser accionista de um clube nem “estar numa posição ou ter qualquer associação que possa permitir o exercício de uma influência material, financeira, comercial, administrativa, de gestão ou de qualquer outra forma relacionada com os assuntos do clube, direta ou indiretamente, seja formal ou informalmente”.

Numa resposta escrita enviada ao EIC, a FA assegurou que os seus regulamentos são “rigorosos” em relação a “todas as atividades de futebol” relacionadas com agentes. Neste caso também: “Obtivemos a confirmação do Wolverhampton Wanderers e de todas as partes relevantes, incluindo o Sr. Mendes, sobre a venda do clube em 2016 e o cumprimento continuado dos regulamentos da FA sobre o trabalho com intermediários”.

Também confrontada, a EFL remeteu um comunicado divulgado a 25 de abril de 2018, quando, depois de uma queixa apresentada pelo Leeds United, a ELF anunciou que tinha revisto o dossiê e garantiu não haver nada de irregular na relação de Mendes com o clube. Uma semana antes disso, o diretor executivo do Wolves, Laurie Dalrymple, tinha admitido numa entrevista à BBC o que era público e notório: Mendes dá conselhos aos donos do clube e ao treinador, Nuno Espírito Santo, ele próprio um cliente de longa data do agente, e daí?

Jogadores pré-negociados

Helder Costa e Ivan Cavaleiro, dois jogadores com marca Mendes

Helder Costa e Ivan Cavaleiro, dois jogadores com marca Mendes

Martin Rickett - PA Images

Quase dois anos antes, a 7 de julho de 2016, quando a aquisição do clube estava prestes a ser concretizada, o departamento jurídico da EFL tinha pedido informações aos advogados ingleses da Fosun, para se certificarem de que não havia nenhuma violação das regras da FA sobre conflito de interesses. Em resposta à EFL, os chineses asseguravam que não só Jorge Mendes não iria ter qualquer influência no Wolves como a administração iria adotar procedimentos para avaliar e escolher de forma independente os jogadores a serem transferidos.

Quatro dias antes de essa garantia ser dada, Jez Moxey, o então CEO do Wolves, informava o ainda dono do clube, Steve Morgan, que três futebolistas, todos eles portugueses, tinham aceitado serem contratados e havia valores em cima da mesa para os seus salários. Eram Ivan Cavaleiro e Hélder Costa, ambos a jogar no Mónaco na altura, e Péle, que estava no Paços de Ferreira.

A Fosun queria que o Wolves assinasse com esses jogadores, em regime de empréstimo, ainda antes de a aquisição do clube estar finalizada e quando ainda estava a ser pensado quem seria o futuro treinador. Os três eram jogadores de Mendes. Steve Morgan respondeu a Jeff Shi, dizendo-lhe que enquanto não houvesse um acordo de venda assinado com a Fosun ninguém iria contratar futebolistas que estivessem fora do plano da equipa para aquela temporada — o que era o caso daqueles três nomes.

Jeff Shi informou então Luís Correia e Valdir Cardoso, um gestor da Gestifute, a agência de Mendes especializada em transferências de futebolistas, de que tinham de esperar. Shi pediu a Cardoso para segurar os jogadores e disse-lhe que no dia seguinte falaria com Mendes.

Na semana seguinte, a 14 de julho, a EFL insistia e sugeria aos advogados da Fosun que fossem criadas barreiras entre o clube e os negócios de Jorge Mendes, para prevenir que o agente tivesse influência precisamente nas transferências, assegurando assim que não haveria violações indiretas do regulamento. A resposta não podia ser mais simples: se Mendes quisesse vender algum jogador, a administração decidiria de uma forma independente se o havia ou não de comprar. O argumento, aparentemente, foi aceite.

Hélder Costa acabou por ser emprestado pelo Benfica a 29 de julho, oito dias depois de os chineses anunciarem a compra do clube, sendo que o jogador foi comprado seis meses depois por 15 milhões de euros. Ivan Cavaleiro foi transferido do Mónaco a 31 de agosto por oito milhões de euros. E Péle nunca foi para o Wolves — está agora no Mónaco.

Questionado pelo EIC sobre até onde vai a relação do clube com Jorge Mendes, o Wolverhampton disse, através do gabinete de imprensa, que não tem comentários a fazer: “Esclarecemos a nossa posição várias vezes e a situação mantém-se inalterada”.

