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Serviu às mesas e lavou carros. Hoje é pentacampeão. Este é Lewis Hamilton, o homem que mudou a face da Fórmula 1

Sem passado familiar ligado aos motores ou milhões no banco, Lewis Hamilton chegou à Fórmula 1 à custa de um misto de suor, talento e ambição. Em miúdo, quando percorria a Inglaterra com pai nas provas de kart com o pai, Anthony, eram "a família negra mal amanhada". Na escola chegou a sofrer de bullying. Nada disso parou Hamilton, piloto, pop star, que este domingo conquistou pela quinta vez o título mundial, igualando Alain Prost e confirmando que é o mais talentoso (e carismático) da sua geração. A Tribuna Expresso republica o perfil do piloto, originalmente publicado a 29 de outubro de 2017

Lídia Paralta Gomes

Dan Istitene/Getty

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Esta história tem 22 anos. Ron Dennis era por esses dias o homem forte da McLaren e estava em mais uma daquelas intermináveis e chatas cerimónias de entrega de prémios. Até que um miúdo de 10 anos, criado num bairro social, com seu smoking emprestado e um livro de autógrafos na mão (estávamos ainda longe da era das selfies) fez as apresentações.

“Olá. O meu nome é Lewis Hamilton. Ganhei o campeonato britânico de karting e um dia quero correr num dos seus carros”.

Dennis, que liderava uma equipa nove vezes campeã da Fórmula 1, pegou no livro e além do autógrafo escreveu:

“Telefona-me daqui a nove anos, arranjaremos qualquer coisa nessa altura”.

Lewis Hamilton não demorou 9 anos a telefonar a Ron Dennis, porque bastaram três para Dennis pegar no telefone e ele próprio ligar a Hamilton a oferecer-lhe um lugar no programa de desenvolvimento de jovens pilotos da McLaren. Uma década depois, o britânico, então com 23 anos, daria à escuderia do seu país o seu último título mundial com uma ultrapassagem na última curva da última volta do último Grande Prémio da época. Estávamos então em 2008 e era só a confirmação daquilo que Ron Dennis tinha percebido ao primeiro olhar, naquela interminável e chata cerimónia de entrega de prémios que Hamilton tinha ousado interromper: estávamos perante um fenómeno.

“É como encontrar o teu companheiro para a vida: conheces essa pessoa e sabes que ela é a pessoa certa. Pela linguagem corporal, pelo contacto visual, pela sua presença, pela forma como fala contigo. Simplesmente sabes! E com o Lewis eu simplesmente soube”, disse Ron Dennis após o piloto se tornar o mais jovem campeão do Mundo de sempre - um recorde entretanto batido por Sebastian Vettel.

Daí para cá, Lewis Hamilton conquistou mais três títulos de campeão mundial de Fórmula 1, o último dos quais este domingo no GP México, no circuito Hermanos Rodríguez. O outro conquistou-o em 2014, um ano depois de se mudar da McLaren para a Mercedes. O tetracampeonato fá-lo ultrapassar o seu ídolo Ayrton Senna e coloca-o no restrito grupo de pilotos com quatro ou mais títulos, igualando Sebastien Vettel e Alain Prost. Melhor só Juan Manuel Fangio (cinco) e Michael Schumacher (sete).

Hamilton junta o talento ao carisma

Hamilton junta o talento ao carisma

Clive Mason/getty

Mas para lá do evidente êxito desportivo, não será arriscado dizer que Lewis Carl Davidson Hamilton, nascido há 32 anos em Stevenage, 50 quilómetros a norte de Londres, mudou a face da Fórmula 1. Sempre existiram excêntricos na competição, pela vida fora das pistas, pelo que diziam, pela forma como corriam, às vezes por tudo isto ao mesmo tempo. Houve James Hunt, houve Nelson Piquet, houve Ayrton Senna, mas nenhum deles sacudiu o pó dos tapetes da competição como Hamilton.

Antes de mais por ter sido o primeiro e até agora único negro a correr e, mais tarde, a sagrar-se campeão do Mundo de Fórmula 1. Mas essencialmente por ter dado um ar de modernidade a uma disciplina muitas vezes demasiado rígida nas regras e nos padrões de conduta.

E bem, também pelo sítio de onde veio.

Um talento sem pedigree

Ao contrário de boa parte dos seus colegas de paddock, Lewis Hamilton não vem de uma família endinheirada ou sequer ligada aos desportos motorizados. A sua infância não foi passada no Mónaco e as férias em Ibiza.

Bem longe disso. O seu pai, Anthony, é filho de emigrantes que chegaram das Caraíbas, mais propriamente de Granada, nos anos 50. Conheceu a mãe de Lewis, Carmen, quando ambos trabalhavam na companhia estatal de comboios. O casamento durou pouco e dos dois aos 12 anos, Hamilton viveu com a mãe e duas meia-irmãs mais velhas num bairro municipal de Stevenage.

