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Morreu Charlie Whiting, o homem a quem todos os pilotos da Fórmula 1 devem a sua segurança

O diretor de corridas da modalidade faleceu na sequência de uma embolia pulmonar, aos 66 anos, em Melbourne, na Austrália. No domingo, seria ele a dar o tiro de partida da temporada de 2019

João Pedro Barros

Whiting no Grande Prémio do Japão de 2010

Morio

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Os pilotos de Fórmula 1 são uma classe peculiar: muitas vezes egomaníacos, temerários, conflituosos. Talvez nos últimos anos o perfil médio se tenha tornado mais moderado, mas há traços que não se apagam facilmente. E havia uma pessoa que todos eles respeitavam sem reservas: chamava-se Charlie Whiting e era diretor de corridas desde 1997. Morreu na madrugada desta quinta-feira (já manhã na Austrália), em Melbourne, onde no domingo deveria dar início à sequência de luzes de arranque do primeiro Grande Prémio da temporada de 2019. Foi encontrado sem vida no quarto de hotel.

Ironicamente, a morte acontece no dia em que se inicia o programa oficial do Grande Prémio da Austrália, apesar da primeira sessão de treinos livres decorrer apenas na sexta-feira. A morte de Whiting acaba também por marcar o fim definitivo da era Bernie Ecclestone, o patrão da Fórmula 1 durante quase 40 anos, até que, em 2016, o milionário negócio passou na totalidade para os americanos da Liberty Media.

Foi a mão de Ecclestone que deu a Charlie Whiting – nascido em 1952, precisamente em Melbourne – o empurrão determinante para a sua ascensão na categoria cimeira do automobilismo. Em 1977, entrou neste mundo pela porta da Hesketh, a excêntrica equipa do lorde homónimo, que tinha como objetivo número um a diversão e não as vitórias. Passou depois para a Brabham, então liderada por Bernie Ecclestone, e chegou a mecânico-chefe, ajudando o brasileiro Nelson Piquet a conquistar dois títulos mundiais, em 1981 e 1983.

Em 1988, já a Brabham estava longe dos dias de glória, Ecclestone apontou-lhe o caminho da FIA, a Federação Internacional de Automobilismo, e tornou-se delegado técnico. A sua missão primordial era supervisionar as inspeções aos carros: a tentação inevitável de qualquer equipa de Fórmula 1 é contornar os regulamentos e introduzir (ou retirar) qualquer elemento que possa dar um centésimo de segundo de vantagem. Whiting era brilhante nessa função, reza a lenda: afinal de contas, tinha estado muitos anos do outro lado.

No entanto, fazia-o sempre (ou quase sempre, vá lá) de forma diplomática, o que cativou outro figurão do desporto, o então presidente da FIA, Max Mosley, que também valorizou as suas capacidades organizativas. Tornou-se diretor de corridas e delegado de segurança, uma função que o obrigava a manter uma relação constante com os pilotos e a ouvir as suas preocupações. Aparentemente, era desse papel que mais gostava.

Dirigia habitualmente os briefings com os pilotos nos fins de semana de Grandes Prémios e, em entrevista à “GP Week”, relembrava as míticas reuniões dos anos 80 e 90, com Senna, Prost, Mansell ou Schumacher, que eram por vezes a única oportunidade para refrear ânimos. “Hoje em dia é uma mera reunião, uma discussão para trocar ideias. É mais informal e raramente há alguma disputa verbal, o que costumava acontecer com um dos anteriores presidentes! Às vezes o diretor de corridas punha-se aos berros com os pilotos, mas isso também já não acontece”.

Whiting – no “paddock” todos os tratavam por Charlie – foi responsável pela introdução de inúmeras medidas de segurança para os pilotos, tendo a mais recente e notória sido o halo, o arco de carbono que lhes protege a cabeça. Mas as intervenções nestas matérias são muito anteriores e remontam aos tempos em que os chassis deixaram de ser de alumínio e passaram a ser de fibra de carbono. O HANS, um suporte para a cabeça e pescoço, foi outro acessório que defendeu com unhas e dentes das críticas dos pilotos e que hoje é visto como indispensável.

Talvez por isso tenha causado surpresa que, no Grande Prémio do México de 2016, Sebastien Vettel tenha mandado o diretor de corridas dar uma volta (usamos um eufemismo simpático) através do rádio. Recebeu uma repreensão, mas da parte de Whiting apenas um sorriso. O piloto da Ferrari foi precisamente um dos que já lamentou a sua morte: “Estou chocado porque ainda ontem [quarta-feira] dei uma volta a uma parte do circuito com ele. Ele era o nosso homem, o homem dos pilotos. Claro que há regulamentos e tudo isso, mas depois existimos nós e ele era o nosso intermediário. Podíamos perguntar-lhe qualquer coisa, a qualquer hora”.

Também o campeão do mundo Lewis Hamilton, da Mercedes, destacou o seu papel de moderador. "Tudo o que ele fez por este desporto, a sua dedicação, ele era de facto um pilar… Era uma figura icónica do mundo do desporto. Que descanse em paz”. O atual presidente da FIA, Jean Todt, reagiu igualmente em declarações citadas no site oficial da Fórmula 1: “Era um grande diretor de corridas, uma figura central e inimitável,que personificava a ética e o espírito deste desporto fantástico”.

No domingo, pela primeira vez em muitos anos, vai ser outra pessoa a carregar no botão e a iniciar a sequência de luzes vermelhas que dá início ao grande Prémio. Como em todos os outros casos de mortes neste desporto, o espetáculo vai continuar.