Num email enviado ao EIC, Steve Morgan negou ter tido “qualquer conhecimento de que Shi ou a Fosun tentou comprar jogadores” antes de adquirir o Wolves. “Não me apercebi que tenha havido qualquer violação das regras da FA”, sublinhou o empresário.

Nem Jeff Shi nem nenhum dos outros gestores da Fosun contactados pelo EIC responderam às perguntas que lhes foram enviadas. Também Jorge Mendes e o seu sobrinho Luís Correia optaram por não responder.

Uma nomeação não divulgada

Um dos detalhes não conhecidos até agora sobre a aliança com o agente é o facto de o atual chairman executivo do Wolves ter chegado a ser nomeado administrador da Start SGPS em Portugal em representação da Fosun. Embora o foco sobre o potencial conflito de interesses em Inglaterra tenha estado sempre no papel desempenhado por Mendes no Wolves, o regulamento da Football Associational também funciona no sentido inverso: “Nenhum funcionário ou gestor de um clube de futebol” pode estar “numa posição” capaz de influenciar de alguma forma um intermediário.

A 20 de junho de 2016, Jeff Shi (Shi Yu, na versão chinesa do seu nome) foi nomeado como um dos três administradores da holding portuguesa de Jorge Mendes para o período 2016-2019, ao lado dos nomes de Carlos Osório de Castro e Luís Correia, substituindo no cargo Sandra Mendes, a mulher do agente, de acordo com a ata da reunião (número 22) desse dia da assembleia geral da Start SGPS, que o Expresso obteve numa conservatória do registo comercial.

Nos Football Leaks há uma outra ata, de uma reunião (número 23) da Start SGPS ocorrida quatro dias depois, a 24 de junho, em que o ponto único foi a renúncia de Jeff Shi do cargo de administrador e a sua substituição por Pan Donghui, também conhecido por Andy Pan e que é vice-presidente da Fosun e responsável máximo pela área de media e entretenimento do grupo.

A nomeação e a renúncia de Jeff Shi nunca foram requeridas ao registo comercial em Portugal, onde o Expresso só encontrou a ata anterior sobre a sua nomeação e uma ata já muito posterior, um ano e meio depois, relativa a uma reunião de 14 de dezembro de 2017, em que Andy Pan surge como se tivesse sido administrador “em plenitude de funções desde o início do mandato” para o período 2016-2019, não havendo qualquer referência à nomeação de Jeff Shi.

Os Football Leaks mostram também que Andy Pan não entregou logo os elementos que eram precisos para ser administrador de uma empresa em Portugal. Só a 19 de maio de 2017 é que esses elementos foram finalmente enviados pela Fosun para a Start SGPS, juntamente com um outro documento: a carta de renúncia de Jeff Shi, assinada com data de 24 de junho do ano anterior.

A 22 de maio de 2017 uma funcionária da Fosun questionava a equipa de Mendes sobre que tipo de responsabilidade poderia ter Andy Pan como administrador da Start. A pergunta era feita dez meses depois da data em que a Start indicou ter nomeado Pan.

Donos que não são donos?

Sam Bagnall - AMA

A substituição do chairman do Wolves na administração da holding de Jorge Mendes não foi a única manobra usada para evitar problemas com as regras da Football Association. Havia ainda a circunstância de em Inglaterra um clube de futebol, ou o seu dono, não poder ter mais de 5% de um intermediário. E a Fosun tinha comprado 15% da Start SGPS, a holding que concentrava os negócios de Jorge Mendes.

O contrato de compra desses 15% foi assinado em novembro de 2015 por Andy Pan, em representação da Foyo Culture & Entertainment Co., Ltd, uma subsidiária da Fosun sediada em Hong Kong e que é, na verdade, o maior veículo de investimento do grupo para a área da cultura e da internet.

Mas um mês e meio depois, a 23 de dezembro de 2015, num acordo complementar assinado com o agente, a Foyo foi substituída por duas companhias incorporadas no Reino Unido: a Foyo Culture & Entertainment (UK) Ltd e a Champion Start (UK) Ltd. A ideia era ninguém poder vir dizer mais tarde que, pelo menos do ponto de vista formal, a empresa que se tornou sócia de um intermediário era a mesma que depois veio a adquirir um clube de futebol. De acordo com os documento do Football Leaks, Jeff Shi admitiu na altura que este arranjo tinha como único propósito evitar pagar impostos e contornar os regulamentos.