Mas sempre com o pai, Anthony, por perto.

Hamilton tinha seis anos quando o pai lhe ofereceu um pequeno carro telecomandado. No ano seguinte, a competir contra gente grande, o miúdo Hamilton sagrava-se vice-campeão da Associação Britânica de Radiomodelismo. Mas não tardou que Hamilton largasse os comandos e fosse ele próprio para as pistas: como presente pelo sucesso com os carros telecomandados, Anthony ofereceu-lhe um kart no Natal. E o resto é história.

Hamilton tornou-se rapidamente uma sensação nos campeonatos de karting e para financiar a carreira do filho, Anthony chegou a ter três trabalhos ao mesmo tempo. Ainda assim, nunca faltou a uma corrida.

Hamilton com o pai, Anthony, em 2006, ano em que o piloto foi campeão do GP2

Hamilton com o pai, Anthony, em 2006, ano em que o piloto foi campeão do GP2

Mark Thompson/Getty

Aos 12 anos, Hamilton já era campeão britânico de cadetes e o seu talento impressionava de tal maneira que a casa Ladbrokes lançou duas apostas: que Hamilton ganharia um Grande Prémio de Fórmula 1 antes dos 23 e que seria campeão do Mundo antes dos 25. Quem colocou dinheiro nestas apostas será hoje rico.

Por esta altura, surge o tal telefonema de Ron Dennis e Hamilton muda-se para casa do pai, para apostar definitivamente na carreira nos motores. Entre as corridas, os treinos e a escola, Hamilton ainda fez uma série de pequenos trabalhos: serviu às mesas e lavou carros, e fazia-o de forma tão meticulosa que um antigo patrão, James Costin, chegou a confessar ao "Telegraph" que os restantes empregados se “sentiam envergonhados”.

Nas viagens pelos circuitos do Reino Unido, Anthony e Lewis destacavam-se. “Éramos a família negra mal-amanhada. Tínhamos o equipamento de porcaria, o kart de porcaria e a caravana de porcaria”, lembrou o piloto numa reportagem da revista Time, há um ano. Ainda assim, Hamilton ganhava a todos e tinha ainda de lidar com os comentários racistas de um mundo dos motores que é essencialmente branco. “Havia pais de outros pilotos que me diziam: ‘Não és suficientemente bom, devias desistir’. E eu só respondia: ‘Mas eu acabei de ganhar ao teu filho, o que é que estás aí a dizer?’”. O racismo que desde cedo fez parte da vida de Hamilton, que aos 5 anos pediu ao pai para ter aulas de karaté, por sofrer de bullying na escola - competitivo como é, chegou a cinturão negro.

Anthony tornou-se então o gestor de carreira do filho, uma ligação pessoal e profissional que durou até 2010, altura em que Lewis despede o pai. À "Time", Hamilton admitiu que a relação dos dois nunca mais foi a mesma e que ainda é um “work in progress”.

“Foi um momento-chave na minha vida e ainda é a coisa mais difícil que tive de passar”, admitiu.

Rivalidade entre Hamilton e Rosberg começou quando eram ainda adolescentes

Rivalidade entre Hamilton e Rosberg começou quando eram ainda adolescentes

Depois de dominar no seu país, Hamilton passou por todas as categorias do karting europeu, encontrando pela primeira vez Nico Rosberg. A relação entre os dois sempre foi complexa: eram inseparáveis, mas ao mesmo tempo rivais até ao tutano. Depois de saber que Rosberg sabia andar de monociclo, Hamilton também aprendeu a fazê-lo. “Éram supercompetitivos. Até a comer pizza competiam!”, revelou em tempos Robert Kubica, piloto que correu com os dois e que também chegou à Fórmula 1.

A passagem para os monolugares não podia ter corrida melhor: foi campeão da Fórmula Renault britânica em 2003, da Fórmula 3 em 2005 e do GP2, campeonato considerado a antecâmara da Fórmula 1, em 2006. No ano seguinte, Ron Dennis confiou-lhe um dos McLarens e chegou à categoria-rainha: foi 2.º logo na época de estreia, batendo o companheiro de equipa e então campeão em título Fernando Alonso. A relação entre os dois foi de tal forma problemática que no final do ano o espanhol rescindiu o contrato com a escuderia britânica.

No ano seguinte seria campeão, num dos finais de temporada mais impressionantes da história do Mundial de Fórmula 1: já Felipe Massa festejava o título, depois de vencer o GP Brasil, derradeira prova do ano, quando Hamilton, na última curva da última volta, ultrapassou Timo Glock e cortou a linha de meta no 5.º lugar, suficiente para ficar na frente do Mundial de pilotos.

