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Football Leaks

A entrevista a Rui Pinto, na íntegra: “Tenho medo de entrar numa prisão portuguesa, principalmente em Lisboa, e não sair de lá vivo”

Depois de o seu advogado francês, William Bourdon, ter assumido na semana passada que Rui Pinto é “John” — o whistleblower por detrás de 70 milhões de documentos do Football Leaks —, o português deu uma entrevista à Der Spiegel, ao Mediapart e ao canal público alemão NRD no seu apartamento em Budapeste onde se encontra em prisão domiciliária, para responder às acusações de que é alvo em Portugal

Rafael Buschmann e Michael Wulzinger (Der Spiegel), Yann Philippin (Mediapart), Hendrik Maaßen e Nino Seidel (NDR)

Maria Feck

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Budapeste. A enorme porta que leva ao pátio de um velho prédio de habitação só pode ser aberta através de um código de acesso com múltiplos dígitos. A escada é fria e escura. No segundo andar, um portão de segurança bloqueia os escassos metros que levam ao apartamento de John. É aqui que vive, em prisão domiciliária, o whistleblower por trás do Football Leaks, o homem que abalou o mundo do futebol nos últimos três anos como um fantasma, usando o nome de código “John”. Os dados fornecidos por “John” levaram a revelações extraordinárias e resultaram em inúmeras investigações por toda a Europa. O whistleblower entregou mais de 70 milhões de documentos — muitos deles identificados como confidenciais — à revista Der Spiegel, que partilhou o material com o consórcio de jornalismo de investigação EIC (European Investigative Collaborations), de que o Expresso faz parte. O Football Leaks é a maior fuga de informação até hoje. O verdadeiro nome de John é Rui Pinto; o seu advogado revelou a identidade do whistleblower depois de ele ter sido detido. Este português de 30 anos espera agora por uma decisão de um tribunal húngaro. Pode ser extraditado para Portugal, onde sente que a sua própria vida está ameaçada. Rui abre o portão. Sorri timidamente. Está de chinelos e a perna da calça tem um alto no tornozelo esquerdo. “É a minha nova amiga”, diz, apontando para a pulseira eletrónica. Tem um transmissor. O whistleblower só pode sair do apartamento para ir até ao portão. A Der Spiegel viajou até Budapeste com o canal de televisão pública alemão NDR e o o jornal francês Mediapart. Durante dois dias, Rui falou sobre a sua vida como whistleblower e sobre as acusações que enfrenta. O apartamento é pequeno. Ao lado do sofá da sala está uma cama raquítica. É aqui que dormem os pais de Rui. Vieram de Portugal para lhe dar apoio emocional.

É um hacker?
Não me considero um hacker, mas um cidadão que agiu em nome do interesse público. A minha única intenção era revelar práticas ilícitas que afetam o mundo do futebol.

Pode dizer-nos como conseguiu mais de 70 milhões de documentos confidenciais e, nalguns casos, bastante delicados sobre a indústria internacional de futebol?
Iniciei um movimento espontâneo de revelações sobre a indústria do futebol. Não sou o único envolvido. Ao longo do tempo, mais e novas fontes foram aparecendo e partilhando material comigo e a base de dados foi crescendo. Isto mostra que há muita gente preocupada com este assunto.

O mandado europeu emitido pelo Ministério Público português em seu nome e que levou à sua detenção há duas semanas acusa-o de cibercrime. Tem a ver com o clube Sporting e com a publicação de mails confidenciais em 2015. O que tem a dizer disso?
Estou pronto para explicar perante as autoridades judiciais quando for a altura certa, mas nego essa descrição.

Para além disso, é acusado de usar conhecimentos privilegiados para chantagear a Doyen Sports no outono de 2015.
A única razão pela qual contactei a Doyen foi para confirmar a ilegalidade das suas ações, com base na quantidade de dinheiro que estivessem dispostos a pagar para que os documentos não fossem divulgados.

Isso não é um jogo. Parece chantagem.
Queria perceber o quão valiosos e o quão importantes eram os documentos e a informação eram para a Doyen. Achei que conseguia descobrir se soubesse o quanto a Doyen estava disposta a pagar pelo meu silêncio. Nunca foi minha intenção aceitar o dinheiro. Só queria expor a Doyen.

