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O mito vive

É ainda hoje o maior campeão da história da Fórmula 1, com sete títulos, e há cinco anos que pouco ou nada se sabe do seu estado de saúde, após um acidente nos Alpes franceses enquanto esquiava. Começou quase sem nada, competindo com um kart feito dos restos de outros karts e tornou-se uma lenda. Ultra competitivo e implacável nas pistas, Domingos Piedade, que deu um empurrão decisivo para que Michael Schumacher se tornasse Michael Schumacher e é o português que melhor o conheceu, diz que o alemão é um homem bom. Que faz falta e que faz esta quinta-feira 50 anos

Lídia Paralta Gomes

Vladimir Rys/Getty

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Às vezes, um pequeno acidente de trânsito transforma-se em muito mais que um pequeno acidente de trânsito. Como naquele dia, algures em dezembro de 1990, quando um taxista de seu nome Eric Court e Bertrand Gachot, um mediano piloto de Fórmula 1, nascido no Luxemburgo mas a correr com uma super-licença da Bélgica, deram um toquezinho numa rua de Londres.

Como demasiados insignificantes incidentes na estrada, este escalou: no meio da discussão, Gachot atacou Court com gás pimenta. Nem Court nem Gachot saberiam, mas os décimos de segundo entre o momento em que o piloto premiu o spray e a chegada deste aos olhos do taxista mudariam o curso da história do automobilismo.

Uma espécie de efeito borboleta, mas a motor.

O caso chegou a tribunal e, em agosto do ano seguinte, Gachot foi preso. Era véspera de GP da Bélgica e, de repente, a Jordan ficou com um problema em mãos: era preciso encontrar rapidamente um substituto para Gachot.

E foi assim, à boleia de um irritado belga nascido no Luxemburgo, que chegamos à estreia de Michael Schumacher na Fórmula 1.

O GP Bélgica duraria apenas uma volta para o jovem alemão, mas o 7.º tempo na qualificação era apenas o prelúdio para a chegada de uma nova estrela ao paddock. Era então um miúdo ambicioso, mas tímido. Esta quinta-feira, quase três décadas após aquela estreia involuntária, Michael Schumacher completa 50 anos sem que ninguém saiba - senão os mais próximos - qual a sua verdadeira condição, cinco anos após um acidente de esqui que o deixou seis meses em coma.

Schumacher na estreia na F1, ao volante de um Jordan, no GP Bélgica de 1991

Schumacher na estreia na F1, ao volante de um Jordan, no GP Bélgica de 1991

Paul-Henri Cahier/Getty

Daí para cá, a vida de Schumacher é um mistério, páginas e páginas em branco apenas rabiscadas como uma ou outra especulação sobre o seu estado de saúde. A 3 de janeiro de 2019, data do seu 50.º aniversário, há apenas uma certeza: ele pode não ser o mais amado dos pilotos, mas nunca ninguém ganhou tanto quanto ele. Sete títulos mundiais de Fórmula 1, um feito inédito conseguido por um rapaz de origens humildes e que teve a ajuda decisiva de um português para lançar a carreira.

O ‘padrinho’ português

Domingos Piedade fala com o Expresso numa mesa onde estão três capacetes que lhe dizem muito. Um deles é do cinco vezes campeão do Mundo de motociclismo Mick Doohan, outro de Pedro Lamy. O último foi-lhe dado por Michael Schumacher no final do Mundial de Fórmula 1 de 1991, o tal em que substituiu Bertrand Gachot, que hoje em dia é mais vezes recordado como o homem que permitiu a estreia do maior campeão de sempre do que exatamente pelas suas proezas atrás do volante.

“Chegou-me às mãos na terça-feira a seguir ao GP Austrália de 1991, que era então a última prova do calendário. Ainda tinha a viseira cheia de mosquitos. É o capacete com que ele faz a parte final do Mundial. Nessa altura, ainda me tratava por 'senhor Piedade' e quando mo entregou disse-me: ‘Nunca na vida tive nada para lhe poder dar e por isso dou-lhe o meu capacete’. Este capacete não ganhou nada, mas ganhou respeito, admiração e a consideração que ele tinha por mim e pela minha família”, explica o ex-vice-presidente da Mercedes AMG, que orientou as carreiras de Emerson Fittipaldi e Michele Alboreto, que foi íntimo de Ayrton Senna e o português que melhor conheceu Michael Schumacher.

