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Hamilton, sempre Hamilton, Vettel, um super-miúdo e o regresso do ponto extra: está aí a nova temporada de Fórmula 1

Arranca este fim de semana a temporada 2019 do Mundial de Fórmula 1, em Melbourne, na Austrália. Todos os anos há novidades, todos os anos há expectativas e elas estão aqui reunidas

Lídia Paralta Gomes

Abram o champanhe: após meses de espera, a Fórmula 1 está de novo aí (e Hamilton e Vettel continuam a ser favoritos)

ANDREJ ISAKOVIC/Getty

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O aproximar da primavera traz-nos o arranque de boa parte daqueles desportos que convém não praticar no pico do inverno. Motociclismo, ciclismo e, agora, a Fórmula 1.

Há várias mudanças de pilotos, novas regras, possíveis surpresas, uma grelha supostamente mais competitiva e até um new kid on the block que promete dar luta aos mais tarimbados. Tudo isto em 21 provas espalhadas pelo Mundo, com arranque na Austrália, este fim de semana, e final em Abu Dhabi, a 1 de dezembro.

Em baixo, ficam alguns pontos quentes para analisar o que aí vem. Para tal, enviámos um pedido de ajuda lá para o outro lado do planeta, em Melbourne, onde já está Duarte Félix da Costa, antigo piloto, que esta temporada será um dos homens no terreno da ElevenSports, que a partir desta temporada vai transmitir o Mundial de Fórmula 1.

Hamilton a tocar os pés de Schumacher?

A temporada de 2018 trouxe-nos a definitiva maturidade de Lewis Hamilton. Aos 33 anos, o britânico pilotou com uma frieza e fiabilidade que até então não tinha mostrado, com várias recuperações épicas à mistura, e o quinto título surgiu mesmo que o Mercedes de Hamilton não fosse o melhor carro da grelha.

Cinco títulos igualam Juan Manuel Fangio, o argentino desaparecido em 1995, que dominou a disciplina nos anos 50, mas ainda não chegam para os sete de Michael Schumacher. Mas em 2019, pode muito bem começar a tocar nos pés do alemão.

Duarte Félix da Costa está na expectativa para o que o britânico pode fazer num ano em que as novas regras para as asas dianteiras e traseiras poderão tornar a competição mais imprevisível - ou vá, pelo menos esse é o objetivo. “Com a forma que tem mostrado nos últimos anos e contando com uma grande equipa como é a Mercedes por trás, Hamilton tem tudo para bater todos os recordes. Mas esta hegemonia pode muito bem ser interrompida por uma Ferrari ou até pela Red Bull. Com as alterações de regulamento, tudo pode mudar”, explica o comentador, que mesmo assim acredita que Hamilton “tem de ser sempre considerado o principal candidato ao título”.

Lewis Hamilton pode chegar em 2019 ao 6.º título mundial e ficar a apenas um de Schumacher

Lewis Hamilton pode chegar em 2019 ao 6.º título mundial e ficar a apenas um de Schumacher

Clive Mason/Getty

Um pelotão (aparentemente) mais competitivo

Bem, não será mais competitivo no sentido de, de repente, um Toro Rosso poder ser campeão do Mundo. Mas os testes de pré-temporada mostraram que entre as três principais equipas, Mercedes, Ferrari e Red Bull, as diferenças parecem estar mais esbatidas. E depois, sempre um par de degraus abaixo dos três grandes, há um segundo pelotão com várias escuderias em bom plano, muito próximas entre si.

Os testes de Barcelona, em fevereiro, deixaram a campeã Mercedes em sentido, com a Ferrari a fazer tempos mais baixos, com um carro sólido e um motor fiável. Por tudo isto, Vettel chega a Melbourne com um certo favoritismo para a primeira corrida do ano. Mas convém não esquecer que, há um ano, o alemão também arrancou com duas vitórias, na Austrália e Bahrain, e a Mercedes e Lewis Hamilton só chegaram ao pico na segunda metade da temporada. E foram bem a tempo.

“Mesmo que a Ferrari tenha mostrado um excelente andamento nos testes em Barcelona, tanto com o Vettel como com o Leclerc, a Mercedes parece-me ter escondido jogo e estará aqui em Melbourne fortíssima como sempre. Diria que a Ferrari poderá nesta altura ter o carro mais rápido na qualificação, mas em ritmo de corrida a Mercedes talvez esteja um pouco mais sólida, portanto será interessante ver o que aí vem este fim de semana”, sublinha o antigo piloto e irmão de António Félix da Costa.

Aí estão eles todos: os 20 pilotos das 10 equipas da temporada 2019 da F1

Aí estão eles todos: os 20 pilotos das 10 equipas da temporada 2019 da F1

Quinn Rooney/Getty

Já a Red Bull, que terá o francês Pierre Gasly a substituir Daniel Ricciardo, que se mudou para a Renault, também não se está a dar mal com a troca da Renault para o motor Honda. Uma unidade de potência que tantos problemas deu à McLaren até 2017, mas parece finalmente ter encontrado a estabilidade que, por exemplo, Fernando Alonso nunca teve. Boas notícias para Max Verstappen, que poderá ter agora motor que corresponda ao seu estilo de condução atacante.

A própria Toro Rosso está a beneficiar da melhoria do motor Honda e a McLaren está finalmente a voltar à vida. São duas das equipas do meio da tabela que aparecem mais competitivas esta temporada, numa segunda linha em que a Renault e a Haas também prometem luta para, quem sabe, chegar a uns pódios.

