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Porque é que Alonso abandona sem ser um dos melhores de sempre? Por um misto de más decisões e falta de sorte

O GP Abu Dhabi, este domingo, marca o adeus de Fernando Alonso à Fórmula 1, uma despedida agridoce, com apenas dois campeonatos ganhos. E porquê "apenas"? Porque o talento e a inteligência analítica do espanhol nascido há 37 anos em Oviedo fazia crer que, depois da saída de cena de Michael Schumacher, Alonso seria o grande dominador da disciplina. Mas o asturiano é a prova que é preciso estar no lugar certo à hora certa e ele raramente esteve. Por culpa própria, mas também por culpa do azar

Lídia Paralta Gomes

Peter J Fox/Getty

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A foto que acompanha este texto não é a melhor foto de Fernando Alonso. É uma foto tirada ao longe, meio pixelizada e o piloto nem sequer está dentro de um monolugar de Fórmula 1, o seu habitat natural nos últimos 18 anos.

Mas é possível que não haja melhor fresco daquilo que foram os últimos anos da carreira do espanhol, que aos 37 anos vai despedir-se este fim de semana da Fórmula 1, em Abu Dhabi. Trata-se de uma imagem tirada na qualificação do GP Brasil de 2015, penúltima prova dessa temporada. Como tantas vezes esse ano (e nos anos que se seguiram), o motor do McLaren falhou e deixou Alonso apeado. E Alonso, num misto de frustração, auto-comiseração e gozo com a sua própria desgraça, sentou-se ali mesmo, numa cadeira que por ali encontrou, talvez de um dos comissários da pista de Interlagos, a aproveitar o sol de São Paulo enquanto a sessão não terminava.

Nascido em Oviedo há 37 anos, Alonso deixa a Fórmula 1 com dois títulos no bolso, coisa da qual muito poucos se podem gabar. Mas também como uma história imperfeita, um conto inacabado. Os anglo-saxónicos chamar-lhe-iam “underachiever”, alguém que não conseguiu atingir o seu verdadeiro potencial: porque se a relação entre as competências e o talento e os títulos ganhos fosse uma fórmula matemática, talvez Fernando Alonso deixasse a Fórmula 1 como uma lenda, um dos melhores de sempre.

Para nós, pelo menos nós que não estamos no paddock, que não somos diretores ou engenheiros ou pilotos ou mecânicos. Porque para essas espécies que semana após semana fazem das pistas a sua vida, o único que separa Michael Schumacher, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel de Fernando Alonso é mesmo a quantidade de pratas que têm em casa. Porque se falarmos de talento, Alonso está entre os grandes.

E como explicar que um piloto que nos cinco primeiros anos na Fórmula 1 ganhou dois títulos diga adeus à Fórmula 1 como um “underachiever”? Bem, há um misto de más decisões de carreira e de falta de sorte, com um cheirinho da personalidade forte do asturiano, que ajudou a que não poucas vezes entrasse em conflito com diretores e colegas de equipa.

Mas vamos fazer rewind até 2001, temporada em que o espanhol se tornou, à época, no 3.º piloto mais jovem de sempre a fazer uma corrida de Fórmula 1. O caminho para um novato raramente é fácil na disciplina rainha do automobilismo e Alonso começou por baixo, bem por baixo. O Minardi era o carro mais lento da grelha, mas é nas piores circunstâncias que o talento mais sobressai - essa seria aliás uma marca distintiva em toda a sua carreira, a capacidade de arrancar todas as potencialidades de um carro, por menos bom que seja.

Muito rápido em qualificação, batendo consecutivamente pilotos mais experientes e com melhores máquinas, Alonso entrou com naturalidade no radar de equipas mais poderosas.

Um imberbe Alonso em 2001, ano de estreia na Fórmula 1, pela modesta Minardi

Um imberbe Alonso em 2001, ano de estreia na Fórmula 1, pela modesta Minardi

Clive Mason/Getty

Depois de um ano como piloto de testes, voltou ao Mundial em 2003 pela Renault e o impacto foi imediato: com apenas 22 anos tornou-se então no mais jovem piloto a conseguir uma pole-position, no GP Malásia, e em poucos meses no mais jovem de sempre a ganhar um Grande Prémio, na Hungria.

O título chegaria em 2005: um miúdo asturiano de 24 anos terminava assim com o domínio de cinco anos de Michael Schumacher. No ano seguinte, o mesmo miúdo deixaria o mestre Schumacher em 2.º lugar e revalidaria o título. E com o alemão na reforma, o mundo parecia ser de Alonso.

Só que não.