O capacete com que Schumacher terminou a sua primeira época na Fórmula 1 e que mais tarde ofereceu a Domingos Piedade

O capacete com que Schumacher terminou a sua primeira época na Fórmula 1 e que mais tarde ofereceu a Domingos Piedade

Na verdade, é justo dizer que Domingos Piedade foi o homem que deu o empurrão que faltava na carreira de Michael Schumacher. “Dei-lhe uma mãozinha”, conta-nos.

Em meados da década de 80, Schumacher corria no kartódromo de Kerpen, perto de Colónia, onde competia também o filho mais velho de Piedade, Marc. “O meu filho é que me disse: ‘Pai, lá no clube temos um miúdo que guia muito mais que eu, se puderes ajuda-o’”.

Quando se deparou com Schumacher pela primeira vez, Piedade percebeu que estava ali algo diferente. “Vi-o correr de kart, que é distinto de um fórmula. Achei que ele tinha uma condução que podia ser agressiva para os fórmula, a maneira como ele entrava nas curvas, se encostava, quase que enroscava roda com roda. Mas via-se que era diferente. E quem anda bem de kart… andando bem de kart já não é preciso ensinar ninguém a guiar, os rapazes já sabem”.

Num mundo do automobilismo em que muitos dos pilotos vêm de famílias endinheiradas ou com tradições nas quatro rodas, Schumacher precisava mesmo que alguém lhe desse uma mão. Michael e o irmão mais novo, Ralf, também ele antigo piloto de Fórmula 1, cresceram no meio do barulho dos motores mas a família Schumacher vivia apertada de dinheiro. O pai, Rolf, era uma espécie de faz-tudo no kartódromo de Kerpen e a mãe, Betty, estava atrás do balcão do barzinho onde se vendiam as salsichas e as batatas fritas em dias de corrida. Nas palavras de Domingos Piedade, “não havia para ninguém” e os primeiros karts de Schumacher eram máquinas improvisadas com peças de karts antigos e pneus encontrados no lixo, que as mãos habilidosas de Rolf juntavam.

A família Schumacher em 1991: o mais novo Ralf, a mãe Betty, Michael e o pai Rolf, junto ao café explorado por Betty no kartódromo de Kerpen

A família Schumacher em 1991: o mais novo Ralf, a mãe Betty, Michael e o pai Rolf, junto ao café explorado por Betty no kartódromo de Kerpen

Peter Timm/ullstein bild/Getty

E mesmo assim, mesmo contra karts novinhos em folha, Michael era o melhor do kartódromo de Kerpen.

“Depois de o ver falei com o Willy Weber, que tinha uma equipa de Fórmula 3 e que andava à procura de um sucessor para aquele que tinha sido campeão no campeonato alemão”, continua Piedade. Schumacher foi então testar com o carro de Joachim Winkelhock e não desapontou: na sua melhor volta foi um segundo e meio mais rápido que o antecessor. Sem dinheiro de família para assegurar o lugar na equipa, foi aqui que a ajuda de Domingos Piedade foi essencial. “Fizemos uma vaquinha entre vários construtores, desde a Ford, a Mercedes, a AMG para arranjarmos uns dinheiros para ele correr na Fórmula 3”.

Schumacher responderia à confiança com o título em 1991, na sua segunda temporada na Fórmula 3 alemã.

