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Ferrari fecha a porta ao seu último campeão e abre-a a um dos bebés do paddock

Na Ferrari sempre nos habituámos a ver pilotos campeões, experientes, tarimbados nisto da Fórmula 1. Mas o paradigma parece ter mudado: a escuderia de Maranello anunciou esta terça-feira que o seu último campeão do Mundo, Kimi Raikkonen, de 38 anos, está de saída da equipa. Para o seu lugar entrará Charles Leclerc, que aos 20 anos é o segundo piloto mais jovem da grelha e no próximo ano será o segundo mais jovem de sempre a conduzir um Ferrari

Lídia Paralta Gomes

Dezoito anos separam Charles Leclerc de Kimi Raikkonen. No próximo ano vão trocar de guiador

GERARD JULIEN/Getty

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Tempos houve em que entrar no carro vermelho da Ferrari era o sonho de qualquer piloto de Fórmula 1. O objetivo último, a grande consagração: chegar à Ferrari, a mais mítica das escuderias da Fórmula 1, era chegar ao topo, porque a Ferrari só queria os melhores e os mais experientes. Nos últimos anos, assim aconteceu com Michael Schumacher, com Fernando Alonso ou com Sebastian Vettel. Todos haviam sido campeões mundiais, mas quando a Ferrari chamou, nem pensaram duas vezes. Afinal, ser campeão com a Ferrari tem outro sabor.

A verdade é que dos três apenas Michael Schumacher conseguiu replicar na equipa italiana aquilo que havia feito antes: com a Ferrari venceu cinco campeonatos, de 2000 a 2004. Por seu turno, Alonso e Vettel tornaram-se símbolos da crise da Ferrari, dois grandes pilotos que têm juntado frustrações e segundos lugares, numa equipa que nada ganha há 10 anos.

Talvez por isso, o próximo ano será de mudança de paradigma na escuderia de Maranello, presente de forma ininterrupta no Mundial desde 1950. E, nesse sentido, a primeira decisão foi deixar cair o último homem a sagrar-se campeão do Mundo num carro da Ferrari, Kimi Raikkonen.

Esta foto tem mais de 10 anos. Nela está Raikkonen a festajar o título com Jean Todt, então diretor da Ferrari. Todt é hoje presidente da FIA. A Ferrari desde este dia que nada festeja

Esta foto tem mais de 10 anos. Nela está Raikkonen a festajar o título com Jean Todt, então diretor da Ferrari. Todt é hoje presidente da FIA. A Ferrari desde este dia que nada festeja

Clive Mason/Getty

Campeão em 2007, o finlandês de 38 anos está na sua segunda etapa na equipa que o contratou precisamente no ano em que terminaria em primeiro no Mundial de pilotos. Deixaria a Fórmula 1 em 2009, desmotivado com a queda de competitividade da Ferrari, para se aventurar pelos ralis. Voltaria à disciplina-rainha do automobilismo em 2012, para regressar à Ferrari dois anos depois.

De 2014 para cá tornou-se no segundo piloto com mais Grandes Prémios pela Ferrari: são, para já, 144 - apenas Michael Schumacher tem mais, 179 -, ainda que tenha sempre vivido na sombra de Sebastian Vettel, que a Ferrari foi buscar à Red Bull, onde venceu quatro campeonatos seguidos.

Vettel e Raikkonen faziam aquilo que se poderia de chamar de dupla-tipo da Ferrari: dois pilotos talentosos, rápidos, cheios de experiência. Mas a experiência terá deixado de ser essencial para a equipa, que para a vez do Iceman aposta tudo num dos mais jovens pilotos do paddock, o monegasco Charles Leclerc.

Com apenas 20 anos, Leclerc só é mais velho que o canadiano Lance Stroll, piloto da Williams de apenas 19 anos. Está na sua temporada de estreia na Fórmula 1, mas tem sido o piloto em destaque na Sauber, batendo regularmente o seu colega de equipa, o bem mais tarimbado Marcus Ericsson. É neste momento 15.º no Mundial de pilotos, com 13 pontos e o conseguiu mesmo levar o seu frágil Sauber ao 6.º lugar em Baku.