Até arranjou um advogado que iria tratar do negócio por si. Ele encontrou-se com o diretor-executivo da Doyen.
É verdade. Quis perceber quanto lhe ofereciam. Enquanto ele negociava, eu continuei a ler os documentos. Enquanto o fazia, dizia para mim mesmo: Se os deixo comprarem-me agora, não valho mais que todos estes esquemas. Por isso escrevi à Doyen e disse-lhes para ficarem com o dinheiro. Não me pagaram um único cêntimo. O que fiz foi muito ingénuo. Olhando para trás, arrependo-me. Mas repito, nego ter cometido qualquer crime.

Diz-se que os investigadores em Portugal suspeitam que deu ao FC Porto mails incriminatórios do rival Benfica. A publicação desses documentos incendiou Portugal e mergulhou o Benfica numa crise. Teve alguma coisa a ver com isso?
Não li nenhuma declaração das autoridades sobre uma relação entre mim e o escândalo do Benfica. Uma revista publicou a história do Benfica no outono passado. Mudou a minha vida. A minha fotografia estava nas capas dos jornais por todo o país. A minha conta de Facebook e o meu mail foram inundadas com ameaças de morte.

Alguma vez ganhou dinheiro com o conhecimento que tinha dos crimes relacionados com a indústria do futebol?
Sei que esses rumores existem em Portugal. Para lhe dar uma resposta direta: não, nunca.

Recebeu ofertas para revelar os seus dados?
Várias. Uma vez recebi um mail anónimo que me oferecia mais de meio milhão de euros. Recusei todas, porque nunca agi com o propósito de ganhar dinheiro, mas sim com base no interesse público.

O advogado que negociou com a Doyen em seu nome em 2015 já o tinha representado antes numa disputa com o Caledonian Bank nas Ilhas Caimão. Os jornais portugueses dizem que roubou 300 mil dólares desse banco. É verdade?
No final, não recebi nenhum dinheiro desse banco. Não é que tenha roubado o dinheiro, essa não é a verdadeira história.

Qual é então a verdadeira história?
Não estou autorizado a falar sobre essas circunstâncias específicas porque assinei um contrato de confidencialidade com o banco. Uma coisa é certa: Se tivesse cometido um crime, o banco ter-me-ia levado a tribunal. O caso nunca foi a tribunal e o meu registo criminal está limpo até hoje, em Portugal e em qualquer parte do mundo.

Comprou uma guerra com o Caledonian Bank?
Naquela altura, os bancos em Portugal estavam a falir; as pessoas perderam as suas poupanças de uma hora para a outra. Ao mesmo tempo, cada vez mais dinheiro desaparecia da Europa. Era claro que algo de errado se passava. Quis perceber melhor o que se passava. Quis perceber o sistema das offshore.

E o que descobriu?
Exemplos de como retirar quantias enorme de um país e transferir o dinheiro para contas em vários paraísos fiscais. Quanto mais investigava, mais percebia a injustiça.

Esse tipo de dados pode ser muito interessante para investigadores tributários.
Eu sei. Foi por isso que os guardei. O conjunto dos dados tem um potencial parecido com o dos Panama Papers. Mostra como as Ilhas Caimão eram sistematicamente usadas para lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

O que aconteceu a essa informação?
Gostaria de a partilhar com as autoridades. Os documentos revelam claramente os testas de ferro, os banqueiros, os cúmplices e os adjuvantes à fraude fiscal.

Opositores do Football Leaks acham que os seus documentos não deveriam ser usados, porque foram obtidos de forma ilegal.
E outros afirmam que os dados foram manipulados, falsificados ou retirados de contexto. Assim, dizem eles, não podem servir de prova em tribunal. Acho que isso é ridículo. Os documentos são verdadeiros. Isso é o importante. Isso e o seu conteúdo.

Tinha alguma razão especial para obter esses dados?
Procurei quem eram os protagonistas chave no negócio desonesto do futebol, que agentes e consultores estavam mais vezes envolvidos em negócios desonestos. Queria expor esses negócios.

Maria Feck

Principalmente no início da pesquisa do Football Leaks, tinha imensos documentos sobre o Cristiano Ronaldo. Porquê ele?
Em primeiro lugar, o Ronaldo é o meu jogador preferido, penso que é o jogador mais completo da história do futebol. Contudo, o seu comportamento fora do campo tem de ser julgado de modo diferente. Em termos do direito penal. Para isso, o Football Leaks é e foi muito relevante. Não interessa se o nosso jogador preferido ou o nosso clube preferido são afetados. O Football Leaks mostra a sua imparcialidade.

Vê alguma diferença entre um whistleblower e um hacker?
Não me considero um hacker, utilizo o computador como qualquer outro. Para além disso, não penso que faça diferença se alguém passa documentos incriminatórios de uma empresa para o público ou se o fazem com material que receberam de fora. No fim de contas, são whistleblowers que expõem negócios que, de outro modo, ficariam escondidos da sociedade: crimes, delitos e má conduta. Na melhor das hipóteses os whistleblowers acendem um debate público e desencadeiam uma investigação por parte das autoridades.