O ‘spygate’ e um ano para esquecer

Com dois campeonatos em seu nome, Alonso seguiu para a então poderosa McLaren em 2007. Além do espanhol, Ron Dennis, o homem forte da escuderia britânica, chamou um tal de Lewis Hamilton. A dividir a box com um rookie, Alonso acreditava que seria o líder incontestado da equipa, mas tal não aconteceu: em menos de nada, Hamilton estava a correr ao mesmo nível do campeão em título e o ambiente azedou.

Espanhol a festejar o seu primeiro Mundial, em 2005. Com 24 anos, foi então o mais jovem campeão de sempre

Espanhol a festejar o seu primeiro Mundial, em 2005. Com 24 anos, foi então o mais jovem campeão de sempre

Paul Gilham/Getty

Foi na luta interna entre Alonso e Hamilton que se lançou a semente para uma série de equívocos que marcariam para sempre o percurso do espanhol. As fricções entre Alonso e Ron Dennis tornaram-se insustentáveis e culminaram com o asturiano a ameaçar denunciar a equipa à federação internacional, o que deu origem ao caso ‘spygate’, em que a McLaren foi condenada a uma multa de quase 100 milhões de euros, depois de ficar provado que tinha em sua posse mais de 800 páginas de informação técnica da Ferrari.

Alonso cedo se arrependeu de ter ameaçado a equipa, mas o dano estava feito. No final da temporada, em que a rivalidade Alonso-Hamilton levou a que nem um nem outro fossem campeões do Mundo - o título foi para Kimi Raikkonen, com um mero ponto de vantagem para os dois pilotos da McLaren - o espanhol saiu por comum acordo, voltando pela porta pequena à Renault.

As duas temporadas que passou na Renault foram uma espécie de exílio: num carro longe de ser competitivo o suficiente para ganhar campeonatos - mas que a qualidade de Alonso permitiu que fosse competitivo o suficiente para ganhar corridas - o asturiano esperava pacientemente que surgisse uma vaga numa das equipas de topo. Isto enquanto Lewis Hamilton e a McLaren mantinham o nível e chegavam ao título mundial em 2008.

Hamilton e Alonso todo eles sorrisos, mas a realidade era outra: a relação entre ambos na McLaren foi sempre problemática

Hamilton e Alonso todo eles sorrisos, mas a realidade era outra: a relação entre ambos na McLaren foi sempre problemática

Clive Mason/Getty

Falou-se da Red Bull, mas aquilo que era descrito no paddock como “o segredo mais mal guardado da Fórmula 1” em breve tornou-se realidade: em 2010, Fernando Alonso tornou-se piloto da Ferrari, a mítica Ferrari, a equipa onde todos os grandes campeões querem parar.

E bem-vindos ao erro número dois da carreira de Fernando Alonso: nos quatro anos seguintes, Sebastian Vettel ganhou quatro títulos num imparável Red Bull, de longe o melhor carro da Fórmula 1.

Já Fernando Alonso, como sempre, voltou mais uma vez a tirar tudo da máquina que tinha nas mãos, mas a diferença era demasiado grande.

Num cavallino pouco rampante

“Fiquei mesmo triste pelo casamento entre a Ferrari e Alonso - que para mim continua a ser um dos dois ou três melhores do Mundo - não ter resultado. Por nada, por pequenos detalhes, pequenos elementos”. A frase é de Luca di Montezemolo, antigo presidente da Ferrari, que numa entrevista à BBC relembrou que Alonso esteve muito perto de fazer história pela Ferrari e de forma improvável dada a enorme diferença de desempenho entre o carro italiano e a Red Bull e a McLaren.

“De 2010 a 2014, Alonso foi o melhor piloto do Mundo. Nem sequer há discussão disso”, sublinha ainda Di Montezemolo. Não apenas por ser rápido e determinado, mas muito pela capacidade fora do comum de ler o carro e a corrida. Pelo seu olho para a estratégia. Diz-se, por exemplo, que mal arrancava a corrida já sabia quantas voltas iam os pneus aguentar. Nesse período, o carro de Alonso era apenas o quarto mais veloz da grelha e ainda assim o espanhol esteve por duas ocasiões a um passo do título. Numa disciplina em que tantas vezes a máquina é tudo e em que lugar na Fórmula 1 se compram com sacos e sacos de dinheiro, Fernando Alonso mostrava corrida após corrida que um grande piloto ainda podia fazer a diferença.