Apesar da jogada surpreendente, nada ao estilo da Ferrari, que raramente faz apostas de risco em jovens pilotos, a verdade é que Leclerc, nascido em Monte Carlo em outubro de 1997, está longe de ser um desconhecido para os italianos. Mais do que uma contratação, isto é uma promoção: desde 2016 que faz parte da academia da Ferrari e antes de chegar à Fórmula 1 foi campeão nas GP3 series e na Fórmula 2. Os carros estão-lhe no ADN: o pai, recentemente falecido, foi piloto na Fórmula 3 durante os anos 80 e 90.

Leclerc tem cara de menino porque é um menino: terá 21 anos quando fizer a primeira corrida pela Ferrari, o segundo mais jovem de sempre na escuderia italiana

Leclerc tem cara de menino porque é um menino: terá 21 anos quando fizer a primeira corrida pela Ferrari, o segundo mais jovem de sempre na escuderia italiana

Mark Thompson/Getty

Agora, depois de uma temporada a conduzir um carro que até equipa com motores Ferrari, Leclerc dá um salto de gigante para a escuderia que, estando em melhor ou pior forma, em crise ou menos crise, é a escuderia de sonho para qualquer piloto.

Era, por exemplo, o sonho do seu grande amigo de infância e padrinho de batismo Jules Bianchi: o francês, também ele formado na academia da Ferrari, morreria antes de lá chegar, meses após um grave acidente no GP Japão de 2014.

Foi precisamente ao pai e a Bianchi que este quase-adolescente agradeceu a oportunidade e aposta da Ferrari. “Os sonhos de facto podem tornar-se realidade. Isto é para alguém que já não está neste mundo, mas a quem eu devo tudo o que se está a passar comigo, o meu pai. E para o Jules, obrigada por tudo o que me ensinaste, nunca te vamos esquecer”.

O segundo mais jovem de sempre

Quando arrancar para o GP Austrália do próximo ano, Charles Leclerc terá 21 anos e 153 dias, mas isso não fará dele o mais jovem piloto de sempre da Ferrari. Será apenas o segundo: no início dos anos 60, a equipa italiana apostou em Ricardo Rodríguez, um miúdo mexicano que entrou pela primeira vez num Ferrari com 19 anos e 208 dias.

De Rodríguez resta a lenda. Quem o viu correr diz que poderia ter sido tão grande quanto Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher seriam no futuro, mas partiu cedo demais, com apenas 20 anos, após um grave acidente numa prova não-oficial na sua Cidade do México. Hoje, muitos conhecem o seu nome e do seu irmão Pedro Rodríguez, também ele piloto, também ele precocemente perdido numa prova automobilística, porque o circuito onde Ricardo perdeu a vida ganhou o seu nome: o Circuito Hermanos Rodríguez, uma das paragens do Mundial de Fórmula 1 nos últimos anos.

Voltar à casa de partida

A Ferrari pode ter mudado a abordagem ao mercado de pilotos, mas não esquece aqueles que ali fizeram história.

“Durante estes anos, a contribuição de Kimi para a equipa, tanto como piloto como com as suas qualidades humanas, tem sido fundamental. Teve um papel decisivo no crescimento da equipa e foi, ao mesmo tempo, um grande jogador de equipa. Como campeão do Mundo pela Ferrari, será sempre parte da nossa história e da nossa família”, sublinhou o diretor desportivo da equipa, Maurizio Arrivabene, sobre Raikkonen.

Instagram

Apesar dos 38 anos, este ainda não é o adeus definitivo do finlandês ao paddock. Na verdade, Leclerc e Raikkonen vão, por assim dizer, trocar de guiador, já que a Sauber apressou-se a confirmar que o piloto nórdico vai regressar à equipa onde, curiosamente, começou a sua carreira na Fórmula 1, no já longínquo ano de 2001.

Raikkonen, sempre tão parco em emoções, usou o Instagram para dar conta da sua alegria por voltar à equipa onde deu os primeiros passos no Mundial. “Adivinhem quem voltou? Nos próximos dois anos vou correr na Sauber. Sabe tão bem voltar ao sítio onde tudo começou”.