Alguma vez sentiu que estava a cometer uma ilegalidade?
Não, até agora não. Ao longo dos anos, o Parlamento Europeu, jornais por toda a Europa e muitas autoridades examinaram os meus dados. Estou convencido que fiz a coisa certa.

Alguma vez teve dúvidas?
Sim. Principalmente porque nem sempre concordei com o resultado. As autoridades, em particular, desapontaram-me várias vezes. Vejam a evasão fiscal sistemática da indústria do futebol em Espanha. Os investigadores, quase sempre, ficaram felizes por encaixar uns milhões de euros e nunca aprofundaram realmente a raiz do mal. Agentes, advogados, banqueiros: todos continuam incontestados. No entanto, são eles que puxam os cordelinhos; são eles que inventam estes esquemas fraudulentos.

Como reagiu?
Continuei. Queria aumentar a pressão às autoridades e à sociedade. Acreditava que algum dia alguma coisa teria de mudar.

Disse que os seus ídolos são o Edward Snowden, o Julian Assange e o Antoine Deltour, conhecidos whistleblowers num passado recente. Considera que está ao mesmo nível?
Não quero fazer comparações; isto não é uma corrida de Formula 1. Nunca fiz nada disto por causa do meu ego, não preciso desta atenção. Nunca foi sobre ser o maior whistleblower do mundo, mas sim sobre conseguir expor a maior quantidade de ilegalidades possível. Os whistleblowers só existem porque existem inúmeras práticas ilegais na nossa sociedade.

Pouco se sabe sobre si, até agora. Em que zona de Portugal cresceu?
Sou de Vila Nova de Gaia, uma cidade banhada pelo Atlântico, não muito longe do Porto.

O que é que os seus pais fazem?
O meu pai é reformado. Foi designer de sapatos durante 30 anos e viajava bastante por toda a Europa. A minha mãe ficava em casa. Morreu de cancro quando eu tinha 11 anos. Foram tempos muito difíceis.

Como aguentou?
Ajudou-me a crescer. Durante a doença dela, eu não conseguia conter a minha raiva; andava muito à pancada na escola. Depois de ela morrer, aprendi a lidar com as coisas à minha maneira.

Era bom na escola?
Para começar eu levava um avanço em relação às outras crianças, porque aprendi a ler e a escrever aos quatro anos.

Quem o ensinou?
Aprendi sozinho. A ver futebol. Via muitos jogos e desenhava as t-shirts e as cenas dos jogos. A dada altura comecei a escrever palavras que os comentadores diziam. Quem marcava, qual o resultado final e o jogo.

Como é que os seus pais reagiram?
Ficaram todos surpreendidos. O meu pai não ficou muito contente. Disse-me que não podia ser fanático com o futebol, porque o jogo poderia destruir a minha vida.

Era bom na escola?
Era normal. Era muito bom a história. Por outro lado, a matemática, química e física era um desastre.

Gostou do seu tempo de escola?
Sim. Jogava muito futebol e fazia parte da equipa de futsal da escola. Para além disso era popular, porque era uma espécie de rebelde. Discutia muito com os professores quando percebia que não tinham a certeza de alguma coisa. Por vezes, estas discussões ficavam fora de controlo, porque eu não sabia parar. Até hoje.

Mais tarde, foi estudar História na universidade. De onde vem esse interesse?
Se queremos conhecer-nos, ao mundo e ao nosso país, temos de olhar para a História. Porque os seres humanos estão sempre a cometer os mesmos erros. Sempre.

Nunca acabou o curso de história. Porquê?
Enquanto estava na universidade a minha relação com Portugal mudou. Muitos amigos saíram do país, porque já não tinham perspetivas por causa da crise económica. Políticos e empresários gananciosos destruíram um país que já teve muito sucesso. Já nada funcionava; tinha perdido a esperança em Portugal.

Como lidou com isso?
Primeiro, escolhi fazer um semestre de Erasmus em Budapeste. Nunca tinha estado no estrangeiro, sempre vivi com os meus pais. Regressei a casa ao fim de meio ano, mas sabia que queria voltar para a Hungria rapidamente. Um ano depois, emigrei para Budapeste.

