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Football Leaks

Como o FC Porto perdeu o talentoso Oscar Bobb

Documentos dos Football Leaks mostram que a FIFA rejeitou, por suspeitas de violação das regras de proteção de menores, todas as tentativas do FC Porto para poder ficar com um jogador norueguês desde que ele tinha 12 anos. Agora, prestes a fazer 16 anos, vai jogar no Manchester City

Micael Pereira, Miguel Prado e Anders Christiansen (VG) (texto), TIAGO PEREIRA SANTOS E JOÃO MELANCIA ( ILUSTRAÇÃO)

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Oscar Bobb é um nome conhecido entre os adeptos do Vålerenga, na Noruega. Atualmente com 15 anos, o jovem futebolista é encarado no clube como uma grande promessa. Já apareceu desde 2014 em várias reportagens do canal de televisão mais visto no país, a TV2, depois de as suas capacidades técnicas e o seu estilo terem feito com que começasse a ser encarado como um pequeno Messi. Nesta altura do campeonato, no entanto, era suposto Oscar Bobb estar a jogar nos juvenis de uma outra equipa: o FC Porto. E não é por falta de esforço que não está. Bobb chegou a vestir a camisola dos dragões em Portugal, mas o clube não conseguiu segurá-lo. A FIFA decidiu em 2016 não autorizar a sua inscrição como atleta federado por suspeitas de que o FC Porto estava a violar as regras de proteção de menores daquela organização.

Segundo os regulamentos da FIFA, a transferência internacional de jogadores só é permitida a partir dos 18 anos. Antes disso, há um período de transição entre os 16 e os 18 em que a transferência é permitida entre países da União Europeia e mediante certas condições, relacionadas com garantias relacionadas com alojamento, orientação e formação académica. Para os menores de 16 anos, podem ingressar numa academia de futebol no estrangeiro apenas no caso em que os pais ou a pessoa que tem a sua custódia se mudem para esse país por razões que não tenham nada que ver com futebol. Ou seja, o clube que recebe o jogador não pode, de forma nenhuma, ser responsável por criar condições para os pais se instalarem no país.

A FIFA não ficou convencida de que a mudança da família de Oscar Bobb no outono de 2015 para Portugal não tenha sido preparada e organizada pelo FC Porto, de acordo com documentos desse processo que foram obtidos pela revista alemã “Der Spiegel” junto da plataforma Football Leaks, partilhados com o consórcio EIC (European Investigative Collaborations) e analisados pelo jornal norueguês VG e pelo Expresso.

Os documentos mostram que, após o chumbo da ida de Oscar Bobb para o FC Porto, o departamento jurídico do clube esteve empenhado na tentativa de manter o atleta em Portugal já depois de deixar de vestir de azul e branco. Essa tentativa aconteceu após a transferência de Bobb em janeiro de 2017 para a escola de futebol Hernâni Gonçalves, sediada no Porto, mas também acabou por falhar.

DESCOBERTO NO ALGARVE

Tudo começou em março de 2013, quando Oscar Bobb participou num torneio de futebol no Algarve, o Mundialito, e logo nessa altura, quando tinha ainda nove anos, os seus dribles e remates certeiros impressionaram os olheiros do FC Porto, que contactaram a mãe da criança, Turid Gunnes, durante o evento. À época, jogava na academia do Lynn, em Oslo.

O FC Porto passou a pagar viagens para Bobb poder visitar o clube e em outubro de 2015 a mãe, Turid Gunnes, acabou por se mudar para Portugal. O menor tinha entretanto feito 12 anos.

A 24 de novembro de 2015, a mãe assinou uma declaração para que o filho pudesse ser inscrito na Federação Portuguesa de Futebol e na qual assegurava estar tudo em ordem. “Imigrei para Portugal por motivos não relacionados com a atividade do meu filho Oscar Bobb, titular do passaporte número (…), nascido a 12 de julho de 2003, mas sim por motivos relacionados com a minha atividade profissional”, dizia a declaração. Esse e outros documentos foram remetidos em janeiro de 2016 para a Federação Portuguesa de Futebol, que os reencaminhou para a FIFA, para que o futebolista tivesse luz verde para passar a ser federado em Portugal e participar assim no campeonato nacional de juvenis. Mas o pedido foi rejeitado.

A mãe de Bobb é atriz e professora de representação. Num longo questionário a que se submeteu mais tarde sobre a sua vinda para Portugal, explicou que depois de ter começado a interessar-se por projetos comunitários de cariz social e de ter conhecido em Oslo uma portuguesa que fazia parte da Direção-Geral das Artes, acabou por visitar em 2013 uma iniciativa de teatro comunitário no Porto e mais tarde, em 2015, conseguiu começar a trabalhar para uma academia de teatro e dança em Vila Nova de Gaia. Turid Gunnes frisou que foi na sequência dos seus contactos profissionais em Portugal que o filho foi depois treinar para o FC Porto e não o contrário, mas a FIFA não acreditou nessas explicações, tendo em conta a relação intensa do miúdo com o clube iniciada em 2013.

A família continuou no Porto, de qualquer forma, e em janeiro de 2017 o jovem jogador entrou para a Associação Juvenil Escola de Futebol Hernâni Gonçalves. No mês seguinte, a mãe submeteu um novo pedido de aprovação à inscrição de Bobb como federado e a FIFA escreveu à escola a pedir que a instituição atestasse que não tinha qualquer relação formal ou informal com o FC Porto. Duas semanas depois, o presidente da associação declarava numa resposta por escrito que não havia nenhuma ligação ao clube — nem financeira, nem profissional.

UMA AJUDA NOS BASTIDORES

O problema manteve-se. Para o juiz da FIFA que apreciou o caso, a mudança da mãe do jogador para Portugal tinha como motivo o futebol e com base nisso recusou emitir um certificado de transferência internacional para Bobb. A família apresentou então um recurso ao TAS/CAS (Tribunal Arbitral du Sport / Court of Arbitration for Sport), o tribunal internacional do desporto sediado na Suíça.

E é aqui que as coisas se tornam no mínimo estranhas. Apesar de a escola Hernâni Gonçalves ter garantido não possuir nenhuma relação com o FC Porto — e de essa relação de facto não existir do ponto de vista formal, tendo em conta os registos da associação consultados pelo Expresso —, os documentos dos Football Leaks revelam que o recurso para o tribunal internacional do desporto foi feito com a ajuda do responsável pelo departamento jurídico dos dragões, Nuno Santos Rocha, que trocou correspondência de forma frequente sobre o assunto com um escritório de advogados da Irlanda na preparação de respostas para perguntas que o tribunal pudesse vir a colocar.

A decisão do tribunal não consta do Football Leaks, mas o jornal VG confirmou que a FIFA ganhou o processo e Oscar Bobb regressou à Noruega para alinhar pelo Vålerenga.

O recrutamento irregular de futebolistas menores de idade pode dar multas pesadas para os clubes. Em 2014, o Barcelona teve de pagar 1,5 milhões de euros por ter violado as regras no caso de dez jogadores, ficando sujeito a uma pena acessória de suspensão por um ano de transferência de futebolistas menores de idade.

Entretanto, segundo várias fontes contactadas também pelo VG, Bobb já tem o seu futuro próximo garantido no Manchester City. É para lá que o jovem será transferido assim que fizer 16 anos, dentro de alguns meses. O VG contactou a mãe do jogador, mas Turid Gunnes não se mostrou disponível para falar sobre o assunto. O Expresso contactou o FC Porto, que também não respondeu às perguntas enviadas sobre o assunto.