Schumacher, o homem

Enquanto nos bastidores ajudava a lançar a carreira de Schumacher, Domingos Piedade ia conhecendo o homem. E acompanhando o seu crescimento. “Um dia ele apareceu lá em casa. Estávamos em 1986 e eu morava em Colónia. Chegou lá assim com um ar muito humilde, muito tímido, introvertido. O Michael nem falava alemão”, conta Piedade. “Uma coisa é ter sotaque estilo do Porto. Mas nem era isso: ele falava mal. Falava dialecto de Kerpen, que é uma mistura daquilo que se fala em Colónia e Aachen. Kerpen fica mesmo no meio. É uma coisa que só eles falam e só eles entendem”, continua, relembrando os tempos em que Schumacher era visita de sua casa. “Quando fez 18 anos, comprou um Audi A80, todo tuning, com um grande tubo de escape, a fazer barulho e tal. Usava um Rolex look-alike, um fio de ouro, com um kart de ouro pendurado. Vinha às vezes à sexta ou ao sábado ter com o meu filho para irem à discoteca, porque o Marc não tinha carro. No meio daquilo tudo, as miúdas perguntavam ‘mas quem é aquele provinciano?’”

Schumacher pode não ter tido uma infância dourada, mas a inteligência que lhe é reconhecida em pista também a tinha na hora de aprender. Depois de começar a ser apoiado pela Mercedes, teve aulas de dicção, de alemão e inglês. Quando chegou à Fórmula 1, já era fluente no inglês - e com o passar dos anos tornou-se mais do que fluente; era eloquente.

O início

Voltando a esse agosto de 1991, bastou uma qualificação para Michael Schumacher assegurar o seu lugar no futuro da Fórmula 1. E Bernie Ecclestone, então homem forte da prova rainha do automobilismo, rapidamente se interessou pelo alemão. Ou melhor, pelo dinheiro que este podia trazer, dando vida a um mercado da Alemanha com muitos milhões de adeptos do automobilismo, mas sem um verdadeiro herói desde Wolfgang von Trips, que morreu no GP Itália de 1961, prova em que um terceiro lugar lhe daria o título.

E vendo um caminho mais rápido para o sucesso do que a Jordan, o excêntrico britânico rapidamente aconselhou Flávio Briatore a contratar Schumacher. Logo na corrida seguinte, o alemão já era piloto da Benetton, terminando três das restantes cinco provas nos pontos. No ano seguinte chegou a primeira vitória, em Spa-Francorchamps, no mesmo GP Bélgica onde havia feito a estreia em 1991. O Estoril viu a sua única vitória em 1993, até chegarmos a 1994.

Esse é o ano em que quase tudo muda. Ayrton Senna muda-se para a Williams com o objetivo claro do título. Mas quem vence as duas primeiras provas é Schumacher. Em Ímola, Senna morre, Schumacher ganha e no pódio festeja. Muita gente não lhe perdoa, mas a história, conta Domingos Piedade, está cheia de mal-entendidos.

“Há quem não goste do Michael porque no dia 1 de maio de 1994 ele teve essa reação. Porque antes do pódio perguntou ao Ecclestone ‘How is Ayrton?’ [‘Como está o Ayrton?’] e o Bernie disse ‘He’s dead’ [‘Ele morreu’]. Mas ele percebeu ‘He’s bad’ [‘Ele está mal’]”, explica. Eu várias vezes falei com ele sobre isso e várias vezes quando estávamos com mais pessoas eu puxava esse ponto, não para ele se justificar, mas para ele explicar... ele é um bom homem, ele nunca faria isso. O Schumacher, tal como o Senna, tal como o Villeneuve, tal como o Hamilton e tal como o Verstappen são, em bom português, uns filhos da puta dentro do carro. E têm de ser. Todos eles eram ou são agressivos dentro do carro. Fora do carro, nenhum deles é mau, nenhum deles tem um coração que seja mau. É uma coisa que me incomoda, porque não corresponde à verdade. Mas aceito que as pessoas pensem dessa maneira”.

Schumacher conquistou o primeiro de sete títulos ao serviço da Benetton

Schumacher conquistou o primeiro de sete títulos ao serviço da Benetton

Paul-Henri Cahier/Getty

Schumacher seria campeão em 1994, repetiria o título em 1995 e depois mudou-se para a Ferrari. Na mais mítica das escuderias da Fórmula 1, Schumacher demorou quatro temporadas até conseguir ser campeão, quatro anos em que foi levando os melhores para consigo trabalhar e instalando definitivamente uma mentalidade vencedora na equipa, que não conquistava um título desde 1978, com o sul-africano Jody Scheckter. E quando começou a vencer, Schumacher não parou: foram cinco títulos consecutivos, sete no total, ainda um recorde.