Porquê Budapeste?
Adoro esta cidade. A luz, o Danúbio, os castelos e as pontes. Gostava de ficar aqui para sempre. Tenho muitos amigos e a minha namorada vive aqui. Também descobri que há aqui uma oportunidade de negócio para mim. O meu pai sempre se interessou pelo comércio de antiguidades e acabei por perceber bastante do assunto. Há muitos tesouros do leste europeu a que ninguém liga.

Refere-se a livros antigos?
E posters. Ambos podem ser comprados aqui muito baratos, por um ou dois euros, e em muitos casos podem ser revendidos por 150 euros ou mais. As pessoas nem sabem o valor das coisas que têm por casa.

De onde tirou a ideia de, no outono de 2015, lançar o site Football Leaks?
Sou fanático por futebol desde criança e já tinha percebido, desde o Caso Bosman, que o futebol estava a caminhar na direção errada. Os melhores jogadores jovens estavam a ir para as melhores equipas; toda a competição estava a dar vantagem aos clubes de topo. O grande impulsionador foi o escândalo da FIFA, em 2015. Juntamente com todas as detenções na Federação Internacional, vi que havia irregularidades em imensas transferências dentro de Portugal. Que mais e mais investidores invadiam o mercado. Comecei a recolher dados.

Onde arranjou o conhecimento técnico? Alguma vez estudou informática?
Nunca.

Como verificava os dados?
Lia. Li muito. Todos os dias, passava horas à frente dos documentos e analisava-os. Quanto mais lia, mais chocado ficava.

Sobre?
Uma grande parte dos documentos mostrava como se criava uma empresa offshore, como os agentes desportivos se escondiam atrás de testas de ferro, como se levava a cabo uma evasão fiscal em larga escala. O negócio ia de vento em poupa; o dinheiro enchia as contas dos paraísos fiscais.

Maria Feck

Quando percebeu que estava a ganhar inimigos?
A Doyen enviou investigadores privados atrás de mim. E um clube poderoso também. Uma vez, uma jovem rapariga aproximou-se de mim numa festa. Começou a meter conversa e percebi que havia algo de errado. Pediu-me o meu número e eu dei-lhe. Queria ver qual era a dela.

Também era uma investigadora privada?
Não. Era jornalista de um tablóide e trabalhava para um jornal inglês de grande tiragem. Mas só descobri isso algumas semanas depois. Só quando recebi um SMS que dizia: “Sabemos que está por trás dos Football Leaks. Trabalho numa firma de advogados. Queremos ver os seus documentos.” Ela queria enganar-me.

Como é que a polícia levou tanto tempo para o encontrar?
Boa pergunta. Sempre tive um apartamento aqui em Budapeste. Vivia uma vida perfeitamente normal.

Nas nossas reuniões, disse que mudava de sítio de dois em dois dias.
Sim, viajei muito. Mas sempre com o meu cartão de cidadão. Não me escondi.

Tem uma namorada húngara. O que lhe disse quando fugiu?
Manter tudo isto em segredo era cansativo. A minha namorada percebeu que se passava alguma coisa, mas nunca lhe contei pormenores. Queria protegê-la. Quando fui preso, ela quase enlouqueceu. Chorou muito. Mas ficou comigo e têm-me ajudado muito durante este tempo.

Onde e quando foi preso em Budapeste?
Ao início da noite de 16 de janeiro. Eu e o meu pai, que me tinha vindo visitar com a minha madrasta, estávamos a chegar a casa depois de uma ida ao supermercado. Quando virámos a esquina do meu apartamento, dois polícias à paisana aproximaram-se. Viram a minha identificação e tive de esvaziar os meus bolsos e a minha mochila. Depois mostraram-me o mandado de captura europeu, tudo em húngaro, e algemaram-me.

Os polícias também revistaram o seu apartamento?
Não tinham um mandado de revista. Mesmo assim, usaram a minha chave para entrar no apartamento. A minha madrasta ficou chocada quando, de repente, nove polícias olhavam para ela na cozinha. Disseram-me para arrumar as minhas coisas. Um deles disse: “Nunca mais vais voltar aqui”.

Conseguiu contactar um advogado durante a detenção?
Proibiram-me. Disse adeus aos meus pais e disse-lhes que tudo ia ficar bem. Depois, levaram-me para a esquadra. Fiquei numa cela com outra pessoa. Era um tipo normal. Mas naquela noite, um guarda aparecia de meia em meia hora e acendia e apagava a luz por cima da minha cama. Só me aconteceu a mim.

Quanto tempo ficou na cela?
Duas noites. Depois levaram-me para a audiência onde o juiz decretou que ficaria em prisão domiciliária.

A polícia húngara confiscou algum objeto do seu apartamento?
O meu computador, cerca de dez discos rígidos, três telemóveis e uns aparelhos eletrónicos.

Estes dados são de interesse público porque podem mostrar que houve infração penal?
Sim, sem dúvida.

Os discos estavam encriptados?
Não vou responder.

De que volume de dados estamos a falar?
Dez terabytes, dos quais seis ainda não foram divulgados.

Maria Feck

Tem, ou algum colega seu tem, cópias destes dados?
Não posso responder.

As autoridades portuguesas estão a pedir a sua extradição. O que acha que vai acontecer aos dados confiscados se a justiça portuguesa ficar com eles?
Os húngaros não lhes devem dar estes discos, porque o mandado de captura apenas fala em alegações que datam de 2015. Penso que primeiro os portugueses querem pôr a mão em tudo o que foi encontrado em mim, para poderem preparar mais processos contra mim.

O que espera?
Que os ministérios públicos por toda a Europa se juntem e mostrem às autoridades húngaras e portuguesas que a minha informação é de grande interesse público. Que precisam destes documentos para as suas investigações para acabarem com crimes que são consideravelmente mais sérios que a delação.

Já entrou em contacto com autoridades de que países europeus?
Com várias. Sei que o meu advogado francês, William Bourbon, está em contacto com o ministério público suíço e belga. Mas até agora só me reuni com investigadores franceses.

Quando foi a primeira reunião?
No inverno de 2018, em Paris.

Nessa altura, a reunião foi sobre o seu apoio enquanto testemunha anónima ou já estava a pensar revelar a sua identidade?
Falámos sobre várias hipóteses.

Revelou a sua identidade às autoridades francesas no ano passado?
Sim. Disse-lhes que eu era o John.

Já entregou algum documento às autoridades francesas ou há documentos relevantes entre os que foram confiscados?
Só posso dizer que estamos a cooperar.

E as investigações contra Cristiano Ronaldo, que é acusado de violação por uma americana, que ele nega?
Sei perfeitamente que existe uma investigação, mas não vou comentar.

Foi abordado pelas autoridades norte-americanas?
Correto.

Partilhou alguns documentos com eles?
A investigação está a decorrer e prefiro não comentar.

Foi contactado por alguma autoridade depois de ter feito as primeiras revelações do Football Leaks em 2016?
Recebi alguns mails de autoridades fiscais, incluindo uma alemã, de Munique.

Qual foi o seu comportamento nessa altura?
Alguns inquéritos foram duros. Os investigadores financeiros ingleses queriam saber o meu nome e onde vivia. Isto é de loucos para um whistleblower que quer permanecer anónimo; naturalmente não respondi. Na altura não tinha advogados. Precisava de tempo e de uma estratégia que garantisse a minha segurança. Mesmo naquela altura, o pedido mais credível veio de França.

Porquê?
Pareciam determinados e profissionais. Provaram que queriam levar à avante os casos de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal no futebol. Senti que podia confiar neles, e precisava de um parceiro forte. Os oficiais franceses conseguem começar uma investigação através do Eurojust. Posso partilhar os meus dados e eles podem distribui-los. Basta um contacto. Sei que o Eurojust é uma ferramenta muito útil para as autoridades de vários países coordenarem como podem cooperar. Se outros países quiserem verdadeiramente prosseguir com as investigações, terão a França. E ter-me-ão a mim.

Alguma associação tentou entrar em contacto consigo, depois das revelações do Football Leaks?
Nem a FIFA nem a UEFA contactaram o Fooball Leaks. É frustrante. Nas entrevistas que dei sob o pseudónimo “John”, várias vezes demonstrei que, se me pedissem, passaria os documentos para trazer a lume a verdade dos factos. Nunca ninguém pediu.

Porque está a resistir à extradição para o seu país?
Tenho quase a certeza que não terei um julgamento justo em Portugal. O sistema judicial português não é inteiramente independente; existem muitos interesses escondidos. Claro que há procuradores e juízes que levam o seu trabalho a sério. Mas a máfia do futebol está em todo o lado. Querem passar a mensagem que ninguém se deve meter com eles.

Tem medo de uma sentença em Portugal?
Estou nervoso, porque posso ser alvo de ataques, principalmente por parte de adeptos do Benfica. Desde outono passado que recebo inúmeras ameaças de morte através do Facebook. Quando me reuni com os investigadores franceses, mostrei-lhes as ameaças. Disseram-me que devia levar as ameaças muito a sério. Tenho medo que se entrar numa prisão portuguesa, principalmente em Lisboa, não saia de lá vivo.