O esquema foi construído como uma cascata. Assim, a Foyo UK foi criada como uma subsidiária da Foyo de Hong Kong e comprou 0,83% da Start SGPS, enquanto os restantes 14,17% da holding de Mendes foram adquiridos pela Champion Start UK, uma subsidiária da Champion Start HK, também sediada em Hong Kong e detida pessoalmente por Liang Xinjun, CEO da Fosun e administrador da Foyo. No acordo complementar de dezembro de 2015 estava escrito que a Foyo UK, apesar de só comprar 0,83% das ações, ficava com todos os direitos relativos aos 15%, incluindo o direito de nomear um administrador.

Entretanto, Jorge Mendes recebeu 18 milhões de euros dos chineses no final de 2015 pela venda dos 15% da sua holding portuguesa. Era um preço provisório, tendo ficado escrito que um preço definitivo seria estabelecido durante 2016, depois de se fazer uma nova avaliação às suas empresas quando fossem já conhecidos os resultados financeiros de 2015 (segundo os documentos do Football Leaks, a Start SGPS veio a distribuir 15 milhões de euros de dividendos nesse ano).

De acordo com uma declaração datada de 4 de novembro de 2016, assinada por Carlos Osório de Castro no seu papel de administrador da holding pessoal de Mendes — a Start BV, na Holanda, através da qual é accionista da Start SGPS em Portugal —, o agente acabou por receber ao todo 41,7 milhões de euros pela venda de 15% do seu grupo de empresas. Segundo essa declaração, além dos 18 milhões de euros que foram pagos em dezembro de 2015 como preço provisório, a Start BV recebeu mais três milhões da Foyo UK a 21 de outubro de 2016 e 20,7 milhões da Champion UK a 2 de novembro. Isso significa que o grupo empresarial de Mendes foi reavaliado em alta pelos chineses, de 120 milhões de euros em 2015 para 278 milhões de euros em 2016.

Evitar uma investigação

Só parecia haver um pequeno problema. Pelo meio, a 20 de outubro de 2016 a Champion Start UK vendeu 0,97% das ações da holding portuguesa de Jorge Mendes à Foyo UK (que passou a ter 1,8% da holding, enquanto a Champion UK passou a ter 13,2%) por três milhões de euros, por razões que o Expresso não conseguiu apurar, mas a operação não foi reportada às autoridades financeiras do Reino Unido. O reporte dessa transação era obrigatório, tendo em conta que a Champion UK e a Foyo UK eram consideradas partes relacionadas.

Cinco meses depois, a 20 de abril de 2017, Xu Fun, administrador financeiro da Foyo em Hong Kong explicava à equipa de Jorge Mendes que esta subsidiária da Fosun estava na iminência de apresentar publicamente as contas de 2016 e que o auditor da empresa chamara a atenção para o facto de aquela transação entre partes relacionadas em Inglaterra não ter sido reportada às autoridades britânicas e que isso iria, muito provavelmente, chamar a atenção dos reguladores financeiros, podendo levar à abertura de uma investigação. Se isso acontecesse, seria um grande problema para a Foyo, admitia Xu Fun.

Para evitar uma investigação das autoridades, o administrador chinês pedia então aos advogados de Mendes para assinarem uma carta que assumisse que os três milhões de euros pagos pela Foyo UK em outubro de 2016 à Start BV, a holding pessoal do agente na Holanda, estavam relacionados com os 0,97% de ações que passaram nesse mês da Champions UK para a Foyo UK. O pedido de ajuda foi atendido. No dia seguinte, os chineses receberam um documento sem data, assinado por Carlos Osório de Castro, em nome da Start BV, em que era dito isso mesmo: “Esta carta serve para certificar que recebemos 3 milhões de euros directamente da Foyo UK a 21 de outubro de 2016. O único propósito deste pagamento foi comprar mais 0,97% de ações da Start SGPS, S.A., que eram detidas originalmente pela sociedade Start BV”.

Confrontada pelo EIC sobre a aparente contradição entre o que diz a carta e a venda efetiva de ações entre partes relacionadas, a Start BV (que mudou entretanto para Start SE) respondeu através do administrador Eric Davids: “Com base no meu conhecimento bem como em informações disponíveis publicamente, não vejo nenhum razão para que uma transação de ações regular como essa seja questionada ou tenha de ser explicada.” Carlos Osório de Castro, advogado e administrador das holdings de Mendes na Holanda e em Portugal, recusou-se a responder às perguntas do EIC.

Uma versão mais curta deste artigo foi publicada na edição em papel do Expresso de 17 de novembro de 2018.