Ainda assim, Schumacher nunca teve a aura de Ayrton Senna, ainda que o brasileiro só tenha três títulos em seu nome. As explicações para isso não são fáceis de encontrar.

“Em Itália, por exemplo, há um adoração por um piloto que nunca foi campeão do Mundo, o Gilles Villeneuve. E o que era? Era o carisma, a beleza. Eu acho que as pessoas admiram muitas vezes a irreverência. Como o Verstappen agora, como o Ayrton antes. É normal”, conta Domingos Piedade, que acredita que o facto de um sete vezes campeão de Fórmula 1 não ter o amor incondicional que ainda hoje tem um três vezes campeão é “entendível, embora não explicável”.

Um homem simples

Talvez também ajude a vida exemplar de Schumacher fora das pistas, ele que era implacável e muitas vezes irascível dentro delas. Discreto, sóbrio e recatado, longe do espírito extrovertido de Senna, casou cedo com Corinna Betsch, que “roubou” ao colega Heinz-Harald Frentzen quando ambos ainda corriam na Fórmula 3. O exclusivo do casamento, em 1995, foi vendido à revista de celebridades “Bunte”. Schumacher pediu que o cheque fosse enviado diretamente à UNESCO, organização à qual doou cerca de 1,5 milhões de euros durante a carreira.

Na sua lista de ações solidárias estão a construção de uma escola em Dakar, de um centro de ajuda a crianças sem-abrigo no Peru e o financiamento de um hospital para crianças amputadas em Sarajevo, na Bósnia.

Mas Domingos Piedade revela que a generosidade de Schumacher vai para lá de atos públicos, dos quais nunca fez gala. “No grande Tsunami de 2004 morreu o preparador físico dele. E ele pagou tudo, além de ter feito uma doação muito grande à mulher e aos filhos dele. Estamos a falar de milhões. Ele é bom. Os alemães têm essa expressão: es ist guter. É um bom”.

Depois de quatro anos sem vencer na Ferrari, Schumacher levou a escuderia italiana a cinco títulos consecutivos

Depois de quatro anos sem vencer na Ferrari, Schumacher levou a escuderia italiana a cinco títulos consecutivos

Vladimir Rys/Getty

Piedade relembra também com saudade a humildade de um homem que nada mudou apesar de ser o maior campeão de sempre da Fórmula 1 e por quem todo o staff da Ferrari chorou quando anunciou a sua primeira retirada, em 2006. E fala de um episódio em particular, que aconteceu poucos dias antes do acidente nos Alpes franceses que mudou para sempre a vida de Schumacher.

“O acidente foi a 29 de dezembro e ele tinha estado comigo dia 19. A AMG estava a modificar um Mercedes SLS para ele se divertir a guiar. Íamos até colocar o número 45 nas portas, porque era para lhe ser oferecido no seu 45.º aniversário, em janeiro. E ele, que já tinha sido sete vezes campeão do Mundo só dizia ‘é incrível como cheguei aqui’. Para ele, que tinha tudo, o gesto era o que tinha valor. Para ele, ter avião, casas, um barco, centenas de milhões no banco, uma vida magnífica não era assim tão importante… ele gostava era de trabalhar no seu kart”.

Mais um a sofrer

As informações sobre o estado de saúde de Schumacher são escassas e evasivas e por isso é sempre difícil falar no futuro. Para Domingos Piedade parece até doloroso. “Não sei se está a melhorar, mas eu quero acreditar em algumas notícias que têm aparecido”. Piedade crê que, caso o infortúnio não tivesse batido à porta de Schumacher há cinco anos, hoje ele seria mais um pai a acompanhar o filho nas corridas - Mick é uma das atuais promessas do automobilismo. “A sofrer, que é o que os pais fazem no kart e nas fórmulas de ascensão”.

E depois de um momento de silêncio, Domingos, o mesmo que há 30 anos via Schumacher a entrar-lhe casa adentro, com o relógio falso, o seu fio de ouro e o seu carro tuning, suspira e diz apenas uma frase.

“Ele faz falta”