“A guerra pelo 4.º lugar de construtores terá muita ação e é imprevisível fazer prognósticos. Entre a 4.ª e a 9.ª equipa é muito difícil prever e isso é muito bom para o público e para o espectáculo”, diz Félix da Costa, que destaca o facto de, com a exceção da Williams, esta temporada não existirem equipas com constrangimentos financeiros de maior, pelo que mesmo as equipas mais pequenas vão “apostar forte no desenvolvimento dos seus monolugares” e com isso tornar muito interessante a luta entre as equipas de meio do pelotão.

A McLaren foi uma das surpresas nos testes de Barcelona, após vários anos de indigência pela cauda do pelotão

A McLaren foi uma das surpresas nos testes de Barcelona, após vários anos de indigência pela cauda do pelotão

JOSEP LAGO/Getty

O bebé que pode tirar o sono a Vettel

A Fórmula 1 está longe de ser território vedado a malta nova. Max Verstappen, por exemplo, estreou-se aos 17 anos e 166 dias e venceu o primeiro GP aos 18 anos e 228 dias. O que não é tão normal é ver um miúdo aos volantes de um Ferrari. A escuderia italiana é ainda para muitos o pináculo da Fórmula 1 (chamemos-lhe “a cadeira de sonho”) e, com maior ou menor sucesso, sempre apostou em pilotos feitos - nas últimas décadas Michael Schumacher, Fernando Alonso e Sebastian Vettel são exemplos.

Foi portanto com surpresa que, ainda no decorrer da última temporada, a Ferrari anunciou que iria substituir o último homem a conquistar um título pela equipa, o finlandês Kimi Raikkonen, de 38 anos, por Charles Leclerc, monegasco - e que por isso mesmo cresceu no meio de carros e competição -, 21 aninhos e que em Melbourne tornar-se-á no 2.º piloto mais jovem de sempre da Ferrari. E para encontrarmos o primeiro é preciso recuar até ao início dos anos 60, quando o mexicano Ricardo Rodríguez chegou à Ferrari com apenas 19 anos e 208 dias.

Acontece que Charles Leclerc não chega à Ferrari apenas para ver Vettel passar: nos testes de pré-época, o monegasco, que entrou na academia da Ferrari em 2016 e na última época, a primeira a tempo inteiro na Fórmula 1, conseguiu conquistar 39 pontos com um fraquíssimo Sauber, fez tempos que vão obrigar o alemão a provar que é indiscutivelmente o piloto número um da Ferrari. E isso já quer dizer muito.

“Habituei-me muito rápido ao carro”, disse Leclerc durante os testes de Barcelona. “Sinto-me à vontade, o carro é muito fácil de guiar”.

Duarte Félix da Costa não tem dúvidas que Leclerc “vai vingar na Fórmula 1 e vai fazer a vida difícil a Vettel”. O comentador da ElevenSports acredita até que o monegasco já provou em 2018 que “com a cabeça no sítio e um carro bom pode mesmo lutar pelo título com a Ferrari”. Mas ainda assim deixa um alerta: “Uma coisa é rapidez, outra é maturidade e experiência em corrida”.

Charles Leclerc, o segundo piloto mais jovem de sempre da Ferrari

Charles Leclerc, o segundo piloto mais jovem de sempre da Ferrari

Mark Thompson/Getty

O ponto extra e o que eles pensam dele

É uma das novidades para a época que arranca este fim de semana: a introdução de um ponto extra para a volta mais rápida. Na verdade, não estamos a falar de uma absoluta novidade mas sim de um regresso, já que esta regra foi uma realidade nos primórdios da competição, entre 1950 e 1959.

Há, no entanto, uma regra dentro da regra que tira alguma graça à regra, passe a redundância: o ponto extra só será atribuído caso o piloto mais rápido da prova termine no Top 10, o que poderá evitar que pilotos menos cotados se aventurem em grandes riscos.

A decisão de fazer voltar o ponto extra por volta mais rápida é o resultado de uma sondagem feita pela Liberty Media, que em 2016 comprou os direitos comerciais da Fórmula 1. O grupo norte-americano quer assim aproximar ainda mais a competição ao público e o facto é que desde que o campeonato passou a ser gerido pela Liberty Media que as audiências têm aumentado - só no último ano subiram 10% em relação à época anterior.

Entre os pilotos, reina a velha máxima: esperar para ver.

“Acho que pode ser bom, mas também jogar contra os pilotos”, sublinhou Max Verstappen na conferência de antevisão. Já Daniel Ricciardo admitiu ainda não ter pensado sobre o tema, mas acredita que a medida “não irá decidir campeonatos” e Vettel também não crê que o ponto extra vá “mudar muita coisa”.

O mais recetivo à ideia até parece ser Lewis Hamilton, que não só conduz bem como tem faro para o espectáculo e para tudo o que, não sendo essencial, também faz parte: “São 21 pontos extra e por isso acho que vai ser bem interessante perceber como é que os pilotos vão tentar ir atrás desses pontos”.

Aqui, a palavra poderá não ser tanto “competição”, mas sim “público”. Ou “espectáculo”.

“É uma regra que faz todo o sentido. Se decidimos campeonatos na última volta, porque não decidir na última corrida, mas por uma volta mais rápida? Dá ainda mais show para quem está em casa. E é isso que as pessoas gostam na F1”, sublinha Duarte Félix da Costa.

E sobre esta regra, sobre para onde pode crescer a Fórmula 1, está aqui tudo explicado.