Hamilton tornou-se campeão mundial em 2008, aos 23 anos: um recorde de precocidade na altura

Hamilton tornou-se campeão mundial em 2008, aos 23 anos: um recorde de precocidade na altura

Mark Thompson/Getty

Os anos seguintes foram complicados: com a emergência da Red Bull e de Sebastian Vettel, Hamilton passou uma autêntica travessia no deserto, que o fez despedir o pai e mudar-se para a Mercedes em 2013, equipa onde venceu os últimos três títulos.

Melhor que o ídolo

A época de 2017 marca um ponto de viragem no currículo de Lewis Hamilton. Porque este foi o ano em que deixou definitivamente para trás o seu ídolo, Ayrton Senna: não só ultrapassou o malogrado piloto brasileiro falecido em 1994 em número de campeonatos, mas também no número de poles (65) - entretanto ultrapassou também as 68 de Michael Schumacher e foi para o topo da lista, com 72.

O seu estilo agressivo de condução e a sua velocidade natural são muitas vezes comparados aos de Senna, com quem partilha também o carisma. Para muitos, tal como o brasileiro, Hamilton é o melhor e mais talentoso da sua geração. “Via o Senna quando era novo e pensava ‘É assim que eu quero correr assim quando tiver a oportunidade’ e ia para a pista de kart e tentava imitá-lo. Toda a minha forma de correr foi desenvolvida a partir daí”, explicou Hamilton num texto emotivo escrito no seu site.

No GP Canadá, quando igualou o número de poles de Senna, a família do brasileiro ofereceu um dos capacetes do piloto de São Paulo a Hamilton. Surpreendido, o britânico, conhecido pela sua personalidade de ferro, ficou sem palavras e de lágrima nos olhos.

Um piloto que vale milhões

Em 2007, quando chegou à Fórmula 1, Lewis Hamilton era um rapaz um pouco mais pacato do que estamos agora habituados a ver. Tinha uma relação com a namorada do liceu, o corpo limpo de tatuagens e não se apresentava jóias caras ao pescoço ou nas orelhas. Mas já então a mãe do piloto sabia o que aí vinha.

“O Lewis tem tudo. Tem a personalidade, o aspecto, o físico e o carisma para se tornar numa estrela absoluta”. Não há instinto como os das mães.

Bernie Ecclestone tem quase 90 anos mas também sabe umas coisas e lá de negócios percebe ele. Aquele que foi o F1 Supremo até ao último ano, antes de vender o Fórmula 1 Group à norte-americana Liberty Group, é um dos maiores admiradores de Lewis Hamilton e esse amor também se explica com uma palavra: dinheiro.

Desde que chegou à Fórmula 1, e principalmente depois de se mudar para a Mercedes, revolucionou o paddock, com as roupas da moda, as tatuagens, os amigos famosos, a vida de luxo que mostra nas redes sociais, as festas que frequenta, as marcas que o querem. As idas e vindas da sua relação com a cantora Nicole Scherzinger fizeram correr rios de tinta nas revistas e a sua atitude trouxe um novo público, mais jovem, à Fórmula 1. Hamilton não é apenas um piloto, é uma pop star, não perdendo com isso um pingo de foco, de competitividade, de ambição.

Hamilton com Neymar num evento de moda

Hamilton com Neymar num evento de moda

Mike Marsland/Getty

Quando no último ano perguntaram a Ecclestone quem queria ver como campeão, se Lewis Hamilton ou Nico Rosberg, o excêntrico empresário não teve dúvidas: “Lewis Hamilton. Rosberg é mau para o negócio”. Isto porque o alemão, que acabou por ser campeão, é calmo, racional, reservado, um homem de família. Hamilton, por outro lado, vende um estilo de vida, uma atitude, uma ligação com os adeptos, sem que para isso a Fórmula 1 gaste um tostão. “Devia haver mais seis como ele”, disse em tempos Ecclestone.

Justas ou não, as afirmações de Ecclestone têm razão de ser: desde que Hamilton está no Mundial, que as receitas globais da Fórmula 1 subiram 53%, para 1,5 mil milhões de euros.

Apesar do estilo de vida excêntrico muitas vezes criticado - Ron Dennis frisou no último ano que na McLaren Hamilton nunca teria este comportamento; Hamilton mandou o antigo patrão dar uma volta - o piloto britânico não é um alienado. Já este ano, por exemplo, revelou à BBC que se estava a tornar vegan: “Como humanos, aquilo que estamos a fazer ao planeta… a poluição que a indústria da pecuária produz é incrível. Não quero contribuir para isso, quero viver um vida mais saudável”.

Saudável e cheia de títulos. Aos 32 anos, quatro já estão, o próximo passo é igual Fangio.