Mesmo com um carro pouco competitivo, Alonso esteve muito perto do título pela Ferrari em 2010 e 2012

Mesmo com um carro pouco competitivo, Alonso esteve muito perto do título pela Ferrari em 2010 e 2012

Clive Mason/Getty

Em 2010 e 2012, Alonso lutou até à última corrida e só não bateu Vettel por erros de terceiros e puro azar. Em 2010, depois de recuperar 47 pontos e colocar-se na frente do Mundial, viu a equipa errar feio na estratégia de chamada às boxes no último grande prémio do ano, em Abu Dhabi. Ficou em sétimo, Vettel ganhou a corrida e foi campeão. Dois anos depois, mais azar: depois de liderar boa parte do campeonato, dois acidentes fortuitos causados por outros pilotos, no GP Bélgica e GP Japão, obrigaram Alonso a desistir. E em ambos Vettel foi ao pódio. No final, foram meros 3 pontos a separar os dois pilotos.

Os anos seguintes foram de frustração. O cavallino era pouco rampante e a entrada na era dos híbridos foi penosa para a Ferrari, enquanto a Mercedes crescia e tomava de assalto o domínio da Fórmula 1. Alonso deixou de acreditar, entrou em choque com Marco Mattiacci, então diretor da escuderia e no final de 2014 optou por dar novo rumo à sua carreira.

E chega o erro número três da carreira de Alonso: seguir o coração e carteira e mudar-se da Ferrari para a McLaren, um regresso a uma casa onde não tinha sido feliz.

Os assuntos inacabados que nunca se resolveram

A primeira passagem de Alonso pela McLaren redundou em pesadelo e voltar à McLaren e às ordens de Ron Dennis parecia uma estranha opção de carreira. Mas as águas passaram e para tal em muito contribuíram dois factores: o supercontrato que a equipa oferecia ao espanhol e também, quase um contrassenso, o lado romântico. A Honda estava de volta à Fórmula 1 e de volta à McLaren, para reativar uma parceria que Alonso conhecia bem: o seu ídolo Ayrton Senna havia sido campeão três vezes num McLaren-Honda e o espanhol queria imitar o brasileiro.

Mas os assuntos inacabados com a McLaren nunca se resolveram: o motor Honda nunca foi potente ou fiável e a troca para unidades de potência da Renault apenas permitiu à equipa e a Alonso lutar com mais frequência pelos pontos. E sem Alonso, a Ferrari voltou a intrometer-se nos primeiros lugares ficando a dúvida: e se Alonso tivesse continuado de vermelho?

Pensar nisso aos 37 anos pode ser doloroso. E já sem esperança neste McLaren, como um dia perdeu com o Ferrari, Alonso prefere ir embora, deixando no entanto a porta aberta para um regresso. “A vida é longa e eu adoro a Fórmula 1 e vou continuar a amá-la. Não sei se um dia volto como piloto. Ou como presidente da FIA!”, brincou o espanhol na conferência de imprensa de antevisão ao GP Abu Dhabi, o seu 312.º e último grande prémio de uma carreira em que subiu 97 vezes ao pódio, 32 delas ao lugar mais alto.

Em busca da Triple Crown

Fernando Alonso sai da Fórmula 1 mas não sai de cena e não sai sem objetivos. Um em concreto: conquistar a Triple Crown, ou seja, conquistar vitórias nas três mais míticas corridas de automobilismo do Mundo. A saber, Grande Prémio do Mónaco, 24 horas de Le Mans e 500 milhas de Indianápolis. Algo que apenas um homem conquistou até hoje, o britânico Graham Hill, nas décadas de 60 e 70.

O GP Abu Dhabi 2018 marca o adeus de Alonso à Fórmula 1. Até ver...

O GP Abu Dhabi 2018 marca o adeus de Alonso à Fórmula 1. Até ver...

Charles Coates/Getty

O espanhol já tem mais de metade do trabalho feito. Venceu por duas ocasiões no Mónaco (2006 e 2007) e este ano venceu as 24 horas de Le Mans. Há um ano participou nas 500 milhas de Indianápolis e liderou durante boa parte da corrida até desistir com problemas mecânicos. A vitória na pista oval passa assim a ser a obsessão de Alonso, algo que não parece de todo impossível tal a facilidade do asturiano em se adaptar às circunstâncias, sejam elas quais forem: um carro mais fraco, uma pista diferente, corridas com especificidades completamente distintas.

É também por isso que mesmo com apenas dois títulos na Fórmula 1, Fernando Alonso marcará uma era e a sua saída do grande circo deixará um grande vazio. Porque o espanhol é um já raro exemplar de uma estirpe de pilotos que fazem a diferença, que conseguem bater as máquinas. E é também para esses que está reservado o estatuto de melhores de sempre.