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Malta Files e Luanda Leaks "mostraram o que se passava em termos de evasão fiscal com a cobertura de advogados"

O diretor do jornal francês Mediapart, Edwy Plenel, testemunhou no julgamento de Rui Pinto sobre a importância das revelações de projetos além do Football Leaks

Maria Feck

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Edwy Plenel, diretor do jornal digital francês Mediapart, defendeu esta quinta-feira no julgamento de Rui Pinto interesse público dos temas cobertos pelas investigações Malta Files e Luanda Leaks, a partir de informação facultada pelo autor de Football Leaks.

A testemunha, arrolada pela defesa de Rui Pinto, admitiu que "há sempre um equilíbrio entre o respeito do segredo que se quer proteger e o interesse da revelação de delitos", lembrando que também nos Panama Papers foram divulgados documentos da sociedade de advogados Mossack Fonseca, mas hoje "ninguém questiona a legitimidade e o interesse dessas revelações".

As investigações Malta Files e Luanda Leaks, afirmou Edwy Plenel, "mostram o que se passava em termos de evasão fiscal e corrupção, com a cobertura de escritórios de advogados e paraísos fiscais".

No seu testemunho, contudo, afirmou que quando os projetos jornalísticos avançaram não se conhecia a origem dos documentos.

Edwy Plenel lembrou que, entre outros temas, os Malta Files revelaram casos de branqueamento de capitais, um dos quais envolvendo a "entourage" do presidente da Turquia. No caso de Luanda Leaks, "os documentos revelaram um caso de interesse público, sobre a forma como funciona Isabel dos Santos", assinalou o diretor do Mediapart.

Cooperação com as autoridades

No seu depoimento, Plenel sublinhou a importância das divulgações com base em documentos confidenciais, incluindo de sociedades de advogados, quando em causa estão temas de interesse público, nomeadamente informações sobre evasão fiscal e "a subtração de riqueza às nações".

"Nas democracias há um equilíbrio entre a proteção do segredo legítimo e a necessidade de revelar informação de grande interesse público", enfatizou o diretor do Mediapart.

Questionado pela juíza Margarida Alves sobre a cooperação de Rui Pinto com o Ministério Público francês, Plenel afirmou que o início da colaboração de Rui Pinto com as autoridades francesas remonta ao final de 2018.

Plenel testemunhou que soube dessa cooperação de Rui Pinto (que viria a ser interrompida no início de 2019, após a sua detenção em Budapeste) através de uma fonte judicial. E indicou que essa colaboração, com o fim de incluir Rui Pinto num programa de proteção de testemunhas, foi tratada entre a Justiça francesa e Rui Pinto, sem a intermediação do Mediapart, mas com o envolvimento de uma fundação internacional, a Signals.

Questionado pela juíza sobre se o Football Leaks está relacionado apenas com Rui Pinto ou também com outras pessoas, Edwy Plenel respondeu que o Mediapart e o EIC se limitaram a tratar os documentos obtidos pela fonte, que então se apresentava como John, mas que hoje se sabe ser Rui Pinto. "A minha convicção é que é a apenas um indivíduo, Rui Pinto, que devemos a divulgação destes documentos, e é por isso que o considero um dos maiores denunciantes dos últimos tempos", declarou o diretor do Mediapart.

"Os documentos serviram como base para as nossas investigações", referiu. E notou que só soube que John era afinal Rui Pinto quando o seu advogado, William Bourdon, o revelou. "Até esse momento não conhecíamos a identidade de John", indicou Edwy Plenel, admitindo não saber como este contactava com a revista alemã